Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











sexta-feira, março 10, 2006

O pontapé na lata

O S-103 era um imenso navio petroleiro novinho em folha e que ninguém queria. Este superpetroleiro foi construído pela Setenave e rejeitado pela empresa que o tinha encomendado, porque a encomenda tinha sido terminada vários anos para além do prazo estipulado. O navio tinha sido encomendado nos anos 70, por alturas do choque petrolífero e levou mais de 10 anos a ser construído… quando, finalmente ficou pronto, a rota do Cabo para o transporte de petróleo já tinha sido substituída pela rota do Suez e monstros daqueles já não faziam sentido. O proprietário já não o quis, não o pagou e os estaleiros da Setenave estavam de corda na garganta com as dívidas contraídas para a construção daquele superpetroleiro… Fui a Setúbal fazer uma reportagem sobre este caso e aquele imenso navio de 330 metros de comprimento e muita tecnologia de ponta. Mostrei o navio de ponta a ponta, de alto a baixo e terminei a reportagem no cais onde o S-103 estava amarrado, dizendo que o destino mais provável daquele navio novo em folha era ir parar à sucata… e, enquanto dizia isto, chutei uma lata de tinta, vazia, que estava abandonada por ali. O camera-man acompanhou o rolar da lata com um movimento de câmera em panorâmica… assim terminou a reportagem. Nada do que eu disse era inexacto e, no entanto, a reportagem valeu veementes protestos da administração dos estaleiros navais. A zanga dos engenheiros não era motivada pelas palavras ditas, mas pelo chuto na lata… que, mais do que quaisquer palavras, exemplificava com crueza o destino do navio e dos estaleiros que, falidos, acabariam por ser encerrados.
Esta reportagem passou num magazine informativo chamado “Fim de Semana”, um programa do Carlos Pinto Coelho, que passava à 6ªfeira à noite, no Canal 1 da RTP… em 1983 (?) …

16 comentários:

objectiva3 disse...

E o que será o futuro daquela área (terrenos) ocupada pela Lisnave?!!

Tarda a definição de um projecto ...

:)

CN disse...

A Lisnave foi ocupar os estaleiros falidos da Setenave. Em troca, abandonaram os estaleiros que tinham ali em Cacilhas e onde, segundo parece, vão construir uns condomínios de luxo com vista para Lisboa e para o Tejo.

objectiva3 disse...

A hora do almoço falei dos terrenos da Lisnave.Disseram-me para ir à página da Câmara de Almada.

Após a consulta aqui fica um extracto:

PROJECTOS ESTRATÉGICOS DE MÉDIO/LONGO PRAZO COM POTENCIAL TURÍSTICO
Almada Nascente Cidade da Água – nesta zona do concelho, que inclui os antigos terrenos da Lisnave, poderá nascer um terminal de cruzeiro, um museu da indústria naval e um pavilhão multiusos de âmbito regional, para acolher eventos desportivos e culturais»(...).

Ver.
http://www.m-almada.pt/website/main.php?id=43207

Sony Hari disse...

Este é um tema a que sou muito sensível, talvez porque o meu pai trabalha há anos nos Estaleiros Navais de V. Castelo e, nos tempos que ainda eram dourados, ouvia-o falar dos navios como se fossem filhos.

Jotabê disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
Isabela disse...

Ai deles que construam ali seja o que for e me tirem a vista do Tejo e do Terreiro do Paço!
Constuções baixinhas, por favor.
Este também é um tema que é muito caro, porque eu ainda sou do tempo em que havia congestionamento de trânsito à saída das Lisnave, todos os dias à 8 e às 5, e as camionetas que vinham do Feijó não paravam na minha paragem, porque já vinham cheias de operários para o estaleiro.
E também conheço muito bem o cais palafítico da Carrasqueira...
Esse fim de reportagem foi bestial; o pontapé na lata.
Carlos, como é que se chamava uma revista semanal que o CPC quis começar a editar, ou de que chegou mesmo a editar poucos números, sediada ali ao BAirro Alto?

CN disse...

Isabela... não sei de que revistas falas. Mas posso perguntar-lhe, se quiseres.

Denudado disse...

Carrasqueira! É isso! Eu bem puxava pela cabeça a ver se me recordava do nome da aldeia piscatória que tem o cais palafítico da última foto...

Sempre me fez um bocado de "espécie" como é possível haver pescadores ali bem no fundo do estuário do Sado, entre a Comporta e Alcácer do Sal. Eles só podem atracar e desatracar quando a maré estiver alta e bem alta. De resto aquilo é um lodaçal pegado, como se vê...

Isabela disse...

Pergunta-lhe, sim. O gajo publicou-me umas crónicas sobre Moçambique. Publicou ou queria publicar, porque já não me lembro se a revista chegou a sair ou não, porque isso foi mesmo em 83.Tenho mesmo curiosidade (podes dizer assim, "não te lembras de uma miúda muita gira, uma "bomba" loura, lá da terra da tua paixão, que escrevia umas coisas sobre cahora bassa e flores de acácia e essas coisas neocoloniais que vos agradavam muito, e tinha-la descoberto no DN Jovem por intemédio do Manel Dias?). Pronto, o gajo não se lembra, mas eu divirto-me a escrever isto. lol
Sobretudo a parte da bomba loura! lol

Isabela disse...

