Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











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quarta-feira, janeiro 10, 2007

Tiro ao alvo

Já mais do que uma vez, os americanos tentaram resolver os seus problemas com a Somália utilizando a força. Em 92, vi-os desembarcar na praia de Mogadíscio, numa noite sem luar, mas com as CNN, BBC e CBS de sobreaviso e de holofotes bem acesos para o espectáculo ter alguma cor. Foi giro, até que o tal Black Hawk foi abatido e um bom número de marines massacrados pelos maltrapilhos somalis.
Em 93, os marines enfiaram o rabinho entre as pernas e o Mundo decretou o isolamento da Somália. O povo ficou à mercê dos tiranos da terra que se continuaram a combater alegremente. Claro que nada mudou. A Somália permaneceu um santuário de doidos assassinos, de fanáticos de toda a espécie e um excelente campo de tiro.
Agora, o presidente dos EUA voltou a mandar bombardear a Somália. Alegadamente, para matar três supostos terroristas alegadamente responsáveis pelos atentados de Nairobi e Dar-es-Salam contra as embaixadas americanas, em 1998. Mas, para matar três supostos criminosos, os americanos bombardearam aldeias e mataram gente de todas as idades que não tem nada a ver com o assunto.
Não me parece que este método remedeie seja o que for. Matar indiscriminadamente não é solução. Mesmo que a eliminação dos tais três tenha sido bem sucedida, outros 30 acabaram de nascer, entre os que sobreviveram e viram as suas famílias assassinadas por bombas largadas de muito alto. Suponho que não será assim que se vence a guerra contra o terrorismo.Há um provérbio somali que os generais americanos deveriam conhecer: La-yeele ma hilmaamo, lakiin yeele wuu hilmaamaa. As ofensas são esquecidas, não pelo ofendido mas pelo ofensor.

quinta-feira, outubro 26, 2006

Vem no site da Al Jazeera

...portanto, deve ser verdade. A Somália prepara-se para entrar em guerra contra a Etiópia. Mais uma guerra africana que não vamos ver na pantalha que todos temos em casa.
Já há muito que somalis, etíopes e aparentados se matam metódica e encarniçadamente. Há muitos anos que assim é e, parece, assim vai continuar a ser…
A Al Jazeera diz que o recrutamento somali está a ser um sucesso, com milhares de indivíduos a oferecerem-se para carne para canhão.


Em boa verdade, acho que esta guerra vai servir para clarificar a situação. Isto é, há dezenas de anos, desde que o ditador Hailé Selassié foi deposto, que a Somália vive em guerra fratricida. Nem os americanos conseguiram acabar com aquilo, embora tenham testado uma data de armas e engenhos de guerra novos, como já aqui contei.
O descalabro social deu origem ao surgimento da chamada União dos Tribunais Islâmicos, uma espécie de federação de grupos radicais que, sob o diáfano manto da religião, estão a tentar reunir o povo dividido em clãs e tribos. É claro que será uma união feita à lei da bala… mas não perece haver outro meio.
A comunidade internacional tentou reunir condições para a formação de um governo de união nacional, mas a coisa não funcionou. Os tais Tribunais Islâmicos entraram em cena e estão a dar cabo da milícia que apoia esse dito governo de união nacional. É aqui que entra a Etiópia, que alguém convenceu (adivinhem quem…) a apoiar militarmente o governo somali (que, do ponto de vista ocidental, são os "bons" deste filme)… os Tribunais Islâmicos (que farão o papel dos "maus"), que já se consideram o poder instituído (conquistaram Mogadíscio, a capital), afirmam que o país está a ser invadido por estrangeiros. A guerra vai então começar… mas, agora, sem o encanto de tropas mandatadas pela ONU, sem brancos à mistura, vai ser mais uma daquelas guerras invisíveis de que ninguém quer saber.

