Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











sábado, novembro 18, 2006

Os armazéns de marfim e a espiral da História

O reino do Benim era rico. Dizia-se que esse rei tinha armazéns cheios de dentes de marfim e pepitas de ouro. Além disso, para controlarem completamente o comércio no Golfo da Guiné, os cônsules ingleses exigiam que o reino fosse conquistado. Os ingleses estavam fortificados na foz do rio Benim. Mas o interior do território era controlado pelos negros.
Em Fevereiro de 1897, foi feito o ataque. Os ingleses conquistaram a cidade, pilharam-na e incendiaram-na. Nunca chegou a averiguar-se quantos habitantes de Benim foram mortos pelas tropas britânicas. O que veio nos jornais ingleses da época foram os relatos dos bárbaros sacrifícios humanos praticados por aqueles selvagens. A acreditar nesses relatos, nunca algum habitante do Benim teria morrido de causas naturais… de modo que, o ataque, a invasão e o extermínio levados a efeito pelos ingleses acabaram por ser justificados pela necessidade de salvar, pela civilização, as pessoas do Benim sujeitas a hábitos tão incivilizados.
Esta e muitas outras histórias relativas à colonização de África podem ser lidas em “Exterminem Todas as Bestas”, livro escrito por Sven Lindqvist, um viajante sueco que escreve sobre as terras por onde passa. E já escreveu mais de 30 livros…
Agora, transponham esta história que acabo de relatar para a actualidade. Uma outra potência invade um estado bastante mais fraco, sob o pretexto de ir livrar a população da opressão exercida pelos dirigentes políticos locais. Tudo acaba numa chacina inútil, em que ninguém se dá ao trabalho de contar as dezenas de milhar de mortos de um lado, mas sabe-se com exactidão que já morreram 2.263 marines do outro lado. Tudo isto, finalmente, apenas para controlar os “armazéns de marfim”…

10 comentários:

Sofocleto disse...

Os brancos "armazéns de marfim" de outrora, são hoje negros hidrocarbunetos. Com um espantalho (bin Laden) a servir de luz de presença.

AGRIDOCE disse...

E vamos a ver se, no momento em que já não interessa "continuar a salvar os outros", para salvar a própria pele, ou por haver outros que também já estão a precisar de ser salvos, não farão como já fizeram noutros "palcos de salvação"!!!
Acima de tudo, gostei do estilo de "acostagem" à substância!!!

inominável disse...

excelente analogia... e nestas situações as representações da civilização vêm sempre à baila...

planaltobie disse...

Boa comparação.

lumadian disse...

Venho aqui deixar umas quantas palavras, porque descobri o seu blog ao acaso, mas depois de uma vista de olhos, é um blog muito bem realizado, tal como tudo o que o vi fazer em televisão. Não podia deixar de dizer que sempre gostei dos seus trabalhos e que o acho um grande jornalista.

GR disse...

Mais um magnífico texto.
Na realidade a analogia feita entre o passado e o presente, serve para reflectirmos que sempre houve, prepotência e muita loucura desumana!
Vou comprar o livro.
(Cicatrizes de mulher, já o comecei a ler)

GR

Barão da Tróia II disse...

Tem razão amigo Carlos a história repete-se, mas aemória é curta, boa semana.

mfba disse...

O que doi é que a história se repete sempre. E como o Iraque está. E agora sem se saber o que fazer, só querem sair de lá não se importando com o que deixam.

Zacarias disse...

Bom dia:

De facto a história repete-se, e só é pena que não se tirem conclusões. Sou visitante assiduo do blog, até porque o trabalho do Carlos Narciso, sempre me pareceu interessante.
Gostava de poder contar com a sua visita no meu blog.

Ida disse...

Texto genial, recolho-me à minha insignificância, sr. CN.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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