Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











quinta-feira, janeiro 26, 2006

Mauritânia, 1985 - para além da reportagem (2)

Em 1985, estar preso na cadeia de Nouadhibou era uma experiência do “além”… os detidos nem eram alimentados convenientemente. Ou tinham família que lhes levasse um prato de sopa ou tinham de se sujeitar à ração fornecida pelo Crescente Vermelho, uma organização similar à Cruz Vermelha existente em países muçulmanos. E essa ração… não era comestível.
As nossas perspectivas para o futuro imediato não eram brilhantes, como podem imaginar. As primeiras horas de detenção foram confusas. De toda a equipa (éramos quatro) só eu falava francês suficiente para discutir condições com o Chefe da Polícia. Mas, quem já passou pela experiência sabe, discutir com sucesso com um árabe é uma tarefa ao alcance de poucos. Foi um pormenor (como sempre…) que nos salvou. No mar, antes de abandonarmos o barco, o capitão tinha-me dito que, caso surgisse algum problema, “para chamar o Dimas”. E assim fiz. Pedi ao Chefe da Polícia para chamar o “monsieur Dimas”.
Quem é o Dimas? Dimas dos Santos, o único português que vivia naquele fim do mundo, capitão de armamento de uma empresa de pesca mauritana. Era uma espécie de santo protector dos pescadores portugueses que andavam por aquelas paragens. Era um “desbloqueador” de problemas. Quando Dimas chegou à cadeia, demorou apenas algumas horas a negociar a nossa condição de prisioneiros. Ficámos detidos, ainda, mas em prisão domiciliária… em casa do Dimas.

Carta de Manila, 2ª parte

"Nesta República, o que conta é a solidariedade familiar, na política como no resto: quando um familiar é eleito ou promovido para qualquer cargo de responsabilidade, comem todos; quando faz uma asneira, pagam todos! Não há escândalo com isso.
O sistema favorece a corrupção. A Presidente distribui com liberalidade, como se fosse a dona da massa. Que não se percebe de onde vem. O dinheiro do Estado é distribuído não pelas regiões ou pelos municípios, mas pelos deputados, a quem serve para manterem a sua clientela e para mostrarem aos eleitores alguma obra feita. Por exemplo, o Presidente da Câmara da cidade onde vivemos, Parañaque, acabou de fazer novos passeios. Pois bem, em cada ladrilho mandou imprimir em letras garrafais as iniciais do seu nome, «JB», para que os eleitores não se esqueçam no momento de votar. Mas, se por acaso não o reelegerem, o próximo já terá aplicação para os fundos: tapar o nome do anterior!
Os filipinos são um povo migrante. Qualquer emigrante é a fonte se subsistência da família: quem fica já não precisa de trabalhar. Basta-lhe ter um telemóvel para lhe mandar regularmente mensagens a lembrá-lo do sagrado dever de mandar remessas. A alternativa é arranjar um ancião americano rico através da Internet, que garanta o futuro das garotas a troco de lhe servirem de bengala!"

"São os emigrantes – e não as politicas da senhora Glória Arroyo e da sua comandita – quem está a aguentar o peso (a moeda nacional) e o país. As suas remessas devem bater este ano o recorde de 10 mil milhões de dólares. Estou em crer que a Presidente deve passar mais tempo a maquilhar-se e a escolher a indumentária para a fotografia da manchete diária dos jornais (mesmo que não haja notícia correspondente) do que a governar! Não deve haver outro país no mundo onde haja tantas Fundações e organizações não-governamentais com tamanha variedade de projectos em favor dos pobres; e os pobres estão cada vez pior!"

(continua)

quarta-feira, janeiro 25, 2006

Carta de Manila, 1ªparte

Pelo Natal, recebi carta de um amigo, o José Rebelo. Escreveu de Manila, nas Filipinas e fala do país que está, agora,a conhecer. Era uma espécie de “carta aberta”, dirigida não só a mim como a muitos outros amigos dele. Chegou por e-mail e vou, agora, divulgá-la por partes.

I parte.

