Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











quinta-feira, abril 27, 2006

A Máquina da Verdade

A primeira vez que entrei na cadeia de Vale de Judeus foi para visitar o padre Frederico.
Shocking, isn`t it? Pois… fui lá perguntar-lhe se aceitava ser entrevistado por mim e submetido a um teste com um polígrafo, o vulgar detector de mentiras. Pensei que ele ia desatar a gritar pelos guardas para me porem dali para fora, mas não… olhou-me, com aqueles olhinhos redondos muito abertos, pensou e disse que sim.
O padre Frederico Cunha, brasileiro, cumpria pena de prisão por ter sido considerado culpado do homicídio de um rapaz, na Ilha da Madeira. O padre era membro da Ordem dos Crúzios, uns tipos meio estranhos, místicos, uma ordem religiosa oriunda da Holanda, se não me engano.
O padre Frederico tinha sido condenado por “convicção do tribunal”, ouvi eu o digníssimo juiz dizer quando proferiu a sentença. Só mesmo por convicção, porque ninguém tinha assistido ao crime e havia até várias testemunhas que ilibavam o padre. Mas, um tipo como Frederico Cunha tem sempre ar de culpado. Gordo, baixinho, suado, titubeante, meio gago, sotaque estranho, incapaz de olhar outros de frente, homossexual.

Confesso aqui que nunca acreditei na culpa do padre. Talvez isso tenha ajudado a convencê-lo a alinhar na história do polígrafo. É claro que, fosse qual fosse o resultado do teste, aquilo não passaria de um programa de televisão e, portanto, não iria influenciar quanto ao cumprimento da pena de prisão. Quer ele passasse no teste, quer não, continuaria preso a cumprir a pena decretada. Pedi autorização para que o padre pudesse ser escoltado até ao estúdio para se gravar a entrevista. O Director-Geral dos Serviços Prisionais não viu inconvenientes e aceitou deixar que Frederico Cunha saísse da cela para ir à televisão. Mas ninguém sabia do polígrafo…
Quem manipulava a máquina era um tipo italiano, esperto na matéria, psicólogo ou coisa parecida. As questões eram combinadas com ele. Um interrogatório com polígrafo tem regras. Podia perguntar o que quisesse, mas tinha de combinar a sequência com o italiano. O programa foi feito. No final, o padre Frederico passou no teste: “fala verdade quando diz que não matou”; “fala verdade quando diz que não conhecia” a vítima do crime; “fala verdade quando diz que nunca se encontrou” com a vítima. Pode-se enganar um polígrafo? Pode. Mas é muito difícil. A máquina é usada pela CIA para controlar os seus próprios agentes, é usada pela Mossad e por outras polícias no Mundo.
Quando o programa foi exibido, caiu o Carmo e a Trindade. Que ofensa às instituições! Que afronta à dignidade dos tribunais! Que nojo de televisão! Proíbam-no! Calem-no! Fechem a baiuca! Ponham-no a ferros! Crucifiquem-no!
Meses depois, deixaram fugir o padre Frederico. Quando voltei a falar com ele, foi em Copacabana, Rio de Janeiro.

As fotos do padre Frederico foram gentilmente cedidas por Frederico Duarte Carvalho.

10 comentários:

escrevi disse...

É verdade...
O aspecto tem muita influência.
É estúpido, mas damos por nós a interronar-nos: tem ar de pedófilo?
Como se isso se visse pelo "ar".
Eu também sempre estive convencida da culpa da padre Frederico, acho que o "ar" dele contribuiu. Agora ficou a dúvida...
O que pensar depois de um jornalista sério fazer esta reportagem?
A condenação já ninguem lha tira. Mas é terrível se foi injusta.
E os outros? e os que tem um "ar" perfeitamente dentro dos parametros ditos normais?
Esses estão a ser juldados (nem todos) e se calhar, também pelo seu bom "ar", serão absolvidos?!
Tu, apesar do ar cínico que teimas em colocar nos teus comentários, tens um coração do tamanho do mundo. Deve-te ser difícil digerir a quantidade de informação (vivências) que tens e manteres o equilíbrio.
Continua a informar-nos.
Afinal não é essa a função dum Jornalista?

para mim disse...

Também falei com ele no rio de Janeiro, em casa da mãe (onde foram tiradas as fotos). Numa altura em que acreditava que a Justiça era cega, sempre pensei que ele era culpado. Depois de conhecer detalhes do julgamento que desconhecia, soube que afinal não soubera tudo. Não sei se ele é inocente - isso é com ele e com o seu Deus -, mas que não teve um julgamento justo junto dos homens, lá isso não...

Armando S. Sousa disse...

Lembro-me da polémica que deu a exibição desse programa de televisão, no entanto, têm razão, quando diz que o aspecto, provoca influência no julgamento das pessoas.
Eu por exemplo, tenho que reconhecer, dou razão à justiça portuguesa, por o ter condenado, na realidade,por ser influenciado pelo aspecto e pelo timbre de voz do padre Federico.
Um abraço

125_azul disse...

Pois não sei o que dizer, nem me compete julgar, mas é verdade a "coisa" da aparência conta e muito. A ponto de nos fazer supor que, se não foi culpado daquilo, era de certeza de outras coias. Preocupa-me é: se não foi ele, quem foi? Fará de novo?

marta r disse...

Esse episódio do polígrafo hoje passava nas calmas em qualquer canal de TV sem escandaleira nenhuma. É curioso o efeito do tempo.
Quanto à importância das aparências, isso é que é mais dificil de sofrer mutações. Um gordo baixinho é sempre um gordo baixinho. Só pode ser culpado.

Isabela disse...

Lembro-me sempre do programa quando ouço falar do referido teste e questionam a sua eficácia.
É possível enganar a máquina, apasar de tudo. Eu nunca conseguiria.
O padre Frederico tem cara de pedófilo, é verdade. Imagino-o nessas cenas. Quanto ao resto, não faço a menor ideia.

Isabela disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
Sofocleto disse...

O que é que eu posso dizer mais que os outros comentadores já o não tenham feito? O tipo tem um aspecto pouco feliz. Quanto ao julgamento, não sei de nada.

aquiperto disse...

Eu só acho que foi mais uma história muito mal contada... Interesses mais altos se levantavam, e o Pe. Frederico foi o bode expiatório - é o único modo de explicar a sua "fuga" pró Brasil...

Su disse...

o padre frederico foi um optimo bode expiatório, nunca acreditei nem acredito que tenha morto o moço, mas a justiça ... claro q estando tanta gente envolvida....
claro que alguém teria de ser condenado com garantias já para depois ser "liberto"....enfim por cá diz se o que padre frederico fez...faria.....
opss qq dia eu escrevo em código:))) ehehehehe
jocas maradas

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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