Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











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terça-feira, janeiro 20, 2009

American Dream


A marcha iniciada em 1964 por Martin Luther King, só agora terminou, com a vitória de Barack Obama nas eleições presidenciais norte-americanas. Mas, este facto notável, não deve ser encarado como a vitória de um negro sobre os brancos. Primeiro, porque Obama foi eleito por uma maioria de eleitores brancos. Segundo, porque o novo presidente dos Estados Unidos é tão negro como branco e é até estúpido reduzir Obama a uma única esfera étnica. Terceiro, porque o que é bonito é pensar que o que esta eleição traz de novo é, precisamente, o abandono do preconceito racial.
Pessoalmente, alegra-me o facto do novo presidente dos Estados Unidos da América ser um tipo que se chama Barack Obama, mestiço de pai negro e mãe branca. Olho para os meus filhos e acredito que, para eles, se abriu uma nova janela de oportunidades.
Dito isto, acrescento apenas que Obama tem muito para provar, a partir de hoje, dia da tomada de posse. Como vai ele resolver a questão da retirada das tropas do Iraque? Como vai ele orientar as relações com a Rússia? Como vai ele influenciar a questão palestiniana? Como vai ele resolver o descalabro financeiro em que os EUA estão metidos? Como vai ele fechar a prisão de Guantanamo? Cá estaremos para ver do que será capaz, embora não devamos esperar milagres. Não é por Obama ter sido eleito que muda o regime político dos Estados Unidos.

quarta-feira, outubro 04, 2006

Pão quente

Já escrevi sobre Renato Kizito aqui e, também, sobre Nairobi. Mas o velho missionário tem uma obra vasta. Hoje, vou falar-vos do Kivuli Center, um abrigo para crianças de rua. É lá onde Kizito mora, num quarto com vista sobre o pátio onde os miúdos brincam no intervalo das aulas. Dezenas de crianças encontram ali uma casa. Não encontram uma família… embora Kizito seja pai e mãe daquela malta.

Renato kizito

Os miúdos têm roupa decente para vestir, têm educação escolar e religiosa, alguns ainda têm a sorte de aprender uma profissão às custas de patrocínios que Kizito procura obter incessantemente. A falta de dinheiro é a maior aflição do missionário. Dar de comer a dezenas de rapazes, vesti-los e calçá-los, manter o edifício de pé e com um mínimo de goteiras possível, custa uma fortuna.


Um dia, Kizito teve uma ideia brilhante. Engatou um amigo de infância, padeiro de profissão, a ir passar uns meses a Nairobi. Já reformado, tempo não faltava ao velho padeiro. Kizito teve o cuidado de o prevenir sobre as condições em Riruta, o bairro degradado onde vive. Mas o amigo foi.
O padeiro italiano ensinou os miúdos mais velhos a fazer pão. Belos cacetes de pão italiano que passaram a ser vendidos à porta do Centro, na rua enlameada. O negócio foi um sucesso. O problema, então, passou a ser como garantir os fornecimentos de farinha e fermento, de modo a não falhar na produção.


Agora, já sabem. Se forem a Nairobi e se vos apetecer pão quentinho e estaladiço, têm de ir a Riruta, um dos imensos bairros de lata de Nairobi. Os carros dificilmente entram nas ruelas do bairro, mas não há que enganar. Terão de caminhar e… seguir o cheiro a pão fresco. Garanto-vos que será uma experiência e tanto.

quarta-feira, agosto 09, 2006

Quénia, Malindi. Podia ter ficado tudo por ali...