“Desde o início de Agosto que me encontro nas Filipinas, um arquipélago de sete mil e tal ilhas (o número varia consoantes as marés) e muitas mais maravilhas. Certamente, para muitos, o nome deste longínquo país, geográfica e culturalmente, não desperta particulares memórias, para além das histórias sobre as extravagâncias da Imelda Marcos. A ex-primeira dama perdeu a ‘modesta’ colecção de pares de sapatos, que faziam parte do seu guarda-roupa, mas ainda não deixou de reclamar a propriedade das jóias com que se adornava.
Desde 1986, o povo já desceu à rua para destituir dois Presidentes – em duas notáveis revoluções sociais, que deram ao mundo uma lição de poder popular – e ainda está a decidir se deve ou não destituir a actual, na base de alegadas fraudes eleitorais. Que parecem ser cada vez mais uma evidência, a julgar pela sua obstinada recusa em esclarecer o que se passou! Aos protestos, a administração responde com jactos de água. Até alguns bispos já foram «benzidos». Depois de ter ameaçado com a imposição da Lei Marcial, o Governo ficou-se pelo uso da «resposta calibrada preventiva».
O combate político tem as suas peculiaridades. É feito com orações, procissões e terços à mistura. Pouco a pouco a oposição tem vindo a desgastar a imagem da Presidente, cuja popularidade atingiu nestes dias os seus mínimos históricos. Para deitar abaixo os adversários vale tudo. Só um exemplo ilustrativo: nestes dias, um General na reserva e ex-ministro proclamou-se «Presidente de um Governo revolucionário de transição». Foi, naturalmente, preso por decisão política (!), na base de «Incitamento à sedição»; e os familiares em postos de chefia demitidos, como se fossem responsáveis pela decisão do velhote!”

(continua)

Sudão, os Nuba (3)

Nas Montanhas Nuba, no Sudão, fui testemunha do milagre da multiplicação… das galinhas.
Num dos locais onde parámos para retemperar forças havia uma espécie de hospedaria. Era uma palhota de pau a pique, sem paredes. Tinha uns muros baixinhos que dividiam a casa nas várias salas. E tinha uma zona onde se cozinhava, numa fogueira de lenha.
Ficámos ali quase 24 horas. As bolhas nos pés estavam a matar-nos… De modo que vi aquela senhora cozinhar para muitas pessoas.

Vinham aos grupos familiares, era gente que se tinha deslocado da aldeia onde viviam até aquele mercado. Por causa da guerra, os Nuba não têm mercados junto às aldeias. Normalmente, os mercados ficam em locais equidistantes de várias povoações. Assim, tentam evitar grandes aglomerações de pessoas e limitam a tendência para a formação de grandes aglomerados habitacionais. Com esta medida, minimizam o efeito dos bombardeamentos aéreos governamentais. As pessoas, quando precisam de trocar produtos, deslocam-se a um desses locais. Não há dinheiro em circulação, de modo que é preciso carregar alguma coisa que valha para a troca com aquilo de que se necessita. Moeda forte, por lá, são “pepitas” de sal e roupa. O sal é raríssimo e chega em caravanas que conseguem furar o bloqueio que o exército do governo faz às Montanhas Nuba. A roupa, só mesmo a que chega nos voos clandestinos das ONG humanitárias ou do padre Renato Kizito.
Então, nessa hospedaria, a senhora tinha uma galinha, pronta a ser cozinhada. Vi essa galinha ser fervida umas 15 vezes, ao longo desse dia. A mulher, por cada fervura, juntava na panela umas verduras e sementes de sésamo. Servia o caldo, mas guardava a carne que, depois, voltava a ferver para os clientes seguintes. Por cada fervura, a galinha ia soltando alguma carne, até que desapareceu por completo. Mas, deste modo, uma galinha ajudou a alimentar dezenas de pessoas.

terça-feira, janeiro 24, 2006

Somália, 1992 - uma garrafa de água

A RTP chegou a Mogadíscio num avião fretado em exclusivo. Era uma equipa numerosa, parecia até uma televisão rica… o chefe da missão era Artur Albarran, mas havia um outro redactor, mais um repórter de imagem. Uma montanha de caixotes com algum equipamento e muita água e comida. Os tipos iam prevenidos…
Quando soube que eles tinham chegado, fui à procura deles. Sabia que estavam alojados nas instalações da UER (Union Européenne de Rádio-Télévision). Era uma situação de luxo, já que estavam alojados no mesmo local onde trabalhava uma das mais importantes pools de recolha de imagens… e de onde se faziam os envios para o satélite. Estranhamente, iam editar no Kilometer Seven, no mesmo local que eu e, curiosamente, com o mesmo editor, Sean, um irlandês meio chanfrado que acabou por ficar meu amigo.
Encontrei-os ainda a desfazer as malas… da equipa, só conhecia Albarran. Os outros já tinham entrado na RTP depois de eu ter saído para a SIC. Albarran é daqueles tipos que exibe o sorriso mais caloroso mas não perde a frieza de cálculo. Conversámos durante algum tempo, trocámos algumas impressões, dei-lhe algumas dicas sobre o ambiente e as dificuldades de trabalhar num sítio daqueles e, depois, olhando para os caixotes de comida, perguntei-lhe se tinha garrafas de água que me pudesse dispensar… “trouxemos poucas”, disse-me. Mas prontificou-se a dispensar-me uma, de litro e meio. Foi a outra sala, onde estavam guardadas as paletes de garrafas de água, tirou uma. Vi-o entrar de novo na sala onde tinha ficado à espera… vi-o dar três passos na minha direcção… e vi a garrafa escapar-lhe da mão e cair… e vi a garrafa de plástico a rebentar… e a água mineral a derramar-se… ainda consegui agarrar o fundo da garrafa e salvar 1/10 do conteúdo. Ficámos a olhar um para o outro. Eu, com o resto da garrafa na mão. Encolheu os ombros, percebi que não haveria segunda garrafa. E não houve, mesmo.

