Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











sábado, agosto 12, 2006

Petra

Duas vezes por dia, fazíamos o percurso a pé, entre o hotel onde estávamos e a embaixada do Iraque em Amman, na Jordânia. Íamos lá para saber se o diligente funcionário já teria recebido ordens de Allah para nos passar o visto e deixar entrar no Iraque. Ao fim de 11 dias a ordem não tinha chegado e cansámo-nos de esperar. No dia seguinte, apanhámos um autocarro e fomos até Petra.É difícil dizer o que senti quando vi aquela cidade esculpida na pedra pelos homens, vento e água. Como se pode fazer uma coisa tão espantosa como aquela? Dizem os canhenhos que chegaram a viver ali 50 mil pessoas. A cidade existe desde o século V a.C., mas há ali perto vestígios de ocupação humana da Idade da Pedra. Hoje é um deserto, mas lindo de morrer. Dizem os mesmos canhenhos que a desertificação humana ficou a dever-se ao desvio das caravanas de comerciantes que passaram a optar por outra rota e deixaram de passar por ali. A mim parece-me que terá havido outro motivo, que estará ligado com mudanças climáticas ou, pelo menos, com o desaparecimento de água. Petra foi um sítio com muita água, basta olhar para aquelas pedras… e, hoje, não tem uma gota.Roma foi um grande Império, de facto. Petra é a evidência do génio que construiu esse Império e a prova que nada dura para sempre. Tal como tudo que existe, também os Impérios começam a morrer logo no dia em que nascem. No final do dia, descansámos da canseira de calcorrear Petra, com um narguilé à moda antiga… foi perfeito.
Quando voltámos para Amman, íamos de alma lavada. Até o sacaninha do funcionário diligente da embaixada iraquiana nos pareceu mais simpático. Mas o visto nunca chegou. Os iraquianos privilegiavam jornalistas de órgãos mais globais que a SIC ou mais representativos dos respectivos estados… mas também foi azar meu. De todas as vezes que tentei entrar no Iraque, nunca consegui o visto. Talvez para a próxima.

7 comentários:

verosimil-utopia disse...

Está excelente! :)

Tive muito tempo sem vir aos blogs para terminar o meu curso, mas vejo que vale mesmo a pena vir.

Estes textos vão dar um livro, não vão? :)

Realmente o sítio é lindíssimo, e também me parece que a mudança terá sido mais climática que outra coisa... porque as caravanas comerciais passam por onde existem pessoas, e não o contrário. (Pura especulação!:)

Tb fico espantado com essas construções e com a imponência do legado do império romano... e sinto-me aliviado por saber q nenhum império dura para sempre!

Pior do que a morte é saber que algumas vidas durariam para sempre...

Um dia este império em que vivemos vai esboroar-se, da mesma forma simples como se aglutinou... resta-nos desejar e sonhar que o próximo império seja um puzzle de peças humanizadas, reunido num todo mais humano, montado por cada uma das peças, e não por uns quaisquer imperadores.

Obrigado por estes tesouros que nos deixa.

Uma das razões de ter querido ser músico foi essa: poder viajar. :)

Um abraço

escrevi disse...

Às vezes sinto uma certa inveja de todas as aventuras que viveste, de tudo o que viste!
Só tenho uma palavra para dizer depois de ver as fotos de Petra: maravilhoso...

Luar disse...

É um prazer ir conhecendo mundo pelas suas palavras, caro CN. Mas Petra espero ainda conhecer pelos meus próprios olhos.

Sónia disse...

Soa sempre bem a tua voz. Bjs

125_azul disse...

Sinal do destino. Deixa, foste a Zanzibar e a mais nem sei quantos lugares muito próximos do paraíso. Não se pode ter tudo...

augustoM disse...

É um homem de sorte que eu invejo. Petra é um dos locais que gostava de visitar. Teve o seu papel hegemónico no tempo das caravanas, até aparecer o famoso Entreposto de Palmira, para onde as caravanas, inclusive as da rota da seda, passaram a desviar as suas rotas. É natural que seja proveniente dos tempos Pré-Históricos, a região já foi uma frondosa floresta, mas o primeiro povo que se conhece com registo histórico, foram os Nabateus, um povo bíblico.
O seu blog é como o deserto, faz crescer a água na boca.
Um abraço. Augusto

della-porther disse...

Maravilhoso Blog...fico feliz de te-lo encontrado e mal chego e encontro Petra, um dos lugares do mundo que mais amo. Gostei muito e vou voltar sempre quero ler voce e muito.

beijos
della

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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