
http://letrasdeferro.blogspot.com/2011/05/intervencao-de-carlos-narciso-na.html
O que se passa é o seguinte... não sei muito bem como funcionam as instituições, nem fui mandatada para angariar seja o que for, mas o que é certo é que sou (somos!) muitas vezes abordados na rua por pessoas que desejariam aprender português mas não possuem um livro sequer e vão pedindo, o que é mto bom. O que é certo é que a minha biblioteca pessoal não suportaria tanta pressão e nem eu, nos míseros 50 quilos a que tive direito na viagem, pude trazer grande coisa para além dos livros de trabalho de que necessito.



Há um livro, recentemente editado, que deveria ser de leitura obrigatória para todos. Todos, sem excepção. Cada página desse livro é uma lição de coragem e desassombro.
No livro, percebe-se que Savimbi fintou a morte mais do que uma vez, ao longo desses últimos meses, jogando ao gato e ao rato com as forças inimigas que o perseguiam. Mas o cerco apertava-se a cada dia que passava, como se o exército governamental soubesse onde Savimbi andava. Há várias teorias sobre isso. Uns dizem que os satélites militares americanos espiavam a marcha da coluna de Savimbi, dando indicações sobre a sua localização ao governo angolano. Outros dizem que o dirigente da UNITA foi localizado pelos americanos, sim, mas através do sinal do telefone satélite que era frequentemente utilizado para contactos com membros e aliados da UNITA no exterior de Angola. Provavelmente, as duas teorias estão certas e os EUA utilizaram toda a tecnologia disponível para ajudar Luanda a vencer aquela guerra. O que é certo é que, de facto, Savimbi tinha pelo menos um telefone satélite. Do meu espólio desses tempos de brasa em Angola, mostro-vos a folha do meu bloco onde está anotado o número desse telefone satélite: 00871382082111.


O José Milhazes publicou, no seu blog, uma história onde fala da presença de militares soviéticos a combater ao lado das tropas governamentais angolanas durante a guerra civil. Milhazes resume um livro que leu (e que eu adorava ler, também) intitulado “Tropas Especiais Russas em África” e menciona a participação de conselheiros militares soviéticos nos combates em Cuito Cuanavale, a “Estanilegrado angolana”.
Curiosamente, no livro de Alcides Sakala (que já referi aqui), “Memórias de Um Guerrilheiro”, não vi nenhuma menção à presença de mercenários russos nas hostes da UNITA. Nem todas as verdades são para serem reveladas… sabe-se lá porquê. Sakala menciona várias vezes a participação de pilotos brasileiros nos bombardeamentos a populações afectas à UNITA, mas nunca mencionou a presença de russos combatentes.



Agora, transponham esta história que acabo de relatar para a actualidade. Uma outra potência invade um estado bastante mais fraco, sob o pretexto de ir livrar a população da opressão exercida pelos dirigentes políticos locais. Tudo acaba numa chacina inútil, em que ninguém se dá ao trabalho de contar as dezenas de milhar de mortos de um lado, mas sabe-se com exactidão que já morreram 2.263 marines do outro lado. Tudo isto, finalmente, apenas para controlar os “armazéns de marfim”…



Agora, talvez queiram saber porque falo neste livro… primeiro, porque acho extraordinário que este livro, que é apresentado como obra de ficção, chame todos os bois pelo nome próprio. Isto é, Albino Luciani é o Papa João Paulo I, Paul Marcinkus é o arcebispo norte-americano que dirigia o Banco do Vaticano, Roberto Calvi é o banqueiro italiano conhecido como o “Banqueiro de Deus” e que foi encontrado enforcado debaixo de uma ponte em Londres, depois da morte do Papa, Lúcia dos Santos é a “nossa” irmã Lúcia, entre outros personagens que participam na história.
Os cangulos, esses, são todos iguais. De madeira e pesados. Os roboteiros (não descobri porque lhes chamam assim…) trabalham sem horário e só param quando não têm mais clientes. Estes homens (nunca vi uma mulher roboteira) passam o dia a empurrar os cangulos, sempre por pouco dinheiro. Não vale a pena aumentar a tarifa, porque a clientela não tem mesmo como pagar mais… além de que a concorrência existente nesta actividade impossibilita que os preços subam.
É que há sempre alguém disposto a fazer o frete por menos uns kuanzas. É a perfeição do sistema capitalista, da lei da oferta e procura. Irónico, não é?
Mas acontece com muita frequência, podem crer. Estive na cidade apenas duas semanas e vi isso acontecer mais do que uma vez. Isto é, vi aquela malta a fugir da polícia com a tralha às costas, uma vez no bairro Azul, outra na estrada que atravessa o bairro da Koreia. E se fugiam, por alguma coisa seria…
Os zungeiros compram os produtos nos armazéns dos chineses, a preços muito baixos, e procuram revender, depois, pelas ruas, procurando um mínimo de margem de lucro, apenas o suficiente para comer naquele dia e, no dia seguinte, voltar a comprar outra traquitana qualquer para revenderem de novo.
Quem tem a sorte de morar à beira de uma rua mais movimentada, monta banca mesmo na porta de casa.
É assim, um dia de cada vez…