segunda-feira, janeiro 23, 2006

Parasitas

Passo a passo, os cientistas continuam a batalha contra a doença que mais mata no Mundo: a malária.
Foi notícia, na BBC, que um grupo de cientistas do Instituto Pasteur de Paris conseguiu seguir as “pegadas” do plasmodium (o parasita imaturo), assim que o mosquito pica na pele da vítima. Segundo percebi, os cientistas conseguiram colorir com tinta fluorescente o plasmodium e, assim, puderam seguir-lhe o rasto no organismo de ratinhos cobaias.
Para já, ficámos a saber que cada picada injecta cerca de vinte parasitas no corpo. Não sei onde estas pesquisas irão dar, mas sei que é urgente que se descubra uma vacina ou qualquer outro tipo de tratamento eficaz para debelar esta doença. A malária mata mais que a SIDA. E mata há muito mais tempo… É uma doença terrível, que dá cabo de qualquer um. Já vi homens, fortes como touros, morrerem de malária em 3 dias. Já tremi, diversas vezes, com crises de malária. A minha passagem de ano de 2000 foi numa cama do Hospital Egas Moniz, em Lisboa, depois de uma viagem ao Congo. Há dois tipos de plasmodium, o falsiparum e o vivax… e já me diagnosticaram os dois em simultâneo. Tenho mais medo desse parasita que de tipos armados em maus…

Mário Soares, in the end of the day...

O soarismo terminou, assim, numa derrota aos pontos. Outros combates virão, mas jamais com os mesmos antagonistas. Mário Soares terminou, ontem, uma brilhante carreira política, em que teve mais vitórias que derrotas, em que deu mais do que recebeu. Nunca gostei muito do modo como tratava os outros… Sempre pensei que Soares era demasiado arrogante, embora isso não transpareça para o público. Mas votei nele. Votei nele, pela 2ªvez na vida. Na primeira vez, em 1986, votei por convicção. Ontem, votei por exclusão de partes mas, também, pelo respeito que me merece este “mais velho”, ainda lutador aos 81 anos. O que ele disse, ontem, na hora da derrota, é uma espécie de lema que gostaria de poder adoptar: “só é derrotado, quem desiste de lutar”.

Somália, 1992 - a encenação continua (2ºtexto)

A fome ameaçava matar toda a gente. Havia perto de meio milhão de somalis agonizantes, à míngua de pão e água. Poucas crianças sobreviviam além dos 5 anos. A fome e a mal nutrição matavam quase tanto quanto as balas e os obuses.
Os senhores da guerra desviavam, roubavam, a ajuda alimentar destinada ao povo. Alimentos, medicamentos, até roupa, entravam assim no mercado negro e engordavam contas bancárias nos off-shores.

No Outono de 1992, as Nações Unidas tentaram pôr cobro a esta situação caótica e injusta. O Conselho de Segurança deliberou uma intervenção militar para tornar possível a acção das ONG humanitárias, para parar com as matanças entre clãs, para reorganizar minimamente o Estado. Essa operação chamou-se “Restaurar a Esperança”. Quando as primeiras tropas desembarcaram na praia de Mogadíscio, em 9 de Dezembro de 92, eu já lá estava. Eu, mais uma multidão de jornalistas de todo o Mundo.
O desembarque dos marines em Mogadíscio foi um espectáculo. Não é adjectivo. É substantivo. Foi, de facto, uma comédia. A CNN, a CBS, a NBC, a BBC tinham sido informadas com antecedência. Todos sabíamos que era naquela noite. Os meteorologistas previram céu limpo. Era Lua Nova. A noite estava escura que nem breu.
As network mundiais construíram um palanque gigante, largo e alto, em tubo de ferro e madeira, onde montaram as suas cameras Betacam equipadas com infravermelhos, para poderem filmar de noite e sem luz artificial. Através deles, o desembarque “deu” em directo para todo o Mundo.
Eu e muitos outros jornalistas deambulávamos pela praia, para vermos o desembarque ao vivo. Tropecei mais de uma vez em soldados camuflados no escuro. Eles tinham óculos de visão nocturna, eu não via um palmo à frente do nariz. Foi uma palhaçada. Os marines sabiam que o desembarque era seguríssimo. Não havia necessidade daquele show. A não ser que se tenha pretendido, apenas, garantir audiências televisivas e venda de jornais. Ou disseminar propaganda. O desembarque americano na praia de Mogadíscio foi uma demonstração de força da superpotência. Pela primeira vez, os americanos ensaiaram novas armas e novos veículos militares, em cenário real.