sábado, setembro 30, 2006

A bolacha

Vim agora de uma aula de Políticas de Cooperação, onde ouvi o professor perorar as razões porque os excedentes alimentícios da Europa e da América do Norte não podem ser doados aos países pobres de África. Isso iria criar ainda maior dependência desses povos, fomentar a preguiça, distorcer os mercados internacionais, blá blá blá.Ouvia o homem e "viajei" para... Baidoa, Somália, 1992.
Eram três e estavam sentados no chão, virados uns para os outros. Os três eram daqueles meninos de ventre inchado e pernas fininhas. O mais velho teria 5 anos de idade, não mais que isso. Era ele quem segurava a bolacha. Os outros dois olhavam-no esbugalhados, suspensos em cada gesto das mãozinhas ossudas. Com a esquerda, partia a bolacha em pedacinhos muito pequeninos e, à vez, metia na boca dos parceiros e na sua própria, também, um pedacinho de bolacha. Gestos repetidos, meticulosamente. A bolacha durou uma rodada, outra rodada, ainda vi uma terceira. Era tudo muito lento, como se aquela bolacha tivesse de durar muito tempo. Não vi a bolacha chegar ao fim. Não fui capaz.
Políticas...

segunda-feira, julho 03, 2006

Somália 92. Do inferno para o paraíso

Os últimos dias em Mogadíscio foram de grande sobressalto. Tínhamos a sensação de que estávamos a arriscar demasiado. Julgo que esse sentimento foi fortemente influenciado pelo que sucedeu a um companheiro de trabalho holandês, um camera-man da RTL que quebrou psicologicamente. Um dia, resolveu não sair mais para a rua e deixou de conseguir trabalhar. Também nós já fazíamos riscos na parede do quarto…
Aquilo que aconteceu há dias a Martin Adler, tinha acontecido por aqueles dias a um funcionário de uma ONG que, ao recusar um aumento salarial aos seus guarda-costas, foi sumariamente fuzilado à porta de casa. De modo que quando recebemos luz verde para retirar dali, foi um alívio. O drama era sair. A única maneira era apanhar um avião. Ir para a pista e esperar que aparecesse algum avião, civil ou militar, que nos desse uma boleia para qualquer lado do Mundo. Naquela altura, o aeródromo central de Mogadíscio era um local movimentado. A Somália concentrava todas as atenções, políticas e humanitárias, de modo que chegavam a toda a hora aviões carregados com sacas de alimentos e que saíam vazios.

Foi isso que fizemos, com uma particularidade. Não queríamos ir para qualquer lado. Eu queria ir para Mombassa… depois daquele inferno, só queria meter a cabeça debaixo de água no Índico. Demo-nos ao luxo de recusar boleias para Dar-es-Salam, Nairobi, Entebbe. De repente, aterrou um monstro branco com asas enormes. Quando o piloto saiu, perguntei-lhe para onde iria regressar, depois de descarregar os sacos de farinha de milho. O russo tirou uma garrafinha de bolso, abriu-a e inspirou o perfume do whisky. Depois, tomou um trago. Por fim, respondeu-me: Mombassa.
Foi assim que viajamos, eu e o Domingos Mascarenhas, no maior avião do Mundo. O Antonov 225. Com uma tripulação russa que parecia acabadinha de sair de uma história de banda desenhada de Hugo Pratt.
Eram todos estranhos, emporcalhados, arrotavam a whisky e peidavam-se olimpicamente. Mas levaram-nos pelo céu e aterraram suavemente em Mombassa, onde preenchi o meu imaginário com novos sonhos.

