Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











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terça-feira, junho 09, 2009

A bomba, um sorriso




Os atentados bombistas já fazem parte do quotidiano e isso retira-lhes capacidade de se tornarem notícia… é o caso do que se passa no Iraque ou no Afeganistão. Ao fim de tantos anos de conflito já quase não sabemos o que por lá se passa, embora pouco tenha mudado. Mas, volta e meia, lá vem um estilhaço de mais uma bomba cravar-se na alma… Vem isto a propósito do atentado que destruiu o Pearl Continental, o melhor hotel de Peshawar, uma cidade paquistanesa próxima da fronteira com o Afeganistão. Nos dias quentes da invasão americana, o Pearl Continental foi poiso obrigatório para todos quantos andavam por ali em reportagem ou a tentar entrar no Afeganistão. Foi lá que vi pela última vez uma camarada de trabalho que, dias depois, atravessou a fronteira afegã e morreu assassinada por assaltantes na estrada de Jalalabad.
Foi no hall do Pearl Continental que a Maria Grazia me sorriu, naquele dia. Foi esse sorriso que esta bomba me trouxe de novo.

domingo, janeiro 11, 2009

Políticamente muito incorrecto



Quem conhece o Mário Crespo não estranha o efeito daquilo que ele escreve ou diz… o homem escreve com martelo pneumático e fala sem medo (uma raridade…). Quem anda atento ao que se lê nos jornais, também já há-de ter reparado no mesmo que o Mário reparou e que, segundo o Diário de Notícias, motivou uma reacção estranha por parte dos serviços da presidência da república…
Abreviando, para quem não leu o DN de ontem, o Mário Crespo terá dito que “a Presidência recorria a um método "algo preocupante": o uso de fontes anónimas para passar informações falsas para a imprensa (comentário feito a propósito de uma manchete recente do semanário Sol).”
Ora, sentindo-se ofendida, a Presidência da República fez queixa, apresentou o seu protesto, o que é legítimo e normal. Enviou as suas queixas para a direcção de informação da SIC, mas não se deixou ficar por aqui… enviou também a queixinha ao dono do canal…
Ao Diário de Notícias, Mário Crespo disse que estranhava que a Presidência “tenha mandado para o Dr. Balsemão. Não sei o que Nunes Liberato (chefe da Casa Civil do Presidente) pretende com isso. Este é um assunto editorial e não administrativo. Que mande, como mandou, à direcção de informação acho normal. Ao Dr. Balsemão já não acho. E estranho que não me tenha mandado o comunicado a mim."
E eu estranho que não o tenha feito junto da ERC, o organismo do estado que tem a incumbência de zelar pelo cumprimento da Lei no que diz respeito à Comunicação Social.
A única coisa que eu não estranho, volto a dizer, é aquilo que o Mário referiu… ainda aqui há tempos (em 13 de Abril de 2007), escrevi neste blog o seguinte: “Para os mais distraídos ou distantes destas coisas, vou aqui demonstrar como o poder político manipula jornalistas. E não é preciso fazer grande esforço. No passado dia 6, o Diário de Notícias, entre outros jornais, publicava a notícia (sustentada por uma fonte da presidência) de que o Presidente da República, preocupado com as consequências da polémica em torno da licenciatura do Primeiro-Ministro, tinha reunido “discretamente com os seus colaboradores mais próximos para preparar eventuais ondas de choque do caso Universidade Independente”. Leiam aqui.
Horas depois, vários órgãos de comunicação social citavam uma notícia da Lusa, onde se negava que tal reunião se tivesse realizado, segundo “fonte da Presidência da República”, que desmentiu «categoricamente o teor da notícia de hoje publicada pelo Diário de Noticias». Leiam aqui.
Ou seja, duas fontes do mesmo fontanário deram informações díspares. Isto é, a mensagem de Cavaco passou, sem que ele tivesse tido necessidade de abrir a boca. O destinatário recebeu e entendeu o alcance da coisa. E daí a entrevista do Primeiro-Ministro à RTP. Isto é política pura, meus amigos. E não vi nenhum jornalista a denunciar a “fonte” que os levou a fazer este papelão.”
Agora já vi. Boa, Mário, já não me sinto tão só. Espero é que o patrão se porte bem contigo…

sábado, outubro 14, 2006

Reencontro

Nem queria acreditar, quando abri esta mensagem que estava na minha caixa de correio electrónico…