Quem não ficou boquiaberto com o surgimento do LCAC (Landing Craft Air Cushion)?... Um monstro anfíbio capaz de transportar tanques, camiões e centenas de homens dos navios até à praia... e foi também na Somália que os primeiros Hummer entraram em acção...
...os primeiros testes deste jeep militar não foram própriamente um sucesso. Lembro-me de ver muitos avariados, logo nos primeiros dias. E se, no deserto, não tinham grandes problemas, para circularem na cidade, nas ruas estreitas de Mogadíscio, não foram a melhor opção. Aqueles Hummer tinham 2 metros de largura... não cabiam nas ruas mais apertadas.

domingo, janeiro 22, 2006

URSS 1985, um frio dos tomates

As populações da Rússia e dos países nórdicos estão a sofrer com o frio terrível.
Ouvi, ontem, no Telejornal do Canal 1 que já morreram 76 pessoas em Moscovo. Morrer de frio, deve ser horrível…
Estive em Moscovo, em Dezembro de 1985. Fui… “de férias”, com um amigo e companheiro de trabalho chamado Mário Lindolfo. A viagem fazia parte do prémio que tínhamos recebido nesse ano, por uma reportagem feita em conjunto. Um dia contarei essa história.
Vem isto a propósito do frio… é que, nesse Inverno, para nossa desgraça, o frio também apertou desmesuradamente. Na primeira manhã, acordei e vi, pela janela, um nevão fantástico. Para mim, aquilo era novidade quase absoluta. Fiquei maravilhado pelo espectáculo. Tomei um duche, pedi o breakfast e saí para a rua. Dei dois passos e senti agulhas espetadas na cabeça. Levei as mãos à cabeça e o cabelo partiu-se entre os dedos… não tinha secado a cabeça (nunca o faço) e, ao ar livre, a água que estava no cabelo tinha gelado em dois segundos.

Estivemos lá 15 dias. Adorei a cidade e as pessoas. Apenas o frio… não havia roupa que o afastasse. Cheguei a caminhar com as mãos enfiadas (à vez) nas calças, junto aos tomates. Era a única maneira de as manter quentes. E aos ditos cujos.

sábado, janeiro 21, 2006

Kosovo, Rugova não deixou herdeiro

Sempre que alguma coisa acontece nos Balcãs, a Europa treme. A desintegração da Jugoslávia, as limpezas étnicas cometidas por sérvios, albaneses, bósnios e croatas, uns contra os outros, provocaram uma tremenda crise europeia que tornou inevitável mais uma intervenção militar norte-americana em solo europeu.
Depois da Croácia e da Bósnia Herzegovina terem restaurado as respectivas independências, sobrou a questão do Kosovo.
A Sérvia pretende manter o território como sua província, concedendo-lhe um estatuto de região autónoma. Alega que o Kosovo é o berço do nacionalismo sérvio e alega que controla o território desde há centenas de anos. Contra os argumentos históricos invocados pela Sérvia, os kosovars reivindicam o direito à autodeterminação. Em 1999, o exército sérvio foi expulso do Kosovo, pela força dos bombardeamentos da NATO que entrou no território para impedir a aniquilação total dos kosovars. O território, desde então, é governado pelas Nações Unidas.
Ibrahim Rugova foi o dirigente kosovar escolhido pelo Ocidente, para liderar o povo e controlar os ímpetos belicistas das facções radicais. Rugova era conhecido pelo povo, dirigia um partido político desde o final da década de 80, depois da queda do Muro e da desintegração da URSS. E era um moderado, característica muito apreciada por americanos e europeus. Assim, Rugova teve meios para se afirmar como líder. Os políticos nacionalistas mais radicais nunca lhe fizeram uma verdadeira oposição. Preferiam dar tempo ao tempo. Agora que Rugova morreu, talvez tenha chegado a hora de endurecer essa luta. Dentro de dias, em Viena de Áustria, deveria começar a negociação para se decidir o estatuto final do Kosovo. A negociação foi adiada, devido à morte de Rugova.
Durante o tempo em que andei pelo Kosovo, não foi difícil de verificar que os independentistas nunca desarmaram, de facto. As tropas da NATO bem tentavam recolher armamento que tivesse sido distribuído pela população, mas só encontravam armas velhas e facas de mato… as patrulhas militares, na montanhosa fronteira com a Albânia, tentavam parar o tráfico de armas para os nacionalistas, mas as capturas eram quase nulas… nas imediações dos aquartelamentos da NATO havia, sempre, uma instalação do UCK, o Exército de Libertação do Kosovo, em local estratégico para vigiar os movimentos dos soldados estrangeiros. A população permanecia mobilizada para a contestação.

