Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











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sexta-feira, maio 01, 2009

Olhar para Sul

Quando falamos de democracia, raramente pensamos em regimes implantados em África, mas as coisas estão a mudar, devagarinho… e convém ir olhando para lá e percebermos as mudanças.
Na semana passada houve eleições na República da África do Sul. É verdade que venceu o grupo político do costume, mas não da forma do costume, digamos assim.
Vejamos. Votaram 77% dos eleitores, uma percentagem que podemos considerar normal. Venceu o ANC, o que acontece desde que o apartheid foi desmantelado, com um resultado de 65,9%, uma maioria absoluta, mas longe da maioria qualificada que lhe permitiria alterar a constituição do país sem passar cartão às outras formações políticas, como dizem que seria a vontade de uma parte dos grupos que integram o ANC. O partido foi formado por uma coligação de comunistas, grupos sindicais e esquerda liberal defensora do mercado livre. É nessa amálgama que o ANC vive e vai governar o país, mais uma vez. A liderar o ANC e, portanto, a liderar o país, teremos Jacob Zuma, um histórico aureolado por inúmeras suspeitas de corrupção e, até, de violação, mas nunca condenado por esses actos que alegadamente praticou.
Na oposição, o ANC vai ter a Democratic Alliance (16,66% dos votos), o partido que congrega a simpatia da maioria da população branca do país, nomeadamente da comunidade portuguesa. Também ali, esta aliança democrática é um partido de direita. Venceram na província do Cabo, a única região do país onde o ANC não obteve a maioria dos votos.
Com 7,42%, o Congresso do Povo. Com 4,56% (apenas 800 mil votos) o Inkhata, um grupo outrora todo-poderoso com o qual Nelson Mandela, nos idos de 90, teve de negociar cuidadosamente para evitar uma guerra civil de consequências certamente devastadoras. O fracasso do Inkhata é uma boa notícia, porque significa que a política sul africana está a ficar livre do estigma tribal. O Inkhata é um partido de base tribal e se, agora, a maioria dos Zulus decidiu votar num dos outros partidos, talvez até no ANC, isso quer dizer que a democracia teve uma vitória e isso talvez seja o que de mais importante saiu destas eleições.

Resta ver como vai ser a performance de Jacob Zuma. Demagogo e populista, resistiu ao desgaste provocado pelas investigações judiciais e pela má publicidade que isso lhe granjeou nos média do país... e venceu as eleições. Cumpriu um sonho, vamos lá a ver o que faz com ele.

quarta-feira, março 14, 2007

Novo apartheid

Aqui há tempos redescobri umas fotos de Durban. Estive lá em 2000, quando se realizou uma conferência internacional sobre SIDA. Foi uma experiência muito gratificante, até porque tive oportunidade de ouvir falar Nelson Mandela, de facto, um homem diferente.


Mas esses dias que passei na África do Sul deram, ainda, para perceber alguma coisa do que se estava a passar no país. Depois do apartheid ter sido desmantelado, seria lógico que começasse a surgir uma elite social negra. E isso era visível, por todo o lado. Nas auto-estradas, já se notavam muitos carrões de último modelo, daquelas marcas do costume: BMW, Mercedes, Audi, Nissan, etc. Nas ruas, os enfatados. Nas zonas comerciais, muito movimento. Os motoristas de táxi, no aeroporto, era quase todos brancos. No centro da cidade, também vi pedintes brancos. E vi vários brancos com cartazes pendurados no peito e nas costas a pedir emprego. A pobreza e as dificuldades não cabiam já só aos negros, como dantes.
downtown
Percebi, também, em conversas com quem lá vive, que o novo regime sul-africano decretou aquilo a que chamam “”política de acção afirmativa”, que mais não é senão uma discriminação exercida sobre os brancos, de modo a favorecerem os negros na obtenção de empregos ou nomeação para cargos directivos. Uma lei que pretende equilibrar as injustiças do passado, reservando cargos a todos os níveis das empresas públicas e privadas para a população não-branca. A legislação estabelece que, perante várias candidaturas a determinado lugar, os não-brancos têm sempre preferência na admissão, a não ser que os candidatos brancos possuam maiores habilitações técnico-profissionais, ou que para determinada posição não exista qualquer candidato não-branco com habilitações semelhantes ao do concorrente branco. A aplicação prática da lei tem gerado uma insatisfação crescente entre os brancos, que na prática são impedidos de concorrer a lugares de nível médio e superior nas empresas, uma vez que mesmo em casos em que possuem mais habilitações, acabam por ser preteridos.
Contou-me um jornalista português que vive em Joanesburgo que uma prima tinha concorrido para uma vaga num banco e que lhe tinham dito, logo à partida, que não valia a pena inscrever-se porque nenhum branco ia ficar com aquela vaga, por mais qualificado que fosse.
Pelo que sei, nada mudou, desde então. A tal “política de acção afirmativa” continua a ser exercida e não se sabe quando deixará de haver discriminação contra os brancos na África do Sul.
porto de Durban
Julgo que seria tempo disso acabar. Acho que o país só poderá piorar se essa discriminação não for abolida. Digamos que, sem querer pegar nos chavões do costume (a economia, o politicamente correcto, os Direitos Humanos), acho que é um péssimo exemplo educacional para as novas gerações de sul-africanos. Se, dantes, o apartheid era um regime abjecto, não me parece que, hoje, as coisas caminhem de forma muito diferente. Os sul-africanos estão a formar novas gerações de racistas. Tanto negros como brancos.

terça-feira, julho 18, 2006

Mandela

Nelson Mandela faz hoje 88 anos. Nunca conheci pessoalmente este “mais velho”, mas tive o privilégio de ter assistido ao vivo a uma palestra dele e, assim, ter recebido uma lição de cidadania, de respeito pelos outros e de genuíno interesse pelo bem-estar da Humanidade.Foi em Durban, precisamente em Julho de 2000, no último dia da XIII Conferência Internacional sobre Sida. Mandela foi ali, para dizer ao Mundo quanto o envergonhava a “postura negocial” das multinacionais farmacêuticas que não estavam dispostas a libertar as patentes de fabrico dos medicamentos essenciais para a luta contra a pandemia e, talvez mais ainda, quanto o envergonhava a actuação do governo sul-africano e do seu líder, afinal de contas o homem que lhe sucedeu na chefia do estado, Thabo Mbeki.
Mbeki ainda hoje recusa-se a deixar que a pandemia, na África do Sul, seja tratada com medicamentos anti-retrovirais e parece acreditar que se trata de uma doença curável e provocada por interesses financeiros das multinacionais farmacêuticas. Ele parece acreditar nessa cabala e, com isso, tem deixado morrer milhares de homens, mulheres e crianças contaminados pelo vírus.
Por isso, ver e ouvir Mandela, ali, nestas circunstâncias, foi um momento tão precioso. Não só pelas palavras de solidariedade, não só pela compreensão e humanidade reveladas, mas pela coragem política de ter dito que tanto as multinacionais como Mbeki estavam enganados e que era preciso que o Mundo tudo fizesse para os convencer. E que ele iria ajudar…

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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