Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











segunda-feira, março 06, 2006

Congo, 2001 - A Expedição, caçar para comer

Por aqueles dias, Constant Silengbe, um dos caçadores de elefantes de Bili, matou um animal, um macho adulto. Filmar o esquartejamento só foi possível porque convencemos um conhecido do caçador a usar uma das nossas handycams. Silengbe, o caçador, é um antigo soldado de Mobutu que ficou desempregado. Matar elefantes é o único modo de ganhar a vida que foi capaz de encontrar. E cada elefante morto dá trabalho a dezenas de outras pessoas. Esquartejar, fumar e carregar a carne de um elefante é tarefa que ocupa uma dúzia de homens durante uma semana.
Para o caçador, o marfim de um animal vale pouco mais de 50 euros. A carne vale 5 vezes mais… depois de fumada, é transportada ás costas ou em bicicletas até à fronteira com a República Centro Africana, a cerca de 100 quilómetros para Norte. Na venda ao público, a carne de elefante atinge preços elevados, tanto mais quanto escasseia à medida que os caçadores têm dificuldade em encontrar animais para abater. O elefante vai desaparecer da vida selvagem. Nesta região já quase desapareceu. Todos os animais que ainda aqui vivem são regularmente perseguidos pelos caçadores locais. Para além do rendimento financeiro que a caça proporciona, é do consumo desta carne que as populações adquirem as proteínas necessárias para sobreviverem.
Nesta luta pela sobrevivência, o caçador também corre riscos. As armas são velhas e muitas de construção artesanal. Algumas vezes, a arma rebenta na cara do caçador… as balas são feitas assim: abre-se um cartucho de zagalotes, derretem-se as pequenas bolas de chumbo, o chumbo derretido é moldado numa única bala, tosca mas mortífera. Volta-se a colocar o chumbo dentro do cartucho cheio de pólvora, compacta-se bem com folhas, pedaços de madeira ou bambu… se não rebentar com a arma na cara do caçador, este tipo de bala consegue ferir de morte qualquer animal, seja de que tamanho for. Assim caem elefantes e búfalos… como o desta foto, de cuja carne nos alimentámos durante alguns dias. Se para matar um animal grande são precisas armas de fogo e munições de grande calibre, os mais pequenos são apanhados em armadilhas rudimentares… ou caçados com arco e flechas.A grande maioria dos caçadores da tribo Azande ainda usa flechas envenenadas, que não precisam de acertar em nenhum órgão vital da vítima. Basta furar a pele, se o veneno entrar na circulação sanguínea, o animal caçado não tem a mínima hipótese de escapar… A liana de onde se extrai o veneno já nos tinha sido mostrada por Makassi, um dos caçadores que fazia parte da expedição. Segundo as explicações de Makassi, a liana é cortada em pedaços, esmagada num almofariz e cozida em fogo lento. Deste cozinhado sai um liquido escuro que mata qualquer animal. Um homem morre em meia-hora de grande agonia. Um macaco não resiste 10 minutos.

4 comentários:

Sony Hari disse...

Com este último parágrafo até parecia que estava a ver um episódio do CSI (com animais selvagens)!

Isabela disse...

Esta última foto é horrível. As unhas do animal parecem as de uma pessoa.
E ninguém lhes explica que a extinção destes animais, dos quais agora se alimentam, os vai destruir também? Que a seguir não vai haver animais para matar nem par comer? Que talvez não fosse mau plantar um amendoins, umas abóboras...Isto chatei-me Carlos, muito.
Estamos à espera de quê?

Lâmina d'Água, Silêncio & Escriba disse...

Isabela...
Me fizeste rir!!!

Adorei teu comentário sobre a possibilidade de se alimentarem de outras tantas formas. Não li o texto e passei batido pelas fotos terríveis, mas vim espiar os comentários e me identifiquei com o teu. Também penso desse modo, embora eu saiba que sempre há zilhões de explicações para cenas dessas, mas que em nada amenizam e justificam a crueldade e falta de senso. Podiam trocar essas cenas terríveis, por folhas... Capins... Talos e outros vegetais, caso não haja mesmo outro modo de alimen tação à vista. Sabemos tratar-se de um sistema sóciocultural, mas ainda assim, é gritante...

Acabei por parasitar o CN, para falar contigo...
Desculpas CN...

ò,ó

bogas disse...

Oi,Carlos
Tudo o que escreveste sobre a peça da Pedreira do Húngaros me parece certo. É um género de reportagem irrepetível Não tanto porque éramos e somos geniais, mas porque os tempos mudaram e o jornalismo também.
A propósito, lembras-te de quando fomos fazer a reportagem de um despejo e o morador de uma barraca quis compensar-nos como uma nota de 20 escudos? Nós a dizer-lhe que não podíamos aceitar, e o homem ofendido com a nossa recusa e a desculpar-se por ser pouco... Acabámos os três numa tasca a diluir em cerveja os 20 paus dele e os nossos. Lembras-te?

Aquele Abraço,
Mário Lindolfo

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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