Quase semanalmente, uma manifestação nacionalista mantinha a chama acesa… por esses dias, em Pristina (a capital), os assassinatos políticos eram rotineiros… a intervenção da NATO impediu uma guerra aberta, mas para garantir a paz e a estabilidade mantêm-se no território cerca de 17.000 soldados da NATO, 2.000 dos quais norte-americanos. O UCK pode estar a sentir que chegou o momento de adquirir a independência do território. Os EUA e aliados estão demasiado ocupados na estranha guerra contra o terrorismo, o Iraque, o Irão, a Síria, a Coreia do Norte, enfim... não devem querer arriscar mais uma frente.

Angola, 1998 - O Palmeirinha

Em Agosto, Setembro e Outubro de 98, voei no “Palmeirinha” várias vezes. Era um Antonov de uma empresa que prestava serviços ao Estado angolano, nomeadamente, no transporte de carga para as províncias do interior durante a guerra. Os aviões cargueiros também levavam passageiros, viajavamos entalados nas sacas de arroz ou entre as paletes de cerveja. Ali não havia problemas com cintos de segurança nem demonstrações da assistente de bordo sobre como accionar o colete salva-vidas.
Uma vez, nas manobras para se encaminhar para a pista, o “Palmeirinha” ficou com uma asa entalada debaixo de outro avião maior. Tivemos de ser nós, os passageiros, a sair para a pista e empurrar o avião de modo a desentalá-lo.
Outra vez, um dos motores do “Palmeirinha” ficou sem pressão de óleo, o piloto fez meia volta e aterramos em Luanda só com um motor a trabalhar.
Mas o que mais recordo das viagens do “Palmeirinha” foi, num regresso da Lunda Norte para Luanda, com o avião com o porão vazio, uma grande futebolada que fiz com o Carlos Santos, a 8 mil metros de altitude, para aguentar o frio que entrava pelas frinchas da estrutura do avião...

sexta-feira, janeiro 20, 2006

Guiné Bissau, memórias em ruína

Faz hoje 33 anos que Amílcar Cabral foi morto. Foi de noite, em Conackry. Se a morte do dirigente do PAIGC foi um golpe das operações especiais portuguesas, tratou-se do golpe mais bem sucedido de toda a guerra colonial. Mas foi um golpe fatal para o futuro do povo guineense, como hoje bem sabemos. Nenhum dos dirigentes que sucederam a Amílcar Cabral teve o engenho ou a vontade para se dedicar ao bem-estar e ao desenvolvimento do país. Amílcar teria tido, estou certo.
Trinta e três anos depois, a memória de Cabral jaz, entre tábuas apodrecidas, na parada do Forte da Amura, em Bissau. Para vergonha dos guineenses...

Trinta e três anos depois, o mausoléu de Amílcar permanece na sombra das grandes acácias. Porque as velhíssimas acácias permanecem de pé. E teimam em ser generosas.

Trinta e três anos depois, o carinho dos guineenses pelo pai da nacionalidade esvai-se na ferrugem que consome o velho VW que pertenceu a Amílcar (em Conackry) e que está abandonado, também, num canto do Forte da Amura.

As fotos foram tiradas por mim, em 2004. A memória de Amílcar espelha o que o país hoje é: uma ruína.

In dubio, pro reo

Souto Moura insiste que a notícia do 24 Horas é falsa, mas a argumentação que usa parece-me demasiado frágil. Diz ele que o Ministério Público não investigou as 80 mil chamadas rastreadas no documento que a PT enviou… Mas ficamos só com a palavra de um homem que, mesmo sendo Procurador-Geral da República, não está acima de qualquer suspeita.
Diz a experiência que vale tudo, quando se defendem interesses corporativos. E sabemos todos como é fácil para um Procurador-Geral da República accionar tribunais contra um jornal. Portanto, não creio que o 24 Horas se tenha descuidado, neste caso.
Segundo Souto Moura reconheceu hoje no Parlamento, a disquete com a facturação detalhada do telefone de Paulo Pedroso, enviada pela PT, continha “outros números, sem menções de quaisquer nomes”, mas o Ministério Público “nunca tentou decifrar o que estava a mais”. Acredite quem quiser… mas a dúvida é pertinente.
Quanto ao “rigoroso inquérito” instaurado depois de ter sido recebido pelo Presidente da República, ainda a decorrer, Souto Moura já ensaiou uma boa desculpa: o Ministério Publico tem “um papel modesto” nas escutas telefónicas e “não é obrigado, em cada caso concreto, a controlar o trabalho das polícias e dos juízes”.