domingo, junho 25, 2006

Para memória futura

Em 7 de Outubro próximo, em Bayeux, França, vai ser inaugurado um memorial a todos os jornalistas mortos no desempenho das suas funções. O nome de Martin Adler constará, infelizmente, desse rol de horror e estupidez.
O memorial será composto por um passeio com pedras brancas, onde vão figurar os nomes dos jornalistas que, desde 1944, foram mortos um pouco por todo o mundo. A recolha da informação está a ser feita pela organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF). Para que seja prestado um tributo ao maior número possível de jornalistas, a RSF apela a quem tiver informações sobre jornalistas mortos (nome, local de trabalho, data e local onde ocorreu a morte) para que as envie para o e-mail memorial@rsf.org. Os dados recebidos serão confirmados antes dos nomes serem inscritos nas pedras do memorial.

terça-feira, junho 13, 2006

A primeira vítima

O que acho eu deste vídeo? A questão foi-me posta por Sofocleto, do Um Homem das Cidades… O que este vídeo demonstra é que na guerra a primeira vítima é a verdade, tal como já alguém disse. A única novidade, para mim, é o termo Pallywood para designar esta alegada palhaçada propagandística dos palestinianos. Tal como está, do modo como está editado, com a narração naquele tom convincente, o vídeo parece revelar diabólicas encenações manipuladoras da verdade. Talvez seja assim, talvez não. Nem sempre será, estou certo.

Um dia, em Mogadíscio, na Somália, entre outras fantochadas, deparei com uma encenação destas, mas toda ela (aparentemente) inventada pelo jornalista. A coisa passou-se assim… Havia dois locais possíveis para editar reportagens, em Mogadíscio. Ou na UER ou na Reuters. Eu (pela SIC) editava na Reuters, porque era mais barato e porque a SIC, sendo uma estação privada, não é membro da UER (uma associação de televisões públicas europeias). Mas, porque era mais barato, também a RTP montava na Reuters as reportagens dos seus enviados-especiais. Depois de algumas semanas a frequentar o Kilometer 7, assim chamávamos ao hotel onde estava a Reuters, tratava o editor irlandês como se o conhecesse há décadas. Um dia, antes de começarmos o trabalho, tivemos este diálogo:

Ele - A tua concorrência já cá esteve, hoje.

Eu – Ah, sim? E então, uma boa história?

Ele – Sim. Melhor que a tua, de certeza.

Eu – Porquê?

Ele – Queres ver?

E mostrou-me a peça já editada e que seria enviada por satélite para Lisboa dali a pouco. Era uma reportagem cheia de acção. A equipa de reportagem tinha sido apanhada num fogo cruzado, o carro estava danificado, uma bala tinha furado o radiador, o motorista tinha perdido o controlo e embatido num muro. A reportagem era feita à volta daquele cenário, com os repórteres de joelhos, abrigados do tiroteio pela carcaça do veículo. Muitos tiros, ta-ta-ta-tra-ra-ra-ra-ta-ta!!! Gritos. Fiquei derrotado. Naquele dia eram 10 a zero.

Depois, o irlandês contou-me aquela história de outra maneira. Os outros tipos tinham apenas tido um acidente, o carro tinha-se despistado e não havia modo de sair dali. O intrépido repórter magicou aquela cena, rastejou por ali e contou uma história que nunca aconteceu. Na montagem, meteu o som do tiroteio… et voilá!Muitos anos depois, no Sudão. A história que eu perseguia era uma denúncia feita por várias organizações da extrema-direita católica norte-americana, da existência de mercados de escravos negros em zonas controladas pelas milícias arabizadas, conhecidas por janjaweed (palavra árabe que significa “pistoleiro”, mas que em vários dialectos tribais do sul do Sudão significa “diabo a cavalo”). Tentei começar a reportagem pelo lado das vítimas. Falei com dezenas de pessoas que o SPLA me trazia. Quase todas mulheres, convenientemente. Nunca encontrei ninguém com quem pudesse ter uma conversa a sós, olhos nos olhos. Era sempre através de intérprete. Não consegui nunca ter a certeza de que ele transmitia as perguntas que eu fazia, nem nunca consegui perceber se a tradução das respostas era ou não manipulada. A verdade é que muitas pessoas davam respostas curtas, às vezes monossilábicas, e a tradução era sempre um arrazoado longo sobre violações e torturas. Naquelas condições, não quis continuar a reportagem. Embora seja solidário com a causa dos negros sudaneses.

