Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











sexta-feira, janeiro 13, 2006

Somália 92, fome de cão

“Kilometer Seven” era o céu. Para lá do portão verde, havia água engarrafada, havia quem tivesse comida, havia camas com colchões e lençóis, havia europeus, americanos e asiáticos, havia algum apoio solidário e muito apoio profissional. Era uma hospedaria a abarrotar de jornalistas e técnicos de televisão. Ficava no quilómetro sete da estrada de Mogadíscio para o aérodromo e, daí, o nome. Quase todos estavam ali. Eu não… quando lá cheguei já não havia lugar, nem mesmo a dormir no chão. Mas era lá que ia editar as reportagens, era ali que “cravava” favores essenciais, como, por exemplo, deixarem-me utilizar um telefone-satélite. Em 1992, a SIC ainda não tinha telefones-satélite para as suas equipas de reportagem. A alimentação era um problema. A maior parte das vezes não havia tempo para comer, durante o dia. E era muito difícil encontrar comida numa cidade sem restaurantes. Só depois da reportagem editada e enviada para o satélite começávamos a descontrair. Então, a fome apertava.
Um dia, não resisti… (agora vou confessar um delito grave) … e roubei uma lata de comida do quarto de uns técnicos japoneses que trabalhavam para a televisão egípcia... ainda por cima, eram tipos simpáticos que me emprestaram várias vezes o telefone-satélite sem nunca cobrarem nada. Escondi a lata nas fraldas da camisa, subi ao terraço, puxei do canivete suíço, abri a lata… a carne tinha um ar gorduroso, envolta em gelatina, mas já estava a salivar de tal modo que nem liguei e enfiei a primeira colherada… ia vomitando as tripas! Até fiquei com o cabelo eriçado! Aquilo era intragável! Olhei para a lata para ver o que estava a comer e li… “meat for dogs, made in South Africa”. No rótulo, o cachorro ria-se…
O estranho desta história é a razão da existência da lata de comida para cão. Do caixote de onde tirei aquela, havia dúzias da mesma marca e conteúdo. Percebi, mais tarde, que se tratava de um equívoco provocado pelo mau inglês do japonês que foi às compras em Joanesburgo... o que não impedia os japoneses de comerem aquilo...e gostarem.

2 comentários:

Isabela Figueiredo disse...

Sou sincera, também não acho que a ração das minhas cadelas seja má de todo! E ao preço que aquilo me custa!

CN disse...

biscoitos, ainda vá...

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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