Querem sempre aparecer muito competentes, lá do alto da autoridade que lhes é conferida pela Lei, mas os fracassos e gaffes são uma constante. Falo do que sei, da experiência adquirida ao longo de 3 anos de responsabilidade editorial do "Casos de Polícia" em que fui alvo de 18 processos e nunca perdi nenhum.

Castro Laboreiro, 1984 - oração aos cães

Cheguei a Castro Laboreiro morto de frio. E assim fiquei durante os 8 dias que durou aquele trabalho. O frio, de rachar, contrariou-se com aguardente de maçã. De hora a hora, lá ia um copinho… aquilo a que hoje chamaríamos “shot”. Bebi muitos, como é bom de ver. Em Dezembro, lá no alto da montanha, repito, o frio é de morrer…

A aldeia fascinou-me. Pedregosa, mergulhada em neve, gelo e nevoeiro. Era um ambiente em tons de cinzento. Só tinha mulheres, baixinhas, sempre vestidas de negro, saíam à rua com um manto que lhes envolvia a cabeça e protegia o corpo do frio. Não havia mulher que não trouxesse um cão à ilharga. O cão de Castro Laboreiro é um bicho grande, escuro, de olhos amarelos. Mete medo. Talvez por isso as mulheres não dispensavam a companhia do seu, naqueles dias em que a aldeia foi invadida por um grupo de estranhos, que filmavam e fotografavam sem sentido aparente.
Pois, o que me levou até lá foram, precisamente, aqueles cães. Fiz uma reportagem sobre cães de raça portuguesa e o cão de Castro Laboreiro é um dos mais emblemáticos. É uma raça muito antiga, morfologicamente próxima do lobo. Os olhos amarelos e os dedos das patas virados para a frente não enganam… contudo, revela-se um animal meigo, pelo menos para os donos. As gentes de Castro Laboreiro usam o cão para guardar o gado. No Inverno, o cão encarrega-se disso sem necessidade de companhia humana. O rebanho de cabras fica-lhe entregue. Penso que será o único cão de guarda que faz este trabalho assim, sem ajuda do homem.


Na aldeia, durante a semana, só havia mulheres. Os homens trabalhavam longe e, quanto muito, iam a casa ao fim-de-semana. Mas a maioria nem isso. Muitos andavam pela França. O único homem que ficava era o padre Aníbal. Este padre tinha um forte sentido de protecção em relação à sua aldeia e à paróquia. Era um amante da arqueologia local. Não se cansou de nos levar a ver as pontes romanas, o castelo do século XII, os dólmenes, as pinturas rupestres. De facto, Castro Laboreiro é um sítio fascinante. Mas defendia, acima de tudo, a arqueologia viva que é o cão de Castro Laboreiro. Cheguei a ver o padre a apedrejar cães vadios, abandonados pelos caçadores, que se refugiavam na aldeia durante o Inverno à procura de calor e comida. O problema desses cães é que montavam as cadelas de Castro Laboreiro e, assim, abastardavam a raça. Por esse pecado, eram apedrejados impiedosamente…

quinta-feira, janeiro 19, 2006

RTP 2

A Alta-Autoridade para a Comunicação Social deu parecer favorável à nomeação de Jorge Wemans para o cargo de director do canal 2.
Só tenho dúvidas em relação a uma pequena questão. Gostava de perceber a razão que levou a AACS a ter o cuidado de expressar o desejo, no mesmo comunicado em que anuncia a concordância em relação à nomeação de Wemans, de que a RTP cumpra "rigorosamente" as normas legais no que diz respeito à destituição de directores que tenham a seu cargo áreas de programação e informação.Depois de tomar posse, Wemans vai, então, começar a “tirar coelhos da cartola”… Estou ansioso para ver.