Não sei se é por estar quase, quase, quase a ir de férias que a praia de Malindi não me sai da cabeça. Não sei se é por isso ou se é por ter escrito sobre Mombaça
Ao terceiro dia alugámos um carro e partimos rumo ao norte, pela costa. Não nos interessava nada voltar para de onde tínhamos vindo, mas queria muito ir até Malindi.
Queria ver, e vi, o padrão que Vasco da Gama ali deixou, em pleno areal. Lá está, enfim, pelo menos a parte superior do padrão é a original. O pedestal já tem cimento do século XX e pichagens modernaças também.
Além do padrão, em Malindi existe outro local arqueológico que nos diz respeito: a igreja de São Francisco de Xavier. Em boa verdade, uma palhota, embora com paredes de pedra, claro. Foi a primeira igreja erguida na costa oriental de África. Achei muito curioso o pequeno cemitério existente ao lado da pequena igreja. Sou um sentimentalão, como já repararam… Agora, Malindi é a prova de que há homens que colocam o dever e a busca da riqueza acima de tudo. É que Malindi é o paraíso… Dom Vasco tinha ali tudo o que um homem poderia querer. O rei local recebeu-o de braços abertos e, de resto, foi aliado dos portugueses durante quase um século. Dom Vasco, representante do rei de Portugal, homem poderoso, em Malindi deve ter saciado todas as fomes que o inquietavam (menos a tal ânsia pelo poder) e, ainda assim, foi capaz de abandonar aquele paraíso… Dom Carlos teria ficado, disso tenho a certeza.

sábado, agosto 05, 2006

Mombaça. A Disneylandia do séc.XVI

Em Mombaça ficámos por nossa conta e risco. Os tripulantes russos disseram-nos bye-bye com as mãos e foram à vida deles.
Mombaça é uma ilha pequena, no meio de uma baía e fica bastante próximo da costa. No terraço do hotel, havia um bar no meio da piscina, onde se bebiam os melhores gin tonic da costa oriental de África. Era época baixa e o hotel estava quase vazio, o que ajudou muito a tornar inesquecível a estadia em Mombaça. Decidimos, eu e o Domingos Mascarenhas, ficar ali uma semanita para retemperar o ânimo. Depois de Mogadíscio, Mombaça era o paraíso.
Logo no segundo dia, fomos dar uma volta pela cidade. Mombaça cheira a sal, quando o vento vem do mar. Na zona velha, no centro, há outros cheiros mais persistentes: caril, canela, baunilha…




















E depois há o Forte Jesus, um castelo seiscentista português. Tem a particularidade de ter sido construído com coral da baía de Mombaça. Os portugueses só sabiam construir em pedra e não havendo pedra em terra, foram ao mar buscá-la… a baía era rica em coral rosa, de modo que o Forte Jesus tem muralhas cor-de-rosa. Peculiar…
Mas é a única coisa cor-de-rosa que o castelo tem. Tudo o resto faz lembrar guerras e morte. Os quenianos, que tão bem conservam o castelo, vão ao pormenor de venderem um pequeno livro com a história do local. Um pequeno livro cheio de 200 anos de guerras, morte e escravidão, afinal de contas os ingredientes da História.

“The Portuguese showed up in 1505 and took the town. The fighting took the lives of 1513 Mombasa defenders and 5 Portuguese attackers. After looting Mombasa and setting it on fire, they left and did not return for 15 years. The Portuguese looted the town again in 1528 and twice more in the 1580s. Two years after the last attack, Mombasa went on the offensive and attempted to conquer Malindi. The Mombasa attackers were massacred and the town fell shortly thereafter in a counterattack by Malindi, which turned Mombasa over to the Portuguese. The Portuguese began construction on Fort Jesus, which was finished in 1593”.











