Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











segunda-feira, janeiro 02, 2006

Shalom

Novembro de 1989, Cisjordânia.
Nablus era uma cidade cercada e forçada ao recolher obrigatório mais severo. Não se podia entrar na cidade, não se podia sair, ninguém podia circular nas ruas. Havia duas semanas que a população estava impedida de sair de casa, de ir ao mercado comprar comida, de ir ao médico, de ir à escola. Havia duas semanas que uma multidão esperava, na estrada, em frente à barreira da tropa. Era uma multidão de quase só homens que, duas semanas antes tinham saído de casa, de manhã, para ir trabalhar fora e que nunca mais conseguiram voltar. Era uma situação insuportável. Depois de fazer reportagem na estrada, junto à barreira, impunha-se entrar na cidade para retratar a vida de uma população inteira fechada em casa.

Seguimos pelas montanhas, a corta-mato, eu mais o Carlos Aranha e o guia palestiniano. Entramos em Nablus de noite e era quase madrugada quando conseguimos chegar ao kasbah da cidade sem sermos apanhados pelas patrulhas israelitas. As ruas estavam desertas. As paredes cheias de graffitis e frases em árabe que o nosso guia ia traduzindo… diziam as pichagens que aquela era uma zona considerada “libertada” do domínio do exército israelita. Descobrimos o que isso queria dizer quando, pouco depois, fomos sequestrados por um grupo que se intitulava “Águias Negras” e que, segundo entendi, obedeciam às ordens de Abu Nidal, um tipo considerado terrorista.
Fomos levados para uma casa, fechados numa sala, despojados de toda a documentação e equipamento de reportagem. Os palestinianos pensavam que nós éramos soldados israelitas disfarçados de jornalistas… durante horas os sequestradores discutiram com o nosso guia. Era difícil seguir o rumo da discussão, porque era em árabe…
Várias horas depois, não sei bem quantas, havia um rapazito na sala que se foi aproximando e, em dado momento, me saudou: shalom!, disse ele. Naquele segundo, fui iluminado pelo instinto de sobrevivência e percebi que a saudação era uma armadilha. Shalom dizem os israelitas quando se cumprimentam. Os palestinianos dizem marhaba… tive a sorte de o perceber, tive a sorte de não reagir por reflexo, tive a sorte de saber a palavra em árabe. Tivemos muita sorte porque, acredito, se tivesse respondido shalom estaríamos mortos pouco depois.

3 comentários:

para mim disse...

Como diria o outro: "Xau Laura"!
E se tivesses dito "Eusébio", "Benfica" ias ver que também te safavas!... Por favor continua com mais histórias!...

CN disse...

sim, tens razão. Eusébio e Benfica sempre foram "marcas" mundialmente conhecidas. mas não me sairam, na hora...

Isabela disse...

Blogda-se... agora é mesmo caso para dizer.
CN, gostei muito, muito do seu blog. Parabéns. Fico feliz por saber que agora posso lê-lo aqui.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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