Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











sábado, setembro 02, 2006

Luanda revisitada

…”estava tão habituado que nem notava o cheiro nauseabundo que se evolava do bairro, vindo das fossas a céu aberto que se transformavam em regatos acompanhando os caminhos e do lixo acumulado aos montes à espera de uma hipotética camioneta. As casas de blocos de cimento ou de tijolo, minúsculas, estavam unidas a autênticos tugúrios de chapas e papelão, misturados a todos os materiais possíveis existentes na construção civil para tapar buracos, criar paredes ou inventar tectos. Em todas chovia, evidentemente. Felizmente a chuva era rara em Luanda”…

Pepetela, Predadores, pag.34

Mesmo agora, em tempo de cacimbo, a chuva é rara em Luanda, apesar do céu ameaçador.
Não é tempo de praia e não há festas na cidade. Nem sequer é tempo de férias… as escolas fecham em Dezembro, não agora.
Mas era agora que eu tinha férias e lá fui a Luanda para matar saudades. Do que vi e senti, vou deixar aqui alguns relatos.

A primeira impressão foi de estupefacção… há oito anos que não ia a Angola. Depois da guerra ter terminado começaram a escrever nos jornais que Angola é uma terra de futuro, que a economia está em expansão, que os negócios vão de vento em popa. Assim, ao fim de oito anos, julgava que ia encontrar sinais novos dessa realidade nascente. Mas disso vi muito pouco. Dois ou três prédios altos em construção na Mutamba, a baixa da cidade, um viaduto rodoviário no cruzamento em frente ao aeroporto, outro na Samba, mais um (pedonal) no Prenda. Quase nada, no meio de milhões de barracas.

É em barracas que vivem os funcionários do estado e dos privados, é em barracas que vivem os milhões de desempregados da cidade. Quase todos vivem em barracas, alguns ainda habitam os prédios degradados da cidade colonial, alguns estão a conseguir mudar para as periferias onde já existem vários bairros novos de má construção e péssima planificação.

Bairros onde só existem casas e nenhum serviço de apoio, onde a farmácia mais próxima fica a 20 quilómetros de distância, ou a mercearia, ou a estação de serviço, ou a escola para os filhos. Conheço gente que já mora ali e que tem de sair de casa às cinco da manhã, para estar às oito no emprego, no centro da cidade.

Os engarrafamentos são monstros do lusco-fusco. Ao final do dia, fechados nos carros de portas trancadas e vidros corridos (e com medo dos ladrões) demora-se outras duas horas para atravessar o Rocha Pinto (um dos maiores bairros da lata de Luanda) e chegar à casa suburbana. Aquela “África” do gin às 5 da tarde… em Luanda, já quase não existe.

5 comentários:

planaltobie disse...

Essa deva ser a realidade de milhões de pessoas, mas a realidade "do progresso", "das oportunidades", "da riqueza", que alguns contam (e que eu não ponho em questão), essa, é só de meia-dúzia.

para mim disse...

Disseram-me que estão a construir um novo aeroporto e que há empreendimentos de luxo, mas fechados... E, já agora, seja bem-vindo!

Isabela disse...

Panorama muito cinzento, como o céu neste dia. Parece a Noruega em Janeiro.

Carrie disse...

Nascida em Angola, sem a mais pequena memória desse tempo, doi pensar que nunca irei conhecer essa 'outra' África...

Sony Hari disse...

Esta sua impressão sobre Luanda de agora interessa-me e muito, até para poder avaliar com outros olhos as propostas "tentadoras" que correm por aí no mercado do trabalho. E já agora é bom tê-lo de volta!

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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