terça-feira, janeiro 24, 2006

Somália, 1992 - uma garrafa de água

A RTP chegou a Mogadíscio num avião fretado em exclusivo. Era uma equipa numerosa, parecia até uma televisão rica… o chefe da missão era Artur Albarran, mas havia um outro redactor, mais um repórter de imagem. Uma montanha de caixotes com algum equipamento e muita água e comida. Os tipos iam prevenidos…
Quando soube que eles tinham chegado, fui à procura deles. Sabia que estavam alojados nas instalações da UER (Union Européenne de Rádio-Télévision). Era uma situação de luxo, já que estavam alojados no mesmo local onde trabalhava uma das mais importantes pools de recolha de imagens… e de onde se faziam os envios para o satélite. Estranhamente, iam editar no Kilometer Seven, no mesmo local que eu e, curiosamente, com o mesmo editor, Sean, um irlandês meio chanfrado que acabou por ficar meu amigo.
Encontrei-os ainda a desfazer as malas… da equipa, só conhecia Albarran. Os outros já tinham entrado na RTP depois de eu ter saído para a SIC. Albarran é daqueles tipos que exibe o sorriso mais caloroso mas não perde a frieza de cálculo. Conversámos durante algum tempo, trocámos algumas impressões, dei-lhe algumas dicas sobre o ambiente e as dificuldades de trabalhar num sítio daqueles e, depois, olhando para os caixotes de comida, perguntei-lhe se tinha garrafas de água que me pudesse dispensar… “trouxemos poucas”, disse-me. Mas prontificou-se a dispensar-me uma, de litro e meio. Foi a outra sala, onde estavam guardadas as paletes de garrafas de água, tirou uma. Vi-o entrar de novo na sala onde tinha ficado à espera… vi-o dar três passos na minha direcção… e vi a garrafa escapar-lhe da mão e cair… e vi a garrafa de plástico a rebentar… e a água mineral a derramar-se… ainda consegui agarrar o fundo da garrafa e salvar 1/10 do conteúdo. Ficámos a olhar um para o outro. Eu, com o resto da garrafa na mão. Encolheu os ombros, percebi que não haveria segunda garrafa. E não houve, mesmo.

segunda-feira, janeiro 23, 2006

Somália, 1992 - a encenação continua (2ºtexto)

A fome ameaçava matar toda a gente. Havia perto de meio milhão de somalis agonizantes, à míngua de pão e água. Poucas crianças sobreviviam além dos 5 anos. A fome e a mal nutrição matavam quase tanto quanto as balas e os obuses.
Os senhores da guerra desviavam, roubavam, a ajuda alimentar destinada ao povo. Alimentos, medicamentos, até roupa, entravam assim no mercado negro e engordavam contas bancárias nos off-shores.

No Outono de 1992, as Nações Unidas tentaram pôr cobro a esta situação caótica e injusta. O Conselho de Segurança deliberou uma intervenção militar para tornar possível a acção das ONG humanitárias, para parar com as matanças entre clãs, para reorganizar minimamente o Estado. Essa operação chamou-se “Restaurar a Esperança”. Quando as primeiras tropas desembarcaram na praia de Mogadíscio, em 9 de Dezembro de 92, eu já lá estava. Eu, mais uma multidão de jornalistas de todo o Mundo.
O desembarque dos marines em Mogadíscio foi um espectáculo. Não é adjectivo. É substantivo. Foi, de facto, uma comédia. A CNN, a CBS, a NBC, a BBC tinham sido informadas com antecedência. Todos sabíamos que era naquela noite. Os meteorologistas previram céu limpo. Era Lua Nova. A noite estava escura que nem breu.
As network mundiais construíram um palanque gigante, largo e alto, em tubo de ferro e madeira, onde montaram as suas cameras Betacam equipadas com infravermelhos, para poderem filmar de noite e sem luz artificial. Através deles, o desembarque “deu” em directo para todo o Mundo.
Eu e muitos outros jornalistas deambulávamos pela praia, para vermos o desembarque ao vivo. Tropecei mais de uma vez em soldados camuflados no escuro. Eles tinham óculos de visão nocturna, eu não via um palmo à frente do nariz. Foi uma palhaçada. Os marines sabiam que o desembarque era seguríssimo. Não havia necessidade daquele show. A não ser que se tenha pretendido, apenas, garantir audiências televisivas e venda de jornais. Ou disseminar propaganda. O desembarque americano na praia de Mogadíscio foi uma demonstração de força da superpotência. Pela primeira vez, os americanos ensaiaram novas armas e novos veículos militares, em cenário real.