Bissau, 1998 - a mulher abandonada

Tenho sentimentos contraditórios relativamente à história que vou contar. Vacilo entre o pudor e a vaidade mas, como já perceberam, vou contar…
Por razões óbvias, vou alterar o nome da principal protagonista. Chamo-lhe Nininha
Tinha vinte e poucos, talvez até menos, e uma barriga avantajada de 7 meses de gravidez. Tinha sido abandonada por todos. Primeiro, pelo marido português que fugiu da guerra, logo aos primeiros tiros, evacuado no “Ponta de Sagres”, um navio cargueiro que, debaixo de fogo, tirou alguns milhares de pessoas de Bissau. Depois, foi abandonada pelos vizinhos que não quiseram arriscar a fuga com o contrapeso de uma grávida que já não podia correr. Acabou por ficar quase só, na cidade deserta. No bairro onde morava, Chão de Papel, havia meia dúzia de casas habitadas. Alguns homens tinham ficado, para evitar pilhagens. Mas eram poucos.
Nininha descobriu-nos e passou a ser visita assídua. Comia da nossa comida, pagava com risos. De noite, ia para casa.
Ao fim de dois meses, abandonámos Bissau, rendidos por outra equipa de reportagem. Nunca mais soube dela. Ainda durante a guerra, voltei a Bissau mais três vezes, mas nunca mais a vi, ninguém soube dar notícias dela. Havia cada vez menos gente na cidade.
No final da guerra, a Marta Jorge (jornalista da RTP, sedeada em Bissau) contou-me o resto da história…
Andava ela em reportagem, retratando a difícil situação dos habitantes de Bissau que tinham ficado sem morada, porque as suas casas tinham sido destruídas, quando encontrou uma negra jovem que vivia na rua com um filho bebé. O miúdo era muito claro, quase branco. A mulher contou que tinha ficado sem casa, queimada por um obus que lhe rebentou com o telhado. A repórter perguntou-lhe, depois, pelo pai da criança. Respondeu que era um português que tinha fugido. A repórter perguntou, então, como se chamava o bebé. Ela respondeu… "Carlos Narciso".
A Marta teve um arrepio. Passou-lhe pela cabeça que eu seria o pai do miúdo… mas, logo de seguida, a mulher disse-lhe que, quando o bebé tinha nascido, lhe tinha dado o nome da única pessoa que a tinha ajudado durante aquele período.
Gosto desta história, até porque não termina aqui.
Mais tarde, Nininha conheceu um médico francês, voluntário dos Médecins Sans Frontiéres. Apaixonaram-se. Nininha vive, hoje, em Bordéus, com o marido e o filho.
Espero que seja feliz.

quarta-feira, janeiro 18, 2006

Estou muito zangado

Sabia que isto ia acontecer, um dia. Mas preferia que tivesse sido mais tarde, quando ela fosse mais velha e já tivesse adquirido outra capacidade de encaixe e de entendimento. A minha filha tem 6 anos. É uma menina linda. Esta tarde, quando saía da escola, pela mão da mãe, disse adeus a uma colega. A outra miúda respondeu-lhe: “estás sempre a dizer-me olá. Ainda por cima não gosto de pretos!”

Guerra do Golfo, o voo dos escarros

Durante a I Guerra do Golfo, a RTP enviou repórteres para todo o lado. Albarran foi para o Koweit e Iraque onde se distinguiu de modo a lhe atribuírem a alcunha de “aldraban”, Barata Feyo esteve em Israel e eu fui para o Norte de África, território considerado como a “terceira frente de batalha”.
Durante dois meses andei entre Tunis e Rabat, a filmar manifestações anti-americanas e a entrevistar líderes regionais. Confesso que foi um trabalho chato.

Houve, no entanto, um momento alto nessa missão. Foi em Tunis, capital da Tunísia.. Vários partidos políticos e grupos religiosos tinham organizado uma grande manifestação de apoio a Saddam Hussein. Juntaram muitos milhares de pessoas. Era uma multidão só de homens, vociferantes, exibindo mísseis de cartão pintado e cartazes com insultos ao Ocidente. Posicionámo-nos num local estratégico para filmar o desfile. Passados uns minutos, levei com a primeira escarradela. Depois, uma outra. Aqueles tipos estavam a cuspir para cima de nós! Vingavam as afrontas da maneira que podiam… Foram duas ou três horas difíceis de aguentar. Um polícia aceitou proteger-nos, mas não impedia o voo dos escarros. Depois daquilo tudo, fomos editar a reportagem para a televisão local. Gravei texto, montei as imagens, estava tudo ok. À hora do envio por satélite, não fomos autorizados a emitir a reportagem para Lisboa. É que tínhamos filmado a manifestação sem termos autorização para tal. Deus é grande!...

terça-feira, janeiro 17, 2006

Segregação Racial

Ontem foi “Dia de Martin Luther King”, efeméride que só se comemora nos EUA, segundo creio. A comemoração é pretexto para algumas encenações políticas, com pouco significado real.
Bush encontrou-se com o Reverendo Jesse Jackson, um político negro que se apoia na igreja que dirige para fazer ouvir a sua voz e alcançar os interesses que defende. As cerimónias decorreram em Nova Iorque, os discursos foram politicamente correctos, mas a realidade está muito longe de ser satisfatória quanto à concretização do “sonho” de que Martin Luther King falava.

