Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











domingo, março 08, 2009

Barreiras de Vidro


Tenho saudades das feministas. Hoje, já não há mulheres que se reclamem desse estatuto… quase como se o termo fosse blasfemo ou politicamente incorrecto. Tenho saudades do women lib. Em Portugal, a libertação feminista só se deu depois do 25 de Abril e teve consequências sísmicas na sociedade. Não me queixo, porque sempre me dei bem em ambientes caóticos e, à conta da libertação sexual das mulheres também fiz a minha própria iniciação.

É verdade que muito mudou, desde 1974... Mas acho prematuro o abandono da ideologia, como se os problemas das mulheres não persistam hoje. O pleno direito ao aborto, a violência doméstica, as desigualdades salariais, a equidade no acesso ao trabalho, continuam a ser problemas em boa parte por resolver a contento. A minha mulher, por exemplo, já foi recusada em várias empresas que procuravam profissionais da área dela, com o pretexto de que iria faltar muito pelo facto de ser mãe de duas crianças.
Sob muitas formas, a discriminação persiste. Pouco importam as bem intencionadas leis existentes, se o comportamento social as ignora. Trata-se de um fenómeno que em inglês é conhecido por “glass ceiling” – tecto de vidro – uma barreira que impede a progressão profissional ou o exercício de direitos de cidadania a determinados grupos sociais. Este “glass ceiling”, por ser dissimulado, não se vê mas existe. Pode ter motivações sexistas, racistas, ou outras.
As feministas de há 30 anos acham que está tudo bem, que podem descansar da luta? Estão enganadas.

6 comentários:

CCF disse...

Absolutamente de acordo! :)
~CC~

andrea disse...

Oh pah nem eu diria melhor.

Abraços.

Andreiovsky disse...

Isso da luta é uma constante (sem esquecer o que já está adquirido) mas as feministas de há trinta anos têm hoje 50 e estão com um pé na reforma e com um olhar mais realista para problemas comportamentais que c a n s a m e que repetidamente nos lembram que a maioria das pessoas vive adormecida ou pelo menos assim o finge. Finge tão bem que quase não sente o fingir.

O Dia em si faz-me confusão quando me lembro que todos os dias são para respeitar, não é?

Isabela disse...

As feministas de há 30 anos não estão a descansar. Estão todas aí. Conheço-as todas. Tu esqueces-te é que se tornou uma vergonha dizer publicamente que se é feminista, e em parte por culpa das mulhereres que estão na geração dos 20 e 30, que não fazem a menor ideia do que foi preciso lutar para se chegar onde chegou e que confundem liberdade sexual com sexo por catálogo. Ser feminista está social e politicamente outdated. Quando encontro uma jovem afirmar que não vale a pena comemorar o dia da mulher porque as mulheres já têm tudo o que querem, tenho, no mínimo, vontade de arrancar as unhas de gel. A luta continua a precisar de se fazer. Olha, eu faço-a todos os dias e boa porrada levo. Tens consciência das discussões que aquele meu blogue tem sempre que eu abordo um assunto remotamente relacionado com questões de mulheres?? Até mete raiva! como é que é possível não se poder dizer livremente que se é feminista sem que se riam na nossa cara. Eu tenho sempre muito com que me entristecer, com que me revoltar profundamente. Desculpa.

ecila disse...

Se me permite vou linkar o texto :)

Andreiovsky disse...

Não acredito que certas pessoas mudem e são essas pessoas que me cansam porque são quase sempre iguais, não há conflito nem mudança, logo não há evolução. Chega a ser mesquinho e sem se aperceberem, porque provavelmente nunca ninguém lhes disse, ficam adormecidas a vida toda.

Claro que não se trata de queimar soutiens e mostrar as mamas, sei quantas arderam para este dia ser comemorado mas não acredito em comemorações, nem no natal, nem no dia da mãe, nem do pai, nem do teatro, nenhum deles. Não os sinto, mas isso não tem nada a ver com a minha falta de reivindicação porque mulher sou eu todos os dias, nos meus dias, menos no carnaval (é a única comemoração em que acredito).

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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