Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











segunda-feira, março 13, 2006

Congo, 2001 - A Expedição, os pequenos monstros

As semanas iam passando e a vida tornava-se cada vez mais difícil.
A água escasseava, o calor aumentava e os mosquitos, abelhas e outros insectos não nos deixavam em paz. As abelhas eram atraídas pelo suor. Eram uma presença constante nas caminhadas. Era uma sensação estranha ter abelhas pousadas na cara e nos braços para nos beberem o suor. Ao entardecer, o acampamento era assaltado pelos insectos. Além dos mosquitos, havia a mosca da manga e outros pernilongos esquisitos. Tantos mosquitos, abelhas, moscas e aranhas acabaram por ter consequências para a saúde de muitos dos participantes da expedição. O septuagenário George Schaller, foi o primeiro a sofrer com diarreias preocupantes. Mas também o jovem João Duarte teve de suportar febres estranhíssimas e desinteria durante vários dias e eu acabei por sair de lá com malária… mas o ataque mais estranho veio da mosca da manga. É uma mosca que também não se importa de colocar ovos na roupa que seca ao sol. Desses ovos nascem umas larvas minúsculas que se incrustam debaixo da pele e aí permanecem, comendo e crescendo, até se transformarem de novo em moscas. Tecnicamente, as larvas chamam-se philáreas antropófagas. São dolorosas e difíceis de extrair. O holandês John Valk (o branco na imagem acima), o homem que dirigia o acampamento da expedição, foi um mártir dessas larvas. Tinha dezenas por todo o corpo. Eu tirei duas larvas gordas, uma das costas e outra do braço direito… E, depois, foi a vez da matacanha, a famosa pulga-do-pé, que atacou quase todos os participantes da expedição… é um pequeno animal que vive em zonas poeirentas. As fêmeas enterram-se na pele humana, quase sempre nos pés, por baixo das unhas, onde provocam feridas dolorosas. A extracção da pulga requer perícia. É importante não rebentar o saco cheio de ovos que está na extremidade do abdómen da pulga. Se o saco se romper, a infestação continua e será necessário queimar a carne do paciente para garantir a destruição de todos os ovos da pulga. Para a pulga ser extraída, é necessário descarnar cuidadosamente a zona onde o bicho penetrou. Tudo sem anestesia e com instrumentos cirúrgicos tipo pau aguçado. É uma carga de trabalhos inacreditável…

8 comentários:

Isabela disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
Isabela disse...

Eu andava sempre descalça. A minha mãe gritava-me, "olha a filária, rapariga!" Só agora, ao ler isto, percebi que era a "philarea".
O meu pai apanhava esta bicharada toda. Tinha ataques de malária verdadeiramente assustadores. E carraças metidas pela carne dentro, de vez em quando. E doenças de pele. E, depois, aquilo tinha de ser tudo lancetado a sangue frio. Era uma carga de dores inacreditável!
Mas essa tal matacanha consegue atacar gente bem calçada?

CN disse...

é mais difícil, mas consegue.

planaltobie disse...

As bitacaias (matacanhas, noutros sítios) tiram-se bem com uma agulha aquecida, (para assustar os ignorantes dizíamos ´em brasa`) é necessario descarnar à volta. A fotografia eh, eh, apanhei muito disso...

Isabela disse...

Isso da matacanha, cá para mim, é pior que o Regressado Silva.

Caiê disse...

A vida sem anestesia... :)

Sony Hari disse...

Estou tão impressionada, que me apetece calçar umas botas com 12 cm de sola de borracha ...

Denudado disse...

Ainda estou para perceber como é que nunca tive matacanhas... Que sorte que eu tive, hem? :-)

Uma vez, enquanto assistia a uma extracção de matacanhas do pé de um rapaz negro que gritava como se o estivessem a matar -- porque se lhe rebentou o saco dos ovos e foi preciso causticar aquilo -- lembrei-me de uma afirmação que tinha lido algum tempo antes, feita por um médico belga que tinha estado no Congo. Dizia o animal que os negros não sentem a dor e que, por isso, ele não se preocupava com as dores que pudesse causar aos seus doentes!!!

Agora lembrei-me da lembrança e noto que às vezes não podemos sequer acreditar em tudo o que alguns dizem «Eu sei como é, eu estive lá!»

É claro que isto não se aplica ao Carlos Narciso. Eu, que andei por florestas semelhantes, posso corroborar diversas afirmações suas. E posso, inclusive, acrescentar que as verdadeiras feras de África não são os leões nem os rinocerontes; são as moscas, as formigas e os mosquitos. E as matacanhas, claro.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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