Um relatório da Universidade de Harvard revelou que a segregação racial aumentou, nos EUA, desde a década de 90 até hoje. Esse relatório, tornado público ao mesmo tempo que se realizavam as comemorações, diz que o racismo nos EUA, em vários aspectos, regressou aos níveis de 1968, ano em que Martin Luther King foi assassinado. "The national segregation levels are back at levels of the late 1960s," disse o Professor Gary Orfield, co-autor do relatório. "We have lost almost all the progress that came from desegregating our urban communities", acrescentou o académico.
Este estudo revela que a segregação já não é, apenas, entre brancos e negros, mas que atinge outras minorias étnicas, como os latinos ou os orientais.

Em 1996, o Director-Geral da SIC, Emídio Rangel, foi convidado pelo governo americano para participar num seminário sobre segurança e direitos humanos nos EUA. Rangel tinha mais que fazer e deu-me a viagem. Na altura, apresentava e coordenava o “Casos de Polícia”, pelo que, digamos assim, seria o jornalista mais especializado na matéria da redacção da SIC.
O seminário decorreu em várias cidades: Washington, Atlanta e Porto Rico. Nos vários locais, tínhamos oportunidade de visitar um conjunto enorme de instituições à escolha. Escolhi tribunais, cadeias e escolas. E vi, com espanto, escolas só de negros, onde se ensinava às crianças a “história negra dos EUA”, onde nos corredores só se exibiam posters e fotos dos “heróis negros”, entre os quais, claro, Martin Luther King. As crianças negras e brancas dos EUA não têm o mesmo curriculum escolar, aprendem realidades diferentes. Acho isso muito estranho. Nas cadeias, vi populações prisionais onde 70% eram negros, apesar dos negros não serem mais de 25% da população. Nos tribunais de polícia, onde os casos são sumariamente julgados, as filas de arguidos eram quase só de negros…

Mauritânia, 1985 - para além da reportagem (1)

A Mauritânia é, hoje, governada pelo coronel Ely Uld Mohammed Vall que tomou o poder, há pouco tempo, através de um golpe de estado que derrubou do cadeirão Maaouyia Uld Taya.
Quando por lá andei, Taya tinha acabado de derrubar o antecessor, de modo que, desde 1984, pouco mudou no “país dos homens azuis”.
A história que vou aqui contar nunca foi “oficialmente” conhecida na RTP. Na época, a inexistência de comunicações telefónicas via satélite levava a que, por vezes, estivéssemos semanas incomunicáveis. Em Lisboa, ninguém estranhava, por isso, que uma equipa de reportagem não desse sinais de vida durante muitos dias. De modo que deu tempo para nos metermos na “enrascada” e para nos “desenrascarmos” sem necessidade de pedir ajuda “ao papá e à mamã”. Cheguei à Mauritânia por mero acaso. Foi um acto de pura inconsciência, digamos. Eu e um grupo de “gloriosos malucos” constituído por António Hipólito (camera-man), José Morujo (assistente de camera) e o António Gaspar (operador de som), tínhamos saído de Lisboa a bordo de um barco da pesca longínqua. Íamos fazer um documentário sobre essa duríssima faina da pesca em alto mar. O documentário intitulou-se “O Cabo dos Trabalhos” e foi para o ar integrado na série “Linhas de Pesca”, na RTP-1.
Era uma viagem demasiado longa, quase três meses no mar. A zona de pesca era ao largo da Mauritânia. Filmámos a bordo durante umas semanas até que cheguei à conclusão de que o trabalho estava feito. E tínhamos ainda, pela frente, mais de um mês de mar…
A impaciência deu-me para ir “pedir boleia”, através do rádio do barco… às tantas, entrou um português na conversa, capitão de um outro navio de pesca, que trabalhava para uma empresa mauritana. Ofereceu-se para nos levar para terra, já que navegava por perto e estava já a caminho de Nouadhibou, o seu porto de abrigo. Aceitámos com entusiasmo. Mas esquecemo-nos que não tínhamos visto para entrar no país, esquecemo-nos que Nouadhibou estava perto da fronteira com o Sahara Espanhol, esquecemo-nos que havia uma guerra no Sahara Espanhol em que a Mauritânia participava e esquecemo-nos que tinha havido um golpe de estado no país, recentemente.
O outro navio veio ter com o nosso, mudámo-nos de armas e bagagens para o novo barco, combinámos com o nosso comandante que voltaríamos a embarcar quando ele tivesse de ir a Nouadhibou declarar a tonelagem do pescado capturado. E lá fomos de “boleia”. Chegámos 24 horas depois e, assim que pusemos pé em terra, fomos presos.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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