Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











sexta-feira, novembro 17, 2006

Desafinação

Andei anos sem entrar num transporte público. Digo-o sem ponta de pedantismo. Acho que o mesmo acontece com milhões de cidadãos que não se encaixam nos apertos, na inadequação, nos horários dos autocarros e do metropolitano.
A percepção que temos do mundo depende muito do estilo de vida que levamos, de facto. Para mim, Lisboa tinha menos pedintes, agora, do que há 20 anos. É verdade que, volta e meia, me apareciam uns miúdos romenos a vender isqueiros nos semáforos, sim, as ciganas continuavam a tentar ler sinas em algumas esplanadas, via alguns sem abrigo cobertos de cartão nos vãos de escada, mas todos eles, romenos, ciganos, sem-abrigo, eram aparições fugazes, passavam de raspão e não me tocavam. Isto é, não me incomodavam.

Um dia destes andei de metropolitano, de novo. Aproveitei para um tour pelas novas linhas e estações (embora já estejam feitas há anos, para mim são novas). Foi bom, até que apareceu um cego tocador de sanfona, com uma caixa de esmola pendurada. O homem entrou na carruagem e tocou… tocou… tocou… volta e meia, entoava o refrão “Olhó ceguinho!! Ajuuudem o ceguinhoooo!...”. Insistiu durante uma boa parte do trajecto. Angariou alguns cêntimos e, depois, mudou de carruagem. Também saí… no corredor em direcção à superfície, havia outros tocadores de miséria. Uns sentados em banquinhos, outros no chão exibindo mazelas físicas. Tal e qual há 20 anos. Não mudou quase nada, afinal de contas.

7 comentários:

-pirata-vermelho- disse...

Agora são mais visíveis,os miseráveis! Possivelmente mais numerosos; ou será o contraste que é maior?

Paulo disse...

Sabes, ontem falei com um jovem economista, professor numa universidade francesa, que me disse uma coisa surpreendente. Imagina que o nosso PIB é mais ou menos o mesmo do que aquele que tinhamos quando entrámos na então Comunidade Europeia. De lá para cá fizemos coisas, sobretudo auto-estradas e estradas, mas a riqueza produzida é equivalente a nestum.

Sofocleto disse...

Agora devem existir muitos mais. Há vinte anos não havia romenos.

Isabela disse...

Tens a certeza que queres mesmo marcar este texto com a tag "música"?
Não será "poluição sonora" ou "na mesma como a lesma?"
:)

mfba disse...

Penso que há agora mais mendigos do que havia há 20 anos.
A propósito do que o Paulo disse quem cria riqueza são os privados, o Estado não pode criar riqueza. Temos muito maus empresários e isso é a infelicidade deste país.
Sei que não é politicamente correcto o que estou a dizer mas para mim sou eu que tenho razão.

GR disse...

Para quem frequenta estes locais públicos, relaciona-os aos “pedintes” do antes o 25 de Abril, com uma diferença, andam calçados e não falam português!
Tantos estrangeiros a pedir, tantos portugueses a passarem fome!
Tanta riqueza a crescer!
Tanta desigualdade!

GR

Sailor Girl disse...

AO GR: E TANTA CASA SEM GENTE! E TANTA GENTE SEM CASA!!

AO CN: E que tal um passeio no combóio da linha de Cascais até Lisboa?!...

Vai poder ouvir outros concertos!!

Há vários «pedintes» que há anos nos pedem esmola, todos os dias e a todas as horas!

Há vários tipos, desde um cego a tocar um apito, guiado pelo amigo que o vai encaminhando pelo braço e nos vai pedindo apoio; ao menino com a concertina e um cãozinho tipo chihuaua com o cestinho de esmolas na boca; à dupla de romenos que tocam músicas cubanas; aos doentes e desgraçados desta vida; aos vendedores da Revista Cais (que deixaram de andar credenciados e nos exigem dinheiro); aos burlões que nos ameaçam e insultam.

MUITO DIVERTIDO! UMA AVENTURA!

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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