Quem não ficou boquiaberto com o surgimento do LCAC (Landing Craft Air Cushion)?... Um monstro anfíbio capaz de transportar tanques, camiões e centenas de homens dos navios até à praia... e foi também na Somália que os primeiros Hummer entraram em acção...
...os primeiros testes deste jeep militar não foram própriamente um sucesso. Lembro-me de ver muitos avariados, logo nos primeiros dias. E se, no deserto, não tinham grandes problemas, para circularem na cidade, nas ruas estreitas de Mogadíscio, não foram a melhor opção. Aqueles Hummer tinham 2 metros de largura... não cabiam nas ruas mais apertadas.

sexta-feira, janeiro 13, 2006

Somália 92, fome de cão

“Kilometer Seven” era o céu. Para lá do portão verde, havia água engarrafada, havia quem tivesse comida, havia camas com colchões e lençóis, havia europeus, americanos e asiáticos, havia algum apoio solidário e muito apoio profissional. Era uma hospedaria a abarrotar de jornalistas e técnicos de televisão. Ficava no quilómetro sete da estrada de Mogadíscio para o aérodromo e, daí, o nome. Quase todos estavam ali. Eu não… quando lá cheguei já não havia lugar, nem mesmo a dormir no chão. Mas era lá que ia editar as reportagens, era ali que “cravava” favores essenciais, como, por exemplo, deixarem-me utilizar um telefone-satélite. Em 1992, a SIC ainda não tinha telefones-satélite para as suas equipas de reportagem. A alimentação era um problema. A maior parte das vezes não havia tempo para comer, durante o dia. E era muito difícil encontrar comida numa cidade sem restaurantes. Só depois da reportagem editada e enviada para o satélite começávamos a descontrair. Então, a fome apertava.
Um dia, não resisti… (agora vou confessar um delito grave) … e roubei uma lata de comida do quarto de uns técnicos japoneses que trabalhavam para a televisão egípcia... ainda por cima, eram tipos simpáticos que me emprestaram várias vezes o telefone-satélite sem nunca cobrarem nada. Escondi a lata nas fraldas da camisa, subi ao terraço, puxei do canivete suíço, abri a lata… a carne tinha um ar gorduroso, envolta em gelatina, mas já estava a salivar de tal modo que nem liguei e enfiei a primeira colherada… ia vomitando as tripas! Até fiquei com o cabelo eriçado! Aquilo era intragável! Olhei para a lata para ver o que estava a comer e li… “meat for dogs, made in South Africa”. No rótulo, o cachorro ria-se…
O estranho desta história é a razão da existência da lata de comida para cão. Do caixote de onde tirei aquela, havia dúzias da mesma marca e conteúdo. Percebi, mais tarde, que se tratava de um equívoco provocado pelo mau inglês do japonês que foi às compras em Joanesburgo... o que não impedia os japoneses de comerem aquilo...e gostarem.

