Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











terça-feira, janeiro 03, 2006

A Escola

É uma obra notável, não apenas pela dimensão adquirida ao longo dos anos, não apenas pelo impressionante número de 600 alunos que a frequentam, não apenas pelo facto da escola estar também aberta à alfabetização de adultos, não apenas porque além das letras também se dá sopa naquela escola… mas porque, além de tudo isto, a escola do Padre José Júlio foi erguida no local mais improvável, na ocasião menos possível… é que, naqueles anos, já perto do fim da guerra civil, a guerrilha intensificou as acções militares nos arredores da capital moçambicana.
A Freguesia de Benfica ainda hoje é a última da cidade. Para lá da última casa, era a terra de ninguém, o campo das batalhas. Milhares de refugiados montaram tendas ou ergueram palhotas à volta da Igreja de Santo António. O pequeno bairro periférico transformou-se, por isso, num dos maiores bairros da lata de Maputo, com tudo o que isso acarreta. Pobreza, ignorância, crime e abuso. Tudo isto e mais uma escola.

Quinze anos depois, o Padre José Júlio persegue o mesmo sonho. A escola está lá, mas é preciso mantê-la de pé, não deixar que o telhado das salas de aula tenha demasiadas goteiras, substituir os vidros que se partem, as lâmpadas que se fundem, as tábuas que o caruncho come. É uma luta que não dá tréguas. É uma guerra quase sem aliados. Estranhamente, as ajudas são poucas. Para além da caixa das esmolas da igreja, quase nada mais existe. O Estado moçambicano não tem o suficiente para as escolas públicas, quanto mais para apoiar escolas privadas, mesmo que sejam de missões religiosas. Talvez, o Estado português pudesse ajudar… mas também parece que não. Quando o Padre José Júlio construiu a escola, o Instituto Camões forneceu uma pequena biblioteca. E ficou por aí, o apoio institucional de Portugal. Os livros da biblioteca nunca mais foram renovados ou acrescentados, sequer. E não deixa de ser verdade que é português que se aprende na escolinha da Igreja de Santo António de Benfica.

Curiosamente, o dinheiro que possibilitou a construção da escola foi doado pela cooperação norueguesa.

3 comentários:

Mendes Ferreira disse...

excelente blog....bloga-se....:)


obrigado.
abraço.

Isabela disse...

Os países nórdicos são os grandes financiadores internacionais de países como Moçambique.
Excelente história. Era interessante poder fazer qualquer coisa para ajudar o padre Júlio a manter a sua escola.

CN disse...

Pois era, Isabela. Mas deixe lá, há outras escolas mais necessitadas. O caso de algumas irei aqui contar.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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