Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











sexta-feira, janeiro 13, 2006

A Gorjeta

No início da década de 80, Lisboa estava rodeada por imensos bairros das lata. Mais parecia uma cidade sul-americana que uma capital europeia. Foi então que começaram a derrubar as barracas e a dar casas minimamente decentes a essas pessoas. O processo nem sempre foi pacífico. Havia quem gostasse de viver na barraca e não quisesse trocar, havia quem achasse que tinha mais direito que outros a quem já tinham atribuído casa nova, as confusões abundavam.
O Bairro da Boavista, ali ao lado do Parque de Campismo de Monsanto, deve ter sido dos primeiros a ser requalificado. À medida que as barracas iam caindo, os apartamentos eram distribuídos. Um dia, lá fui. A reportagem era para um magazine informativo semanal apresentado pelo Carlos Pinto Coelho. O programa chamava-se “Fim-de-Semana”, passava aos sábados e foi um sucesso de popularidade.
Havia, portanto, bronca por causa da atribuição de chaves das casas novas… assim que o povo viu o carro da RTP, nunca mais foi possível ficar só. Uns gritavam, outros empurravam, outros puxavam, foi uma balbúrdia. Fui levado de barraca em barraca, para ver com os próprios olhos as condições miseráveis em que todos viviam. Uma daquelas pessoas, um homem grande e gordo, insistia que eu tinha de ir ver a barraca dele. Não foi possível contrariá-lo, embora já não tivesse necessidade de filmar mais. Disse ao camera-man que me acompanhava para fingir que filmava, porque já tínhamos material suficiente. E assim fomos à bendita barraca, lá vimos a assoalhada e meia em que o senhor vivia e as goteiras do telhado de chapa. O morador vociferava exaltado coisas contra a Câmara Municipal, mas boa parte da excitação era por se julgar na televisão… No final, mesmo antes de entrar no carro, o tipo enfiou-me uma coisa no bolso da camisa… era uma nota de mil escudos. Uma gorjeta… tentei recusar, explicar que jornalista não aceita pagamentos daquele género… e quanto mais eu falava, mais ele avermelhava as bochechas de raiva. Quando me calei, ele disse que aquele era “dinheiro honesto” e que eu recusava por ele ser pobre… isto é, por a gorjeta ser pequena… Aceitei.
Ainda hoje acho que fiz mal.

6 comentários:

i. disse...

talvez se tenha sentido na obrigação rara de pagar o "serviço público".
de qualquer maneira, 1000 escudo há 20 anos era uma pequena fortuna....

para mim disse...

Não é nada. O tipo, naquela altura, já pensava que todos os jornalistas eram um vendidos e tinham o seu preço... Isso não quer dizer que fizeste mal em aceitar, pois o tipo ficaria mesmo a pensar que querias mais e nunca iria entender as verdadeiras razões da tua recusa...

CN disse...

"pequena fortuna" é um exagero. Era dinheiro, de facto. Deu para umas cervejas e uns tremoços, para limpar a poeira da garganta, naquela tarde de Verão.

CN disse...

e ainda aconteceu outra coisa. se não tivesse aceite o maldito dinheiro, o tipo ia bater-me. tive essa sensação. e... não me apetecia levar porrada daquele gajo, muito menos por aquelas razões.

LA disse...

Estou a gostar bastante do blog, vou tentar lêr os arquivos todos! Espero que as histórias não se esgotem!
luis

Isabela disse...

Se não tivesse aceite a "gorjeta" não só arranjava um problema sério, como o homem nunca compreenderia a indignidadede um suborno.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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