quinta-feira, janeiro 12, 2006

Somália 92, a primeira noite

Nos últimos dias de Novembro de 1992, os clãs somalis combatiam ferozmente rua a rua, casa a casa. Os americanos só chegariam dali a duas semanas e os senhores da guerra queriam conquistar tudo o que pudessem antes da chegada das tropas mandatadas pela ONU.
Aterrei em Mogadíscio em plena demência no vespeiro. Não sabia onde dormir, não sabia onde comer, não conhecia ninguém ali, nenhum outro jornalista português estava por ali naquela altura. Na primeira noite tentei ficar no compound da CNN, uma casa enorme, murada, guardada por civis americanos armados de metralhadoras. Fui posto na rua, noite escura, com um “it`s not possible”. Do lado de fora da casa, fiquei encostado à parede, sem saber o que fazer. Ouviam-se tiros, muito perto dali.

Até que um veículo saiu do compound. O somali que conduzia viu em mim uma receita extra para aquele final de dia. Chamou-me, disse-me em bom inglês que eu era louco, que se ficasse ali seria morto e perguntou onde eu estava alojado. Pensei no que responder e saiu-me “na Cruz Vermelha Internacional”. Disse que para me levar até lá queria 10 dólares. Nem discuti…Chegados à casa da ICRC – International Committee of Red Cross – bati com força no portão metálico. Demorou algum tempo, mas alguém me abriu a porta e antes de abrir a boca já estava na parte de dentro. Pedi para falar com o director. Apareceu-me um branco, germânico, que adivinhou ao que eu ia assim que me viu e disse que não podia lá ficar. Sentei-me no chão e respondi, “daqui não saio, lá fora andam todos aos tiros”… e foi assim que encontrei o primeiro alojamento em Mogadíscio.

terça-feira, janeiro 10, 2006

Jornalismo encenado - Somália 92 - 1º texto

Cheguei a Mogadíscio em finais de Novembro de 1992. Fiquei lá até ao Natal. Foi um mês completamente louco.
Naquele tempo, a Somália devia ser o sítio mais perigoso do Mundo. Sem governo, a população combatia na mais estranha guerra civil que já vi. Vários clãs matavam-se entre si, numa demência de todos contra todos.

A avioneta alugada em Nairobi aterrou no aeródromo central de Mogadíscio, precisamente no momento em que aquela parcela de chão estava a ser disputada entre duas das facções em conflito. Como não havia comunicação via rádio com alguém em terra, o piloto (e nós) só se apercebeu que havia balas a voar, além do avião, quando já não conseguiu abortar a aterragem. O avião bateu no chão e foi rapidamente conduzido para trás de uma parede, onde sempre havia alguma protecção. Assim que o tiroteio teve uma pausa, o piloto levantou voo e nós ficamos. Eu, um fotógrafo americano e dois tipos alemães da televisão ZDF. A SIC tinha-me enviado sozinho para ali. Eu deveria procurar a equipa da Reuters e trabalhar com eles. Não há nada pior que ir para um sítio destes sem um companheiro.

Arranjar alojamento foi o primeiro tormento. Os tipos da ZDF tinham um contrato com a CNN e iam ficar na casa que a televisão americana tinha comprado. Eles são assim, chegam e compram! Decidi ir com eles, quem sabia se não poderia lá ficar também… Chegamos ao compound da CNN já de noite. O anchor preparava um directo, com cenário montado. Quando digo cenário, não estou a brincar com as palavras. Era mesmo um cenário, onde figuravam duas pick-up Toyota de caixa aberta, equipadas com metralhadoras pesadas, e vários somalis em pose de rambo… e o anchor americano dizia, no seu directo, “estamos na frente de batalha, atrás de mim os guerrilheiros de Aidid…”, blá blá blá blá… bullshit como se diz na China. Armar aos heróis, a grandes repórteres, dentro dos muros protegidos por guardas privados e com figurantes pagos… e eram aqueles tipos a referência mundial do jornalismo televisivo.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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