Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











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quarta-feira, dezembro 02, 2009

A banalização do mal


Para quem aqui vem, não é novidade. Já escrevi, mais do que uma vez, sobre a inqualificável atitude da Media Capital Rádio ao despedir um trabalhador de baixa, doente com um cancro. O que fizeram ao Pedro Múrias é de uma crueldade absoluta. Evidencia a completa e total desprotecção que os trabalhadores sofrem às mãos de empregadores sem alma nem coração.
Despedido, doente, mas ainda combativo, o Pedro Múrias publicou no seu blog uma pequena entrevista com o advogado Garcia Pereira, especialista em Direito do Trabalho.
Diz Garcia Pereira que ...“vivemos outros tempos. Os Tribunais agora até já entendem que nem uma crise cardíaca gravíssima nem sequer a morte do Advogado constituído por um determinado cidadão faz suspender a instância do respectivo processo, já praticamente tudo é possível. Ou seja, temos julgadores ao mesmo nível dos empregadores que actuam como o seu!Agora, e como é óbvio, seja qual for a solução jurídico-formal que se perfilhe, promover o despedimento de alguém que se encontra doente, e sobretudo gravemente doente, constitui um acto inqualificável que em qualquer sociedade minimamente civilizada deveria suscitar a crítica e o repúdio unânimes.”
É o que diz Garcia Pereira, é o que eu penso, também. E lamento não ver nada disto reproduzido nos canais jornalísticos de referência, televisões, rádios ou jornais.

segunda-feira, outubro 26, 2009

Vozes de burro não chegam ao CEO

Há uns meses, a Prisa anunciou ao Mundo a intenção de despedir uns milhares de trabalhadores. Os espanhóis andaram a comprar tudo o que mexia, amontoaram uma dívida bancária maluca e, agora, não aguentam com o juro…
Entre os milhares que vão ser despedidos, alguns são portugueses e, entre esses, um é um doente com cancro. Alguém que quando se preparava para lutar pela vida se vê na contingência de ter de lutar, também , pela subsistência…
Nem conheço o Pedro Murias. Pela foto, é um rapaz da minha idade. Deve ser um jornalista experiente, alguém capaz de enquadrar os mais jovens, de lhes transmitir conhecimentos vivenciados, de funcionar como filtro de qualidade numa redacção. Se a Media Capital acha que não precisa desse tipo de jornalistas, pior para a empresa. Mas não pode fazer tábua rasa de tudo o mais… e só a ideia de um doente poder ser despedido é algo de insuportável.
Não sei se Juan Luís Cebrian, o CEO da Prisa, sabe do que se está a passar. A ordem de despedir foi dele, por certo. Mas a escolha foi feita aqui, pelos gestores locais. Pode ser que para o senhor Cebrian também seja insuportável a intenção de despedir um doente cancerígeno. Na dúvida, enviei-lhe um email. Façam o mesmo. Para aqui: ceo@prisa.es

Vozes de burro não chegam ao céu, eu sei, mas pode ser que este CEO não seja assim tão castigador.

sábado, outubro 24, 2009

Pesos na consciência



O despedimento do jornalista Pedro Murias, trabalhador da Media Capital, tem provocado uma onda de indignação. O Pedro tem um cancro e os próximos tempos não serão fáceis. Sem emprego serão ainda mais difíceis, porque o dinheiro realmente faz falta, principalmente quando se avizinham contas gordas nos médicos e nas farmácias.
Além do mais trata-se de uma crueldade sem nome e isso diz tudo sobre os mandões que decidem incluir um doente com cancro no rol do despedimento colectivo. Essa gente não sabe esperar…
Esta história trouxe-me à memória uma outra, algo similar… passada na redacção da SIC a meio da década de 90, com o jornalista Celestino Amaral. Durante anos a fio, o Celestino foi um daqueles assalariados sem regalias. Passava recibos verdes regularmente, como se fosse um trabalhador eventual, mas cumpria horário como qualquer outro do Expresso. Um dia foi parar à SIC e pouco tempo depois adoeceu. Só a pedido do Emídio Rangel o Celestino foi integrado nos quadros da SIC, mas a doença galopante mal lhe deu tempo para gozar as regalias inerentes, excepto a da baixa médica. Essa, o Celestino gozou ainda durante uns meses.

Também a Media Capital, embora mantendo o despedimento colectivo, veio agora oferecer ao Pedro um seguro de saúde, para amenizar os problemas financeiros que se adivinham. Mas o despedido não lhes vai retirar o peso da consciência e a oferta foi recusada.

quinta-feira, outubro 15, 2009

Mas que gente horrível...

