Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











terça-feira, março 14, 2006

Guiné Bissau, a guerra de 89 (4)

O conflito teve a sua fase crítica logo nos primeiros dias. Houve combates de artilharia na linha de fronteira, com mortes nos dois lados, principalmente entre a população civil. Depois, os ânimos começaram a arrefecer, muito por força das pressões internacionais. Ao fim de 4 ou 5 dias, já era possível percorrer em segurança relativa a região fronteiriça, fazer reportagem dos acontecimentos, saber da opinião das pessoas, ouvir as histórias que tinham para contar. Eu deslocava-me num carro alugado em Bissau. O meu passaporte tinha um visto válido para várias entradas em território guineense e, já nessa época, os portugueses não precisavam de visto para entrar no Senegal. De modo que, um dia, decidi passar a fronteira e fazer reportagem do outro lado. Uma hora depois, quando filmávamos um bloqueio de estrada da tropa senegalesa, fomos presos. O oficial do exército senegalês acusou-nos de espionagem. Vínhamos de território inimigo, estávamos a filmar uma acção militar, usávamos um veículo com matrícula do inimigo e íamos regressar ao território inimigo com imagens de objectivos militares e do dispositivo de defesa senegalês. Detidos num aquartelamento de Ziguinchor, passámos 48 horas sem autorização para nos sentarmos, obrigados a permanecer ao sol no meio da parada do quartel.

3 comentários:

Isabela disse...
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Isabela disse...

Barra pesada! Ainda aqui andas à custa de quê! Depois disto, uma pessoa não se dá bem em lado nenhum, está bem de ver, até porque perde a capacidade de aceitar ordens ridículas, ordens que não ameaçam a sobrevivência. Viver no fio da navalha, tem esse preço. Apesar dos contratempos, estou em crer, Carlos, saímos muito melhores.
E talvez seja necessário mudar de ares. TAlves até mesmo de continente. Já pensaste em mandar isto às urtigas e ires fazer o que sabes, e bem, noutro lugar? Já pensaste em meter-te em free lancer? Tens consciência do mercado que há para ti em África? Claro que tens. Precisas de ultrapassar pormenores que não são importantes, coisas tuas. A tua família poderá acompanhar-te, eventualmente. Pensa a sério, homem. Não estás em tempo de arrumações. A tua vida a sério começou há poucos anos. Vai-te a ela. Beijo amigo.

Sony Hari disse...

Se ao ler este tipo de experiências (sem rede) me faz reavaliar as prioridades da minha vda, posso imaginar como será para quem as viveu.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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