Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











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domingo, abril 11, 2010

Dos qui mamam...

terça-feira, fevereiro 23, 2010

Sei que há léguas a nos separar...Tanto mar, tanto mar...


Encostado ao balcão de atendimento ao cliente, no Continente de Loures/Odivelas.
A um metro e meio de mim, um casal espera para ser atendido. Uma funcionária aproximou-se e a senhora perguntou se tinham fichas de inscrição para candidatos a um posto de trabalho ali no supermercado. A funcionária diz que sim e entrega-lhe uma folha. Informa que terá de juntar fotocópias do BI e do cartão de contribuinte. A senhora abana com a cabeça e volta a colocar uma questão:
- Sabe se vocês pegam brasileiros?
A funcionária ficou a pensar e respondeu que, “por acaso”, não tinham nenhum brasileiro a trabalhar ali naquele supermercado. Mas que isso não queria dizer que não contratassem. No fundo, ela não sabia.
A senhora brasileira sorriu, agradeceu e foi embora. A ficha de inscrição ficou em cima do balcão.

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Telenovelas brasileiras desencantam


A maior produtora mundial de telenovelas, a Rede Globo, está alarmada com a tendência que se verifica no Brasil, e não só, de perda de audiências das telenovelas, noticia o Diário de Notícias.

O instituto brasileiro de audiometria, o Ibope, regista valores mínimos recordes nas principais telenovelas em exibição. No horário das 18 horas, essencial para fixar as audiências do prime-time, a telenovela “Negócio da China” tem uma média de 17 pontos percentuais – a menor de sempre na história da Globo. A novela “Três Irmãs” também apresenta maus resultados, numa média de 23% de share, apenas. Mesmo a jóia da coroa, a novela “Caminho das Índias”, que domina o horário nobre do canal brasileiro (e da SIC, em Portugal) não conseguiu ainda atingir patamares satisfatórios de audiência. Em Portugal, a performance das novelas brasileiras ainda é pior...

Para tentar perceber o que se está a passar, a Globo decidiu renovar as Comissões de Telespectadores (órgão de aconselhamento que o canal brasileiro instituiu para o acompanhamento dos programas que produz) que passarão a integrar jornalistas, publicitários, pedagogos e psicólogos, num esforço para acompanhar a evolução que se verifica nas opções dos telespectadores.

A quebra das audiências deve estar relacionada com a crescente adesão às novas plataformas de comunicação, nomeadamente na internet, onde se multiplicam twitters, blogs, chats, youtubes, messengers ou Windows live, entre uma miríade de novos artefactos que distraem as pessoas da televisão tradicional, cada vez menos interessante.

Nada disto é novo para os mentores da Telecinco que, logo na apresentação do projecto para a televisão que propõem, declararam (com surpresa para alguns) que a grelha de programas do futuro 5ºcanal contempla “ficção portuguesa – filmes, mini-séries, telefilmes, etc. – em prime time e exclui o recurso a telenovelas por considerar este formato esgotado e gasto até à exaustão.”

A Telecinco garante, ainda que “o prime time será essencialmente consagrado à produção portuguesa e ao entretenimento ligeiro” e revela-se atenta e actualizada perante os novos desafios tecnológicos ao definir que ”uma estratégia multi-plataforma será prosseguida de forma consequente. A partir das 02:00 a emissão transformar-se-á num espaço de passatempos interactivos até às 07:00.”

quinta-feira, maio 10, 2007

Ronaldo não quer ser reajustado

Não conheço o senhor Ronaldo Caiado, apenas sei que é deputado no parlamento brasileiro e que foi o único, entre todos, que votou contra o aumento de 28,05% dos salários dos políticos.
O termo usado no Brasil para um aumento destes é “reajuste salarial” e eu gostava de saber se os senhores deputados também decidiram reajustar os salários dos restantes trabalhadores do país na mesma ordem de grandeza.
Segundo o que li na edição on-line do jornal Folha de São Paulo, os parlamentares aproveitaram a presença do Papa, que desviou todas as atenções dos media e do povo, para calmamente aprovarem o reajuste.
Engraçado era se o tiro lhes saísse pela culatra, ou seja, que o Papa chamasse a atenção para tamanho atrevimento num país com dezenas de milhões de cidadãos a viver abaixo do limiar da pobreza. Mas desconfio que o Papa está mais preocupado com outros problemas, como o aborto ou a canonização do primeiro santo brasileiro. Dizendo de outro modo, com a política do Vaticano.

quinta-feira, novembro 09, 2006

Cidade de Deus

Em 1989, passei 4 meses no Rio. A trabalhar. O Brasil estava em transição política para a democracia e era notícia de 1ªpágina em todo o mundo. Nem fui ao Corcovado, juro. O Rio era a base, era lá que o delegado da RTP tinha escritório e estúdio de televisão montados. O grande Reinaldo Varela, que já cá não está, era um companheirão. Para trabalhar e para a paródia. Mesmo assim, foram meses de alguma solidão. Podemos estar a trabalhar com alguém, mas há sempre a hora em que essa pessoa volta para casa e nós para o hotel.