"dear carlos,

just got a link to your blog of a friend of mine from the states. i wanted to say "hallo".how is life, what are you up for these days?

only the best,
wolf"

foto de Wolf Boewig

Lembram-se deste post? Alguém que o leu, algures no Mundo, serviu de ponte para este “reencontro”. Mesmo virtual, não deixa de ser comovente.
Se quiserem conhecer o trabalho deste fotógrafo, o link também vinha na mensagem.

segunda-feira, setembro 25, 2006

O Comboio de Deus

Gosto de ler livros assim: meticulosos, descritivos, verdadeiros. Livros que me levam a ver, realmente, lugares que nunca visitei e a conhecer pessoas com quem nunca estive. O livro que vos mostro aqui é um desses… é um livro de viagens do autor através de quatro países muçulmanos: Indonésia, Irão, Paquistão e Malásia. Muçulmanos mas não árabes. Uma viagem onde descobrimos pessoas concretas, com problemas verdadeiros e sonhos comuns. Sendo que são todos muçulmanos. Ao conhecermos estas pessoas, aprendemos o que eles pensam sobre a vida e, claro, sobre a religião. Beyond Belief não será a obra prima de Naipaul… mas é um livro muito interessante. Não sei se está traduzido em português.

O Pedro Rosa Mendes já me tinha falado naquela viagem de comboio. Julgo que a fez em lua de mel… tinha-me falado com entusiasmo no comboio pachorrento que atravessava as montanhas, desde Quetta até Rawalpindi. 48 horas sem catering… a comida cozinhada em pequenas fogueiras acesas no chão das carruagens… as longas paragens nos apeadeiros no meio de nenhures, os túneis, o serpentear à beira dos precipícios, as seis rezas por dia… tudo isso fez-me apanhar esse comboio também. O Pedro chamou-lhe "o comboio de deus" e eu cheguei a pensar que iria fazer uma reportagem nesse comboio. Mas não fiz. Não me apeteceu.

Fiz boa parte da viagem sentado na borda da carruagem, com as pernas para fora. Foi ali que o tipo me encontrou. Wolf Boewig, franco-alemão, repórter fotográfico. No palavra-puxa-palavra descobrimos que tínhamos um amigo comum. Precisamente o Pedro Rosa Mendes, com quem o Wolf fez vários trabalhos de reportagem, de resto.
Foi nesses longos dois dias que falamos de Naipaul. Eu já tinha lido um outro livro dele, A Curva do Rio, um retrato fabuloso da história recente pós-colonial do Uganda. Umas semanas depois de ter regressado do Paquistão, Wolf enviou-me pelo correio o Beyond Belief, com a desculpa de que tinha dois livros e, portanto, dispensava-me um deles. Dentro do livro, uma fotografia tirada num campo de refugiados birmaneses na Tailândia.

A foto está na parede da sala, o livro na estante. Nunca mais vi o Wolf, mas jamais esquecerei tanta capacidade de partilhar.

quinta-feira, junho 08, 2006

Paquistão, Peshawar, 2001. Hospitalidade

Em Peshawar, uma parte da cidade é ocupada por população afegã. A colónia tem até nome próprio, qualquer coisa que se pronuncia aproximadamente “cafahan coçon”… enfim, um emaranhado de ruelas labirínticas onde os refugiados recriaram um ambiente típico, onde é proibido filmar ou fotografar mulheres e onde a maioria das lojas vendem as famigeradas burkas.Mesmo sem nunca ter entrado no Afeganistão, ali podemos ter uma ideia muito real de como eles vivem. Falei com vários membros daquela comunidade, todos homens, claro. Alguns eram refugiados antigos, do tempo da guerra contra a URSS. Outros, tinham acabado de chegar. Mas a conversa de todos conduzia para a mesma conclusão: os estrangeiros nunca tinham levado nada de bom para o Afeganistão… e, embora seja difícil entender os hábitos medievais daquela gente, acho que eles têm razão nesse capítulo. Ao almoço fomos convidados para nos sentarmos à mesa, em casa de Haji Abdul Jabbar, um tipo que se portava como chefe da comunidade. Aquele almoço foi o modo dele nos explicar a tradição pashtun de receber quem vem por bem e nunca expulsar de casa um visitante amigo. Em última análise, é ao abrigo dessa tradição que Osama Bin Laden ainda hoje está entre eles.