Hoje, através do Facebook, tomei conhecimento de uma situação inqualificável. Já não bastava que a Media Capital Rádios esteja a despedir pessoal, por razões de mera racionalização de meios. Ou seja, aos investidores não interessa manter o nível da despesa, não é que eles estejam a passar fome ou com problemas financeiros… não. Apenas lhes interessa manter o nível dos proventos e, portanto, quando se torna difícil ganhar mercado, a solução é despedir. Os despedidos que se amanhem. Mas a questão é que a Media Capital não se inibe de despedir mesmo aqueles que mais precisam de ter meios para combater uma doença… e isso já não é só insensibilidade social, é crueldade pura.
No Facebook, na página de Pedro Murias, estava esta mensagem deixada pelo próprio: “Hoje fui notificado pela Media Capital Rádios que estou numa lista para um despedimento colectivo. Adivinho que não sou caso único. Acredito que por esse país fora se aponta a porta da rua a quem está nestas lutas pela vida!”
Pedro Murias tem um cancro.

domingo, junho 21, 2009

Espreitar o futuro

Um blogue sem caixa de comentários é um blogue amputado. Por muito que nos custe (refiro-me aos que escrevem nos seus próprios blogues) aturar alguns chatos que por aqui aparecem, a caixa de comentários é a ponte do blogue com o resto do Mundo e é um palco privilegiado para a troca de ideias, para a discussão. Vem isto a propósito de um texto publicado no Novo Mundo e que eu gostaria de ter tido oportunidade de comentar publicamente, até para ter reacções ao meu próprio comentário.
Bom, a Isabela fala sobre o futuro dos jornais, se as edições impressas vão morrer e ser ou não substituídas por versões on line. Diz ela que não se imagina a ler o seu jornal favorito num ecrã de computador... pois eu já só leio jornais no computador e acredito que dentro de alguns anos teremos alguns novos meios de comunicação bem mais populares que os tradicionais.
De acordo com dados do Netscope, o número de visitas aos principais sites noticiosos portugueses aumentou 15 por cento nos primeiros meses de 2009, quando comparado com o período homólogo do ano passado. Os sites noticiosos mais visitados este ano foram A Bola, o Record, O Jogo, o PÚBLICO, Sapo Notícias, Correio da Manhã e o Jornal de Notícias.
Na média dos cinco primeiros meses deste ano, o PÚBLICO lidera entre os jornais generalistas, atingindo pouco mais do que cinco milhões de visitas por mês, um crescimento de 17 por cento face ao ano passado. Já no ranking relativo a Maio de 2009, o PÚBLICO ocupa também a primeira posição no segmento dos generalistas, com 5,3 milhões de visitas. Falamos do Público, um jornal que não consegue vender de modo a tornar-se um verdadeiro negócio para o seu proprietário e que só ainda não fechou porque Belmiro de Azevedo não quis.
De resto, alguns dos grandes patrões do sector acreditam que essa mudança é impossível de conter. Há dias, li uma notícia que dava conta de que Rupert Murdoch vê num futuro próximo o fim da maioria das edições em papel e a transformação dos jornais em produtos analógicos, com actualização constante de notícias. Não haverá volta a dar-lhe, é uma questão geracional, os jovens já não compram jornais mas lêem no computador, no notebook, no iPhone.
Esta revolução já está em marcha. Já há exemplos, como nos EUA e na Finlândia, por exemplo, de jornais que abandonaram o papel para se dedicarem em exclusivo à internet.
Em Portugal, essa mudança ainda não aconteceu, ainda nenhum jornal se atreveu a abandonar o papel, mas todos os principais órgãos de comunicação social têm uma versão net, quer sejam jornais, revistas, rádios ou canais de televisão. E não se limitam a difundir texto, mesmo os jornais e as rádios incluem notícias vídeo nos seus sites, o que revela o formato futuro dos órgãos de comunicação social, que deixarão de se diferenciar em imprensa escrita, rádio ou tv, para serem todos tudo isso ao mesmo tempo.
Alguns jornalistas portugueses mais empreendedores, julgo que empurrados pelo desemprego e a falta de perspectiva de voltarem a ser assalariados, já estão a ensaiar os seus próprios sites noticiosos. Chamo a atenção para o Jornal do Pau, o Diário2.com ou, se quiserem ver uma coisa estrangeira, a Current TV americana. Espreitem… é o futuro.

domingo, maio 31, 2009

Meninos de rua


É meia-hora de pura magia, como só na rádio feita pelo Fernando Alves…
Vozes de velhotes, memórias de criança. Histórias de velhos meninos de rua, dos seus brinquedos e fantasias. Os arcos, as fisgas, o jogo do lenço, os berlindes, o ringue (“era um jogo que gostávamos muito porque jogávamos com as raparigas”), o pião, a bola, as corridas de carica no lancil do passeio, “como não haviam os brinquedos que há hoje” diz um deles. Era um tempo em que o horizonte não tinha janelas tecnológicas e “brincávamos com a nossa própria imaginação”. Um reviver fabuloso de risos e sorrisos, de liberdade, de esperança que morreu entretanto:
- Eu ia aos ninhos, aos melros.
- Nós nem sabíamos como os ricos brincavam.
- Não tinha 10 tostões para o eléctrico.
- Eu não ia para a rua, que as raparigas eram malcriadas e a minha mãe não deixava.
- Eu adorava ter sido marinheiro.
Brinca enquanto souberes, diz a voz do Fernando Alves, repetindo o ensinamento que colheu ao fazer esta reportagem.
Vou brincar, então. Vou Tirar o carrinho de rolamentos do sótão, chamar o “Naice” que está ali à espera de rabo a abanar, vou levar os abafadores na algibeira. Vou voltar aquele tempo, quando a rua era para brincar.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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