O Meridien em Copacabana
Num desses regressos, ao princípio da noite, deambulava distraído pelas esplanadas de Copacabana, onde os turistas não sabem bem se estão a ser engatados por mulheres se por travestis. De repente, uma miúda, bonita, atravessa-se à frente e pede-me lume. Parei, claro. Tirei o isqueiro do bolso e… apareceu outra, também bonitinha, que se meteu logo comigo, chamando-me de gatão, bonzão, essas coisas… e passava-me a mão pelas costas. Logo uma terceira se colocou do outro lado, com a mesma conversa. Fiquei inebriado. Tinha seis mãos a tocarem-me por todo o lado. E continuava com o isqueiro por acender. De repente, sinto uma das mãos dentro do bolso esquerdo das calças a tentar sacar o rolo de notas que lá estava. As jeans, apertadas, deixavam transparecer boa parte do conteúdo… mas também, por estarem justas, limitaram a agilidade da mão da garota, que não conseguiu tirar-me o dinheiro. Quando percebi que estava a ser assaltado, e não apenas apalpado, comecei aos empurrões e gritos, afastei-as de mim e afastei-me dali rapidamente. Praticamente, estava na porta do hotel. O porteiro tinha visto tudo e disse-me para não repetir aquilo. Quando se resistia a um assalto, corria-se sério perigo de vida. Por isso, os brasileiros nunca resistiam e se deixavam tiranizar pela bandidagem.
tomada de posse de Collor
De tal modo que até votaram no Collor de Melo, afinal, o chefe do gang…

segunda-feira, outubro 30, 2006

O penhor

Olhamos para o Brasil e esquecemos que Lula é, apenas, o terceiro presidente eleito democraticamente, por voto directo e universal. É bom que o próprio Lula não se esqueça disso. Ele tem que dar certo porque, se não der, acaba por fornecer excelentes pretextos aos seus inimigos de sempre: a direita reaccionária e militarista.
Na hora da vitória, no entanto, Lula falou coisas reveladoras… “"Vamos fazer um segundo mandato muito melhor” , um promessa a tentar fazer esquecer as inúmeras suspeitas de corrupção e favoritismo que rodearam o seu 1ºmandato.


Conheci Lula em 1989, quando ele se batia com Collor de Melo, nas primeiras eleições livres do Brasil. Fui a São Paulo, entrevistá-lo (para a RTP) numa sede do PT. Lembro-me bem das bandeiras com as estrelas vermelhas, das esfinges do Lenin e de Prestes nas paredes, da voz rouca e gramaticalmente desobediente, do dedo decepado (na mão esquerda) pelo torno mecânico. Lembro-me de ter pensado que aquele tipo nunca seria eleito presidente da república. Faltava-lhe o dinheiro e os compromissos com quem o tem. Enganei-me redondamente. A reeleição de Lula prova que a vida dá muitas voltas, realmente. Ele aprendeu a assumir compromissos com os donos do dinheiro, passou a pentear o cabelo e a vestir paletó (casaco, em brasileiro) e melhorou bastante na gramática. Os donos do dinheiro permitem-lhe a pose, mas não lhe devolveram o dedo decepado na jornada fabril.

quarta-feira, maio 17, 2006

O Brasil em guerra

A vaga de atentados contra a polícia e as estruturas do estado no Brasil tomou proporções alarmantes. Claro que mesmo numa cidade como São Paulo, onde só ali vive o dobro da população de Portugal inteiro, a morte violenta de 130 ou 140 pessoas não deixa de constituir um facto assustador.

manchete do Diário de Notícias, ontem

Mas o que mais assusta, penso eu, é o desafio das organizações criminosas que não hesitam em iniciar uma guerra contra o estado. O que também assusta muito é a percepção de que há franjas da sociedade que estão dispostas a tudo, como se nada tivessem a perder. Atacam, só pensam em matar, dedicam-se à vingança, como se também quisessem morrer vendendo caro a sua morte. É uma espécie de suicídio, a não ser que os tipos que se meteram nisto pensem que têm alguma hipótese de derrotarem o Estado. Mas, depois disto, ninguém espere que a polícia brasileira tenha respeito pelos direitos dos que lhes caírem nas mãos.

favela Rosinha, Rio de Janeiro

O crime no Brasil há muito que é um fenómeno bastante visível. Nos anos 80, na minha primeira viagem ao Rio de Janeiro, lembro-me de ter lido nos jornais cariocas que, só no Rio, a média diária de vítimas mortais do crime era superior à média de mortes da guerra do Vietname. E, algumas noites, da janela do quarto do hotel em Copacabana, que em vez de dar para o mar dava para uns morros, lembro-me de ver o risco característico das balas tracejantes, em batalhas de um morro contra outro pelo controlo das bocas de fumo e de zonas de prostituição.

quinta-feira, janeiro 12, 2006

O Caçador de Marajás

Rio de Janeiro, 1989.
Depois de longas negociações com os assessores de imprensa, depois de semanas de falsas promessas e teimosas insistências, lá conseguimos ½ hora do precioso tempo do senhor candidato. Collor de Melo “não tinha saco” para dar uma entrevista à televisão portuguesa. Portugal não entrava nos calculismos políticos do futuro presidente brasileiro…
A entrevista não teve grande história. O candidato era mestre no discurso demagógico e populista. Mas chamou de “filhos da puta” aos senadores americanos que tinham tido a ideia de propor para a Amazónia o estatuto de “património mundial”, de modo a retirar o território da soberania brasileira e entregá-lo à administração das Nações Unidas. “Ganhei o dia” com o palavrão e fiquei com a certeza de que estava a falar com o candidato que iria vencer as eleições. Bonitão, macho, valentão e rico, não lhe faltava nada para agradar ao público, principalmente às mulheres.
Ao darem a vitória a Collor de Melo, nas primeiras eleições livres depois de 25 anos de regime militar, os brasileiros perderam uma oportunidade de melhorar o país. Collor revelou-se um corrupto e acabou por ter o mandato anulado por decisão do Congresso. Logo ele, que ganhou fama como “caçador de marajás” enquanto foi governador de Alagoas. “Marajá” é a alcunha que o povo brasileiro dá aos que enriquecem ilegalmente.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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