segunda-feira, junho 05, 2006

Paquistão, Peshawar, 2001. Outra Heroína

Dost significa amigo, no idioma pushtun. É o nome de uma organização paquistanesa que tenta contrariar a pobreza extrema e o consumo de ópio e heroína. Recolhe os sem-abrigo, dá-lhes comida, banho e uma hipótese de auxílio médico. É uma gota de água num imenso oceano de miséria e dificuldades, mas a Dost faz o que pode.
A heroína desta história chama-se Parveen Khan. Sim, é uma mulher. Coisa rara no mundo islâmico, ver uma mulher à frente seja do que for, não é? Andei meses à procura de uma fotografia dela, para vos mostrar, mas não encontrei. Mas o que interessa é saber que ela existe e que tem uma obra para mostrar. E interessa, também, saber que precisa de ajuda, como não podia deixar de ser. Quem puder, quem quiser, pode procurar contactá-la através do link que coloquei logo no início deste texto.
A tarefa de Parveen Khan não tem fim. O ópio e a heroína, no Paquistão, são baratíssimos. Uma dose custa menos que uma garrafa de água mineral. Os paquistaneses fumam, injectam e snifam heroína e ópio. Em Peshawar, os drogados são uma multidão dispersa em pequenos grupos pelas ruas da cidade. Reúnem-se à volta de pequenas fogueiras, onde preparam os cachimbos ou o “caldo”.
A polícia raramente actua. Parveen Khan disse-me que há fortes suspeitas da existência de relações próximas entre a polícia, os políticos e os traficantes da droga que, quase toda, vem do Afeganistão.
Naquela altura, em que conheci Parveen Khan, havia problemas de abastecimento nas ruas de Peshawar. Por causa da invasão americana, dos bombardeamentos, as aldeias tinham ficado desertas e os campos de papoilas abandonados. Mas, hoje, tudo voltou ao normal. O trabalho agrícola, a indústria transformadora e a comercialização do produto. Os americanos não mudaram nada.

domingo, junho 04, 2006

Paquistão, Peshawar, 2001. Heroína

A camara estava no chão, o João Duarte de joelhos, debruçado, espreitava pelo view-finder o melhor enquadramento. Depois levantou a cabeça e disse-me: “acho que é a imagem mais forte em toda a minha vida!” Era a imagem de um homem barbudo, ainda jovem, deitado na via pública. O tipo tinha uma barba escura e a pele suja. Estava no meio de um grupo numeroso de consumidores de heroína, numa avenida de Peshawar, uma cidade paquistanesa junto à fronteira com o Afeganistão. E estava morto, também. Só dei por isso quando vi uma coisa mexer-se por entre os pelos da barba, junto à boca. Era uma mosca… e estranhei aquele sono tão profundo. Depois, reparei nos olhos semi-abertos. Na ausência de respiração. Na rigidez corporal. Aquela “viagem” tinha chegado ao fim.

sábado, abril 15, 2006

Paquistão, 2001. Wadud

Wadud é um dos 99 nomes de Deus. Por isso, aquela mesquita chamava-se Wadud. Deve haver milhares de mesquitas Wadud na parte islâmica do Mundo. Aquela mesquita tinha uma escola corânica, uma madrassa. Era a madrassa Jamia Ashrafia. Uma estrutura arruinada, austera. Não havia mobília em nenhuma sala, apenas umas enxergas no chão onde os alunos dormiam. A luz era de velas. As paredes nuas, o chão de pedra.Era até difícil acreditar como, em tempos normais, costumavam estudar ali mais de 400 alunos. Numa madrassa, estudar significa viver. Passar as 24 horas do dia, durante 9 anos. É o tempo dos taliban, palavra que significa estudantes. Nove anos, para decorar o livro sagrado, aprender ética e a respeitar Deus e os mestres. Ao fim de 9 anos, quem terá dúvidas sobre o significado da vida? A madrassa Jamia Ashrafia era dirigida pelo mulana Yousef Qureshi, um velho pançudo que me recebeu refastelado numa chaise long. Conversámos um bocado sobre como o Mundo ia, em 2001. O mulana era um homem com muitas dúvidas. Dizia-me ele, confrontado com uma escola sem alunos, que não sabia para onde tinham eles ido. Se tinham ido combater para o Afeganistão, ou não. Mas que durante a guerra contra os soviéticos, os seus alunos tinham ido combater o comunismo. Sobre Osama Bin Laden, o santo homem não acreditava numa só palavra das acusações que os americanos lançavam sobre Osama. Podia lá ser… “Osama sempre ajudou os pobres e combateu na guerra contra os cruéis”.

