Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











sábado, março 11, 2006

Congo, 2001 - A Expedição, água

A liana de onde se extrai o veneno que se põe na ponta das flechas foi-nos mostrada por Makassi, um dos caçadores que fazia parte da expedição.
Se umas lianas são venenosas, outras podem salvar-nos a vida. Uma das lianas mais procuradas por quem tem de palmilhar a floresta na estação seca é a “kilinbiá”, a liana que mata a sede. Esta raiz aérea tem a capacidade de armazenar água no interior oco. Este é apenas um dos muitos exemplos da diversidade da natureza. E é fantástico ter este tipo de conhecimento… Todos nós aprendemos a procurar a kilinbiá, a liana que dava de beber. Acabou por se tornar uma necessidade. A época seca estava a meio e os poços escavados nos pântanos da floresta secavam rapidamente.

na imagem: João Duarte a matar a sede

A falta de água é preocupante num ambiente tão quente e com uma actividade física esgotante, como era o caso. Principalmente para nós, os brancos, muito mal preparados para sobreviver num ambiente daqueles. Tenho a certeza absoluta que, qualquer um de nós, sozinho, naquele mato, não sobrevivia uma semana… Aqueles caçadores, homens do mato, sabem tudo sobre a Natureza que os rodeia. Caminham descalços, sem ruído. Cheiram os animais à distância. Orientam-se sem bússola no emaranhado da floresta. Usam as folhas como copo para beber água dos regatos. Imitam o som do animal que vão matar, para melhor o atraírem para o alcance do tiro. Falam pouco. São solidários. São duros que nem cornos. Caminham horas a fio, sem cansaço visível. E morrem em silêncio, sem se dar por eles. Morreu um, ao fim de três dias de febre. Deve ter sido a malária… mas nunca vamos ter a certeza.

7 comentários:

Isabela disse...

"Caminham descalços, sem ruído. Cheiram os animais à distância. Orientam-se sem bússola no emaranhado da floresta. Usam as folhas como copo para beber água dos regatos. Imitam o som do animal que vão matar, para melhor o atraírem para o alcance do tiro. Falam pouco. São solidários. São duros que nem cornos. Caminham horas a fio, sem cansaço visível. E morrem em silêncio, sem se dar por eles." Isto, tirando a parte dos animais a matar, que eu sou praticamente vegetariana, é o quê, o mundo perfeito?
Prosa de cinco estrelas, hein?

planaltobie disse...

Os melhores pisteiros angolanos são os cuanhamas. O exército português, sobretudo os dragões (cavalaria) em SPorto, utilizavam-nos para perseguir.

PCosta

Kamikaze disse...

Ó Carlos,


É a prova de que a sabedoria é algo de muito subjectivo e que nobreza do ser não se compadece com a cor da pele, com etnias, nem com estatutos sociais.
Isto é um post digno de figurar no National Geographic!
Sai um comentário do tipo “copy /paste” para notificar que valores mais altos se alevantam , os quais me põem fora da “base”, de segunda a sexta, durante todo o dia (e parte da noite), não me dando tempo suficiente para dormir, quanto mais para... Folga hoje(sábado) e amanhã de manhã, porque, à tarde, está no ir. É arrumar a mala e partir. Só voltarei às missões de rotina, a partir de 20 de Março. Pronto, e está, mais ou menos, explicado!
Aproveito, assim, a hora da sesta(apetecia-me era estar a pôr o sono em dia) para fazer esta visita relâmpago, com o intuito de desejar um óptimo fim-de-semana e, por que não, boas bloguices!

Um abraço!

Denudado disse...

Carlos, os homens de que fala eram pigmeus ou bantus?

CN disse...

Bantus. Tribo Azande. Mas, curiosamente, utilizam várias técnicas de caça que os pigmeus também usam. Acho que todos os povos bosquímanos têm traços culturais comuns.

Caiê disse...

Sentimos vontade de estar aí... Fascinantes, essas pessoas. Parte da natureza. Os citadinos esqueceram o que é viver em comunhão com o que os seres vivos que os rodeiam.

VN disse...

Esse "tipo de conhecimento" de que falas, que muitos chamam de
"indigenous knowledge (IK)" é um tema fascinante.
Não se aprende nos livros mas na experiencia da vida, ou no minimo observando quem sabe, é um saber cumulativo que cresce e se aperfeiçoa no contacto intergeracional e que abrange todos os aspectos da vida. É um campo que merece maior atenção (não confundir com exploração ...).

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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