Denudado - Mora muita gente na Carrasqueira. Vivem da pesca e da agricultura. Trazem muito choco, entre outro peixe, e cultivam muita batata doce, que tem fama. É um belo sítio. Gosto muito de lá ir. São hospilateiros. Tem uns restaurantes óptimos, conheço-os todos.
Aquilo não é lodaçal, é sapal. É um ecossistema protegido.
TEm horas certas para sair e entrar no cais controlando as marés.

Carlos Pinto Coelho disse...

Respondo à loura bombástica dos anos 80: Era a revista "Mais", de que fui director-executivo. O director nominal era Carlos Cruz.Era uma revista de grande informação, na esteira do Século Ilustrado ou da Flama, e saíu semanalmente durante mais de um ano. Tinha um corpo de reportagem de luxo: Alexandre Manuel (sim, o que é hoje responsável editorial da Editorial Notícias),Cristina Arvelos, Luís Marques( sim, o que é hoje administrador da RTP), Moutinho Pereira, António Macedo(sim, o que faz hoje as manhãs da Antena 1)e o director fotográfico era o saudoso Carlos Gil. Fez-se ali (no Bairro Alto, como diz a Isabela muito bem, na Rua das Gáveas) do melhor jornalismo. A revista fechou por asfixia financeira e consequente desentendimento entre os sócios proprietários. Convido a Isabela a contactar-me (através do CN) pois guardo bastantes números da "Mais" e, com sorte, ela poderá reencontrar-se com o seu bombástico passado.

Isabela disse...

Ah, Carlos Pinto Coelho, que maravilha. Eu era tão envergonhada. Quando tu me foste descobrir ao Jovem, nem queria acreditar. Fui ter reuniões contigo à rua das Gáveas, devo ter-te tratado por senhor doutor, ou qualquer coisa assim. Era a Mais, isso mesmo. Publicaste-me umas coisas sobre Cahora Bassa. Nessa altura alinda os meus pais estavam em Moçambique. Eu nunca mais lá fui.
Carlos,isto é mesmo uma surpresa para mim. Fico feliz. Conheço a maior parte dos nomes de que falas do DN, porque me aguentei por lá uns anos, mas depois, como tenho um feitio do caraças e não deixo que façam de mim, gato sapato mandeio-os dar uma volta e pus a carteira na prateleira. Eu era um miúda, não sabia nada. Essas pessoas eram um amor comigo, o Alexandre Manuel, por exemplo.
Mas o meu problema era mesmo ser uma bomba loura. Era deixar burburinho na redacção quando a atravessava. Nunca sabia se conseguia as coisas por ser uma bomba loura ou por mérito. Enfim, hoje rio-me. Foi por mérito, de certeza. O tempo faz-nos bem. Fico muito contente com isso do renascimento da mais.
Um abraço.
Não sabia que tinhas blog. Vou lá ver.

CN disse...

que bom que é fazer alguém feliz!!!

MGomes disse...

Eu que estive á margem deste lindo diálogo entre a Isabel e o Caros P Coelho, comungo sem reservas do sentimento do Carlos Narciso, que lindo é, vêr gente feliz...

MGomes disse...

Eu que estive á margem deste lindo diálogo entre a Isabel e o Caros P Coelho, comungo sem reservas do sentimento do Carlos Narciso, que lindo é, vêr gente feliz...

CEREJO disse...

Bem...Sei que venho um pouco fora do tempo para o respectivo comentário, mas não podia deixar passar em branco o tema de abertura.
Apesar de ser muito jovem na altura, ainda hoje fecho os olhos e vejo a reportagem sobre esse grande petroleiro que ajudou o afundamento de uma grande industria...
Não moro em Lisboa mas lembro do grande movimento dos estaleiros e as grandes construções que por ali
Passaram.
Um dia o grupo Mello resolveu dar a mão a um projecto de substituição da setenave para lhe chamar de Solisnor, onde foram construidos alguns navios de grande envergadura para uma empresa do grupo do mesmo, denominada Soponata que é do conhecimento de todos nós concerteza. infelizmente tb já não é de capitais nacionais só lamento mais uma vez que o fruto foi de pouca dura e morreu cedo.
Hoje é usado pala Lisnave para reparação naval e que segundo consta existe capital e coordenação estrangeira.
Analizando outros casos semelhantes e de muita preocupação futura, onde está a nossa industria?
Aquela que funciona no mundo inteiro menos em portugal!
O que está errado?
Lembrem grandes industrias de renome mundial como: Mague, sepsa,
Companhia Portuguesa do cobre,Tramagal, as nossas siderugias que após alguns anos encerradas passaram a capital Espanhol, Todos os estaleiros navais de norte a sul de "pantanas" entre muitas outras.
Nem quero falar da restante industria de pequeno e médio porte que todos os dias ouvimos falar que vão fechar portas.
Meus senhores isto é muito preocupante!
Estamos a viver cada vez melhor mas é tudo fachada, pois cada dia estamos mais dependentes, menos valemos e estamos a perder prestijio internacional.
O que está errado conosco?!
Será que Dom Afonso Henrriques iria gostar de saber de tudo isto?
Sim pq só falta mesmo privatizar o País para capital estrangeiro tb.
Será que não somos patriotas e que nos falta ambição, honestidade, e vontade de vencer?
Dá para refletir, Afinal que País fazemos, que País Vivemos?

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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