quarta-feira, abril 12, 2006

Paquistão, 2001. Kacha Gharai

Kacha Gharai em língua pushtun significa “casas de lama”. Era o nome apropriado para aquele imenso campo de refugiados nos arredores de Peshawar, junto à fronteira com o Afeganistão. Era um quadrado imenso onde cabiam 100 mil pessoas. Um labirinto de casas de adobe, casas baixinhas, ruelas estreitas e esgotos a céu aberto. Tudo cor de lama… ou de merda. A cor confunde-se.
Meti-me lá dentro, com o João Duarte. Eu e o João fizemos algumas coisas muito loucas, durante os anos em que trabalhámos juntos na SIC. A SIC também não o quis… hoje, ele é camera-man da BBC em Moscovo. Fomos devidamente autorizados pela polícia paquistanesa e acompanhados por um oficial que nos guiou pelo dédalo de pistola em punho. Tenho aqui o nome do polícia (no meu bloco de notas…), chama-se Sadullah Khattak e era um homem corajoso. É que entrar em Kacha Garai só para ganhar umas moedas de uns jornalistas estrangeiros é sinónimo de bravura ou de extrema necessidade. Dentro de campo, defrontavam-se etnias inimigas. Aquilo era como um reflexo do que se passava no Afeganistão (só não havia bombardeamentos de B-52). Refugiados tajik combatiam refugiados pushtun. Os tajik tinham fugido dos taliban, os pushtun tinham fugido das bombas americanas. A nossa visita acabou em passo de corrida, sob uma chuva de pedras e a saltar em andamento para o veículo…
Soube agora que Kacha Gharai está, finalmente, a ser demolido. As Nações Unidas têm em marcha um programa de repatriamento dos quase 3 milhões de refugiados afegãos que estão no Paquistão. Gostava de ficar contente com esta notícia, mas acho que Kacha Gharai voltará a ter uso, mais tarde ou mais cedo.

sexta-feira, janeiro 13, 2006

Maria Grazia

Recebi uma newsletter do Sindicato dos Jornalistas, onde se dá conta da preocupação que reina entre jornalistas de todo o Mundo, por causa do que está a acontecer com os jornalistas que estão a trabalhar no Iraque, nomeadamente em Bagdad. Segundo essa newsletter, “Bagdad é um dos locais onde nenhum jornalista pode sair em segurança para a rua, como o provam o assassinato recente de três profissionais da televisão iraquiana no mesmo bairro em que Jill Carroll foi sequestrada e o seu tradutor Allan Enwiyah morto”. Desde o início da guerra, já morreram mais de cem jornalistas no Iraque e muitos ficaram feridos (entre eles, a repórter da SIC, Maria João Ruela).
Este alerta fez-me pensar em Maria Grazia Cutuli, uma jornalista italiana que conheci no Sudão. Cruzamo-nos por uns breves três dias, numa aldeia no sul do Sudão. Ela trabalhava para o jornal Corriere della Sera, de Roma.
Em Outubro de 2001, no hall de um hotel em Peshawar, no Paquistão, estava ao telefone e foi ela quem primeiro me viu e me cumprimentou. Foi um encontro ainda mais rápido que o primeiro. Mas foi um momento alegre. Ela era assim, alegre e enérgica. No dia seguinte viajei para Rawalpindi e ela ficou por ali.
Semanas depois, em Novembro, Maria Grazia Cutuli entrou no Afeganistão e foi morta na estrada de Jalalabad para Kabul, por um bando de assaltantes. Tinha 39 anos. As fotos vieram publicadas em vários jornais italianos, quando se soube do sucedido… Com ela morreram outros três jornalistas de diferentes nacionalidades: Harry Burton, 33 anos, camera-man da Agência Reuters; Azizullah Haidari, 33 anos, afegão, repórter fotográfico da Agência Reuters ; Julio Fuentes, 46 anos, repórter espanhol do jornal El Mundo.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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