Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











quinta-feira, novembro 09, 2006

Cidade de Deus

Em 1989, passei 4 meses no Rio. A trabalhar. O Brasil estava em transição política para a democracia e era notícia de 1ªpágina em todo o mundo. Nem fui ao Corcovado, juro. O Rio era a base, era lá que o delegado da RTP tinha escritório e estúdio de televisão montados. O grande Reinaldo Varela, que já cá não está, era um companheirão. Para trabalhar e para a paródia. Mesmo assim, foram meses de alguma solidão. Podemos estar a trabalhar com alguém, mas há sempre a hora em que essa pessoa volta para casa e nós para o hotel.


O Meridien em Copacabana
Num desses regressos, ao princípio da noite, deambulava distraído pelas esplanadas de Copacabana, onde os turistas não sabem bem se estão a ser engatados por mulheres se por travestis. De repente, uma miúda, bonita, atravessa-se à frente e pede-me lume. Parei, claro. Tirei o isqueiro do bolso e… apareceu outra, também bonitinha, que se meteu logo comigo, chamando-me de gatão, bonzão, essas coisas… e passava-me a mão pelas costas. Logo uma terceira se colocou do outro lado, com a mesma conversa. Fiquei inebriado. Tinha seis mãos a tocarem-me por todo o lado. E continuava com o isqueiro por acender. De repente, sinto uma das mãos dentro do bolso esquerdo das calças a tentar sacar o rolo de notas que lá estava. As jeans, apertadas, deixavam transparecer boa parte do conteúdo… mas também, por estarem justas, limitaram a agilidade da mão da garota, que não conseguiu tirar-me o dinheiro. Quando percebi que estava a ser assaltado, e não apenas apalpado, comecei aos empurrões e gritos, afastei-as de mim e afastei-me dali rapidamente. Praticamente, estava na porta do hotel. O porteiro tinha visto tudo e disse-me para não repetir aquilo. Quando se resistia a um assalto, corria-se sério perigo de vida. Por isso, os brasileiros nunca resistiam e se deixavam tiranizar pela bandidagem.
tomada de posse de Collor
De tal modo que até votaram no Collor de Melo, afinal, o chefe do gang…

8 comentários:

Laranjada Ovarense disse...

E que dizer do Lulinha e da escumalha do mensalão?

Ida disse...

Adorei o título, ainda que ele tenha uma certa arrière pensée "sensacionalista", ou melhor, desses achados criativos, mas, no fim das contas, são ótimos para vender jornal (tá, isso não se coloca no blog). É que junta duas idéias muito difundidas sobre o Rio e eventualmente o Brasil. Duas idéias paradoxais, uma vinda da cultura popular, dos dizeres que se repetem e viram slogans "Deus é brasileiro", num ufanismo que quer dizer que nada no mundo é tão bom qto isto. A outra, bem mais rececente e surgida na cultura midiatica/cinematográfica, do título do filme do Fernando Meirelles, absolutamente irônica e negativa, falando de uma parte da cidade que teve o índice de violência cruelmente acrescido à já existente pobreza e falta de qualidade de vida. E depois, o relato tão bem encaminhado que passa do turista surpreso com a idéia de que "Deus é brasileiro" para a triste constatação de que a "cidade de deus" existe, com toda a sua carga de periculosidade. E, claro, tinha de terminar com a acidez habitual e totalmente pertinente sobre o que nem nós compreendemos. Acabo de lembrar que um amigo seu (sic!), jornalista portugues, me disse uma vez (no tom ácido e bem humorado que lhe é peculiar e que eu adoro): "o Brasil, e os brasileiros, no caso, são tão bons em proporcionar histórias absurdas, em encontrar soluções criativas e engraçadas para a realidade que não condiz com os desejos nem com os padrões ideais, que deviam deixar-se dessas coisas de economia, indústria e desenvolvimento técnico e científico e dedicar-se apenas às artes do espetáculo, sob todas as formas. Será, Carlos Narciso?

Ana Afonso disse...

Ola Carlos
Gostei da descrição a ideia de 6 mãos fez me rir!!! Perigosamente rir!!
Nunca estive no Brasil mas tenho pena e imagino que tenha tido muita sorte nessa situação!!
Abraços e sorrisos
ana afonso :)

Sofocleto disse...

Agora já conheço o truque. Sair com alguns rolos de notas escondidos em locais judiciosamente escolhidos e perceptíveis, escolher umas jeans bem apertadas e apreciar os prazeres do Rio. Sem oferecer resistência!

Isabela disse...

Ah, malandro, enquanto pensavas ser apenas todo apalpado eras só sorrisinhos para as meninas. Não te esqueças que foste apalpado por 6 mãos, isso foi um serviço prestado. Claro que elas mereciam uma gorjeta, unhas de fome!

LA disse...

Eu também uso a táctica do dinheiro na frente dos jeans, nada de carteira no bolso de trás, mais os meus 100 kilinhos barrosões, torna a coisa mais difícil!
Mas essa coisa de resitir a 3 miúdas, não tem grande coisa de especial, bem sabes, se fossem 3 miúdos com 3 naifas, se calhar tinhas que deixar a nota!

Sónia disse...

Passou há poucos dias na 2 a Cidade de Deus. Incrivelmente adormeci a meio tal era o cansaço. Já o vira antes. Violentamente excelente.Comicamente cruel.

Quanto às brasileiras... tipicamente masculino:-)

mfba disse...

Adoreia moral da história.

AddThis

Bookmark and Share

Arquivo do blogue

Acerca de mim

A minha foto
Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

Seguidores