Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











sexta-feira, março 03, 2006

Contágios

Um dia disseram-me para não apertar a mão a ninguém. «Por precaução, nunca se sabe!... O vírus Marburg é mortal. É melhor usares alcoól para desinfectar.» Naquela tarde, quando cheguei ao Museu, o David esperava-me no pátio. Estendeu-me as duas mãos, uma sobre a outra em posição perpendicular (sem se tocarem no espaço reservado à minha mão que ele nem repara diferente); o seu gesto habitual de respeito aprendido na tradição. Não tive coragem de pensar no vírus. Deixei-me cumprimentar, como habitualmente, pelo meu amigo de há muito tempo. Não limpei as mãos com álcool.Sobre os Tucokwe , ele sabe (quase) tudo. Sobre o vírus, apenas sabemos que mata, assim escreveu Pwo e, como já aconteceu antes, as suas palavras levaram-me no tempo. Aterrei numa Casa Amarela, ali para os lados do Campo Grande. Moravam lá pessoas escorraçadas, gente que ninguém queria. Nem a família, nem amigos, ninguém. Estavam infectados. Tinham SIDA. Na época, só pensar na palavra matava… fui lá pedir autorização para fazer uma reportagem. Eles deixaram. Também já não tinham nada a perder…
Levei dois dias, dentro daquela casa. No primeiro, apenas andei por ali, conversei com eles, habituei-os à minha presença. Quase não filmámos…
No segundo dia, foram eles quem me testaram. Convidaram-me para almoçar. Olhei para a enfermeira e ela abanou a cabeça, para que aceitasse. As minhas paranóias foram levadas ao limite… comi da comida deles, nos pratos deles, com os talheres deles. Quando veio o café, notei um dedinho no rebordo da chávena. Quando terminei, levantei-me e fui fumar para a rua. Vomitei tudo.

5 comentários:

verosimil-utopia disse...

Quase como se vomitar fosse a solução...

E no fundo, é isso que todos fazemos todos os dias.

Ouvimos, lemos, vemos as notícias, e depois vomitamos todas as notícias que nos agoniam, nos angustiam, nos fazem temer por nós.

Vomitamos, vomitamos, e de vez em quando levamos com o vómito em cima.

Phwo disse...

Quando uma "missão" nos chama, devemos estar conscientes dos "riscos" que corremos. Só os assumimos porque queremos. E nós fizemos a nossa opção. É certo que algumas consequências são imprevisíveis.
Carlos, nunca tiveste a sensação de que determinada entrega nunca te poderia trazer nada de mal, por tão sublime ser?
Imprudência?...
Abraço

CN disse...

Pwo, demasiadas vezes... mas sempre soube que se tratava de uma imprudência. A não ser que te queiras envolver com coisas do divino...

Isabela disse...

Costuma acontecer-me o mesmo quando me vejo sujeita a experiências emocionais violentas. Costuma acontecer-me isso quando leio uma reportagem bem escrita sobre um assunto incómodo, por exemplo.

Lâmina d'Água, Silêncio & Escriba disse...

Entendo a situação, por estares diante do problema, declaradamente, escancaradamente. No entanto, terias de vomitar a cada vez que comes alguma coisa fora de casa, onde muitas e muitas pessoas passsam e não sabemos o que elas trazem em suas bagagens microbiológicas... Sei que quando vemos, é difícil não nos afetarmos, mas esse é o momento de menos riscos, por ser quando mais cuidados tomamos. E quando o risco continua existindo e com a diferenças de não ser declarado???

Beijo!!!
ò,ó

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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