Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











quarta-feira, setembro 13, 2006

Luanda revisitada. Baía cloaca

Em 1997 fiquei um mês e tal alojado no Hotel Meridien Presidente, em Luanda. É o edifício mais alto de Luanda, mesmo em frente ao porto, com vistas sobre a baía, o mar e a cidade que seriam deslumbrantes se aquilo fosse bonito de se ver. Só que não é… para além dos musseques, do pó no ar, a baía de Luanda está tão poluída e maltratada que olhar para aquilo mete nojo.

Nesse ano, lembro-me de uma tarde em que estava no bar do hotel e escutei uma conversa entre dois tipos que negociavam um “esquema” de ambos ganharem dinheiro.
Um era angolano e o outro estrangeiro, branco, com sotaque de inglês. O branco tinha navios velhos para vender ao preço de quase novos, o preto ia encarregar-se de falcatruar as papeladas e encontrar quem comprasse os navios. Acabei por não perceber de que tipo de navios falavam eles, se seriam barcos de pesca ou cargueiros, graneleiros ou porta-contentores, mas para o caso pouco importa.Agora, nestas férias que fiz em Luanda, dei uma volta de barco pela baía… e, lá estavam eles, os navios acabados vendidos ao bom preço de quase novos. Uns afundados, outros semi-submersos, outros tombados de bordo, outros comidos pela ferrugem, todos sem préstimo nem valor. São dezenas de navios que alguém pagou e pouco usou. Imagino que tenha sido o estado angolano… porque não acredito que algum privado tivesse embarcado naquilo. Mas aposto que todos aqueles navios pertencem a empresas estatais, empresas governadas por corruptos amealhadores de comissões e pouco interessados no bem comum.
Luanda liquefaz-se na baía. As escorrências da cidade descem, lenta mas livremente, e desaguam ali. Os líquidos pútridos misturam-se com os óleos e a ferrugem dos naufrágios... branco e imaculado, só o yacht presidencial amarrado na base naval. Ah!, mas cuidado! Não podes fotografar!, avisaram-me.

A água da baía de Luanda é escura e viscosa. Doentia.

3 comentários:

-pirata-vermelho- disse...

Continuarei a felicitar esta iniciativa e a coragem de escrever assim.
MUITO BEM!

Ocorrem-me todavia, com mais e mais frequência, as questões tabú
-a África é generalizadamente corrupta e adjectivada como você fez.
- a África de onde fomos despejados, os portugueses, por indecente e má figura, é isso tudo em todas as camadas
- em África, os africanos que se opuseram foram 'exportados'
- o que se espera para denunciar e recusar, em todos os domínios e em todos os níveis a 'placidez' dos desmandos africanos?
(é bom lembrar o quese passou como Saddam-o-mau-da-fita que foi apeado com lavagem desculpabilizadora de todos os maus do mundo, alguns piores que ele, comparativamente e nos respectivos contextos)
A cumplicidade com a mediocridade da maioria dos estados africanos a sul do Sahara é, em si mesma, não só também medíocre como dolosa (e é também bom lembrar que ela é implicitamente extensiva a estruturas de poder de alguns estados do hemisfério norte).

Dito sem paternalismo, sem saudosismo, sem virtuosismo e sem qualquer outro 'ismo' dos muitos que nos têm fechado a boca.

-pirata-vermelho- disse...

Deixe-me acrescentar, sem querer ser tornar 'pesado' este seu espaço
- não temos nada que acolher os africanos, governantes ou governados (com a devida distinção, claro, caso a caso) à sombra de um guarda chuva culpabilizado e simultaneamente desculpador, como também não aceitámos o Pinochet nem os KhmerRouge; como não aceitamos os putos-da-Kalash nem o Bush; nem o Bemba, nem a máfia que vive das meninas importadas... etc.

Não se aceitam gandulos primários e brutais.

Se os africanos, em geral, se mostram avessos ao conceito de civilidade cumpre-nos rejeitar uma convivência que perpétue esse desmando.

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O contrário de tudo isto seria desejável e verdadeiro.

inominável disse...

Que fotografias tão longe do álbum de casamento dos meus pais, nessa Luanda à beira do mesmo mar plantada...

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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