Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











segunda-feira, setembro 25, 2006

O Comboio de Deus

Gosto de ler livros assim: meticulosos, descritivos, verdadeiros. Livros que me levam a ver, realmente, lugares que nunca visitei e a conhecer pessoas com quem nunca estive. O livro que vos mostro aqui é um desses… é um livro de viagens do autor através de quatro países muçulmanos: Indonésia, Irão, Paquistão e Malásia. Muçulmanos mas não árabes. Uma viagem onde descobrimos pessoas concretas, com problemas verdadeiros e sonhos comuns. Sendo que são todos muçulmanos. Ao conhecermos estas pessoas, aprendemos o que eles pensam sobre a vida e, claro, sobre a religião. Beyond Belief não será a obra prima de Naipaul… mas é um livro muito interessante. Não sei se está traduzido em português.

O Pedro Rosa Mendes já me tinha falado naquela viagem de comboio. Julgo que a fez em lua de mel… tinha-me falado com entusiasmo no comboio pachorrento que atravessava as montanhas, desde Quetta até Rawalpindi. 48 horas sem catering… a comida cozinhada em pequenas fogueiras acesas no chão das carruagens… as longas paragens nos apeadeiros no meio de nenhures, os túneis, o serpentear à beira dos precipícios, as seis rezas por dia… tudo isso fez-me apanhar esse comboio também. O Pedro chamou-lhe "o comboio de deus" e eu cheguei a pensar que iria fazer uma reportagem nesse comboio. Mas não fiz. Não me apeteceu.

Fiz boa parte da viagem sentado na borda da carruagem, com as pernas para fora. Foi ali que o tipo me encontrou. Wolf Boewig, franco-alemão, repórter fotográfico. No palavra-puxa-palavra descobrimos que tínhamos um amigo comum. Precisamente o Pedro Rosa Mendes, com quem o Wolf fez vários trabalhos de reportagem, de resto.
Foi nesses longos dois dias que falamos de Naipaul. Eu já tinha lido um outro livro dele, A Curva do Rio, um retrato fabuloso da história recente pós-colonial do Uganda. Umas semanas depois de ter regressado do Paquistão, Wolf enviou-me pelo correio o Beyond Belief, com a desculpa de que tinha dois livros e, portanto, dispensava-me um deles. Dentro do livro, uma fotografia tirada num campo de refugiados birmaneses na Tailândia.

A foto está na parede da sala, o livro na estante. Nunca mais vi o Wolf, mas jamais esquecerei tanta capacidade de partilhar.

6 comentários:

VN disse...

Que bonito post! Que viagem extradordinária deve ter sido essa!

Completo a informação: o livro está traduzido para Português com o nome PARA ALÉM DA CRENÇA : DIGRESSÕES ISLÂMICAS ENTRE POVOS CONVERTIDOS e é uma ediçãO da Dom Quixote. Já agora falo também de um outro livro dele AMONG THE BELIEVERS: AN ISLAMIC JOURNEY (deste é que não conheço tradução)escrito alguns anos antes, é também um livro de viagem pela Ásia.
São dois livros muito actuais e essenciais para a compreensaõ do mundo Islamico de que tanto se fala.

-pirata-vermelho- disse...

... o encanto 'inexplicável' das viagens de combóio, não é?

Das muitas sugiro que faça
uma - Bangkok-Singapore
outra - Cusco-Puno


(Não são "para tod'a gente"... ou! não eram; agora se calhar são e perderam graça.)

Barão da Tróia II disse...

Naipul é um excelente escritor. Viajar de comboio é das melhores formas de viajar, lembro com saudade a linha do Tua e a do Alentejo, pena que no nosso país o comboio esteja arredado dos planos dos inteligentes que governam.

Luar disse...

Caro CN, também li A Curva do Rio, que achei um livro estranho, de tons muito difusos... Não conheço África abaixo do paralelo de Marraquexe, mas tenho ouvido histórias, algumas perturbadoras, acerca da integração das comunidades indianas em certas regiões do continente, designadamente em Moçambique.
P.S.: Subscrevo a ideia de que as viagens de comboio têm sempre «um encanto» especial: é o seu romantismo.

Maite disse...

Caro Carlos Narciso

Ao ler esta sua crónica fez-me lembrar que tenho há anos o livro A bend in the river na estante meio lido. Fiquei com vontade de acabar de lê-lo.

Boa noite para si :)

luís miguel disse...

Li os dois. "a curva do rio" e "para além da crença", do brilhante Naipul. o Segundo é essecial para compreender o islão muito para além do que nos é transmitido pela comunicação social.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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