Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











quinta-feira, março 23, 2006

Congo, 2001 - A Expedição, o fim

Os indícios que recolhemos não foram suficientes para convencer qualquer um dos cientistas da expedição. Dois meses depois, a maioria já ansiava pela hora da partida. Na hora da despedida havia um homem vencido, mas não convencido. Karl Ammann vai continuar a procurar o gorila que ele acredita que vive aqui.
Esta expedição só foi possível devido ao empenho pessoal deste fotógrafo da vida animal. Ammann, há muitos anos que persegue este sonho de encontrar o gorila perdido… o Gorila Uelensis, como foi classificado no século XIX. Um animal visto e referenciado diversas vezes, nos últimos 200 anos, mas que parece, agora, estar definitivamente desaparecido. Ainda assim, Karl Ammann deixou uma dúzia de câmeras fotográficas automáticas, montadas na floresta do Makulungo, em locais propícios à passagem de animais. Periodicamente, Tolly muda os rolos e guarda-os até que Karl consiga lá ir buscá-los. Chegar a Bili continua a ser difícil, mesmo agora que a guerra está num compasso de espera.
A expedição chegou ao fim. Foi uma grande aventura, como viram, mas a floresta guardou bem os seus segredos. Há falta de melhores provas, os cientistas protegeram-se numa negativa cautelosa... “em princípio não há nada de especial”… Mas ninguém conseguiu ver o animal que deixa aquelas pegadas tão grandes e que faz aquelas camas de folhas no chão... “Em princípio não há nada”, mas o povo continua a falar dos grandes símios que por ali vivem…
O acampamento ficou vazio. Foram-se todos embora... eu e o João Duarte fomos os últimos a abandonar o local. Deixei lá um pedaço da alma.

9 comentários:

Caiê disse...

Acredito. Um pedaço da alma... que fica nestes escritos também. Obrigada pela partilha. :)

Isabela disse...

Vou reconstruir este final ao meu gosto: o gorila está lá, mas não se deixa ver.
Acho que faz muito bem. Eu também me esconderia dos humanos.

dakidali disse...

Que vida tão intensa. Gosto destas crónicas, curtas mas que enchem.
Beijinhos

CN disse...

Isabela, por acaso eu próprio acredito nisso. Na Nigéria, o país mais populoso de África, onde só subsiste uma pequena parcela de floresta, descobriram só nos anos 70 uma sub-espécie de gorila da planícia, que ninguém sabia existir. Ora, num espaço como este, no norte do Congo, é bem possível que eles andem por lá. Até porque esta expedição apenas viu, e mal, uma pequena parte da floresta.

PreDatado disse...

Sabe, Carlos que, com este relato, eu também fiz a expedição?
Quanto ao gorila, como diz uma anedota antiga, ele ainda vai mandar um postalinho, fazer um telefonema ou quiçá ou e-mail. O seu amigo cientista que não desespere.

Sony Hari disse...

Oh, já acabou ... O Karl Amman ficou desiludido, mas eu prefiro que o Gorila Uelensis esteja, pelo menos mais uns anos, a salvo dos "apetites" científicos, por muito bem intencionados que eles possam parecer. bjs

Phwo disse...

"Deixei lá um pedaço da alma."
... e deixaste em nós um pedaço de ti.
Obrigada.

SIPO disse...

Depois de ler este post lembrei-me de Digit e da história Dian Fossey, investigadora da National Geographic. bem lá no fundo espero que a existência deste animal nunca se revele ...

Só uma questão: Este grupo de trabalho foi o mesmo que acompanhou a bióloga e especialista em primatas Shelly Williams do Jane Goodall Institut de Maryland?

Parabéns pelo blog!

CN disse...

Não Sipo, embora alguns destes biólogos tenham estado na génese dos estudos de Jane Goodal.

AddThis

Bookmark and Share

Arquivo do blogue

Acerca de mim

A minha foto
Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

Seguidores