As muralhas cor-de-rosa foram assaltadas e bombardeadas durante 200 anos, quase ininterruptamente. O Forte Jesus mudou de mãos nove vezes, na disputa entre portugueses e os árabes de Oman que dominavam aquela zona da costa africana.
Os portugueses foram derrotados definitivamente em 1729.
É interessante perceber como os outros sentem a mesma História. Mesmo se não ficamos muito bem no retrato.

sábado, janeiro 28, 2006

Nanyuki, o bichano na soleira da porta

Nanyuki é uma aldeia no Norte do Quénia. O que mais distingue esta localidade de outras, no Quénia, é que fica mesmo na linha do Equador. É um dos pretextos usados para levar turistas até lá. Por isso, tem várias estalagens implantadas em reservas de caça, locais propícios para quem gosta de contemplar natureza selvagem. Para além da aldeia indígena há, em Nanyuki, um “bairro” de milionários brancos que chegam e saem de helicóptero e que, normalmente, usam aquelas casas para fins-de-semana prolongados. Há uma dessas casas que é residência permanente de um suíço alemão, fotógrafo especializado na natureza selvagem, radicado no Quénia já há muitos anos: Karl Ammann.
Fui hóspede dele várias vezes. E, antes de me habituar às peculiaridades de Ammann e da sua casa, apanhei alguns sustos…
Na realidade são duas casas. Uma onde ele vive, a outra onde recebe os hóspedes. Ficam, as duas, numa encosta arborizada, perto de um rio onde, ao entardecer, vão beber zebras, búfalos e girafas. De uma casa para a outra há um caminho de pedra. Uma noite, depois do jantar, recolhia aos aposentos, saltitando de pedra em pedra, quando vi, deitada na soleira da porta, uma chita. À luz da lanterna, os olhinhos do bicho brilhavam ameaçadores… fiquei pregado ao chão, a uma distância razoável. Se me voltasse, temia ser atacado pelas costas. Se me mexesse, temia provocar alguma reacção ao animal… aquilo durou bem mais de 5 minutos. Depois, a chita espreguiçou-se, levantou-se e, calmamente, saiu dali, sem sequer passar por perto. Corri para casa, tranquei a porta e verifiquei todas as janelas. Com o coração aos saltos, custou-me a adormecer. Na manhã seguinte, Karl achou muita piada à história… a chita é quase animal de estimação da casa. Cresceu ali, desde bebé. Embora selvagem, é mais mansa que um gato, jurou. Tinha-se esquecido de me avisar…

sábado, dezembro 31, 2005

Kawangware

Em 1992… Kawangware era, ainda hoje é, um dos maiores bairros da lata de Nairobi. Além de ser um lamaçal de pobreza, Kawangware era, ainda hoje é, porto de abrigo para milhares de refugiados moçambicanos.
O êxodo do povo moçambicano começou na década de 60. Começaram por fugir do jugo colonial, das perseguições políticas, das matanças. Fugiram pelo Norte, pela fronteira com a Tanzânia. Atravessaram esse país e acabaram nos arredores da capital queniana.
A segunda vaga de refugiados aconteceu durante a longa guerra civil que se seguiu à independência. Seguiram o rasto dos primeiros refugiados e, todos juntos, constituíam uma enorme comunidade de estrangeiros ilegalizados e sem direitos de cidadania. Viviam com o medo diário da prepotência da polícia e dos patrões que os exploravam. A maioria desses moçambicanos trabalhava a troco de um prato de arroz no final do dia. Eram escravos, de facto. Não tinham documentação, nem autorização de residência, nem direito a um contrato de trabalho. Moravam em barracas de lata e cartão.
Ninguém os ajudava, à excepção de dois missionário combonianos, portugueses. A tarefa de Gentil e Lino era a de ajudar a realizar projectos de implantação de pequenas empresas artesanais, negócios familiares, qualquer coisa que ajudasse mais alguém a ter um modo de vida digno.

Lembro-me de ter estado na carpintaria de Tobias Kubarria, no atelier onde Agapito Simba esculpia estatuetas, lembro-me de ouvir a história de Carlos Cassambo… 20 anos a pedir esmola nas ruas de Nairobi, lembro-me de ter visto a habilidade de Albertina Cicanda na arte de trançar os cabelos das clientes do seu cabeleireiro. Aquela era uma grande obra: ajudar a erguer sonhos do lamaçal de Kawangware.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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