Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











quarta-feira, agosto 02, 2006

Sudão, história antiga

“Nós três fomos levados para esse lugar. Quando nos tiraram a venda dos olhos, estávamos numa sala com uma janela muito alta. Estava muito escuro. Nunca soubemos onde aquela casa ficava, mas era em Cartum. Ficámos lá três dias. Sempre em pé, durante esses três dias, com as mãos na parede, dia e noite na mesma posição”.
Acabaram de ler uma pequena parte de um extenso depoimento feito por Magok Gou Riak, no final de 2003, quando esteve em Lisboa para participar numa acção cívica (promovida pelos Missionários Combonianos) que pretendeu chamar a atenção para o genocídio que o governo do Sudão leva a efeito sobre as populações do centro e sul do país.
Fui eu quem propôs a realização da entrevista à direcção da TSF. Se não fosse assim, ninguém se lembraria de considerar o assunto relevante. A guerra civil sudanesa nunca foi assunto de primeira página nos media portugueses. Só depois de António Guterres ter sido nomeado Alto Comissário da ONU para os Refugiados alguns jornalistas portugueses foram até ao Sudão, mas sempre trataram o assunto pela rama e com pressa, como se tivessem medo de perder o avião de regresso e ficar ali no meio das pedras do deserto. Até então, não me lembro de algum outro repórter ter andado por lá, a não ser eu, perdoem-me a imodéstia… se é que é disso que se trata.
Quando Magok Gou Riak chegou a Lisboa, no final de 2003, eu já estava a trabalhar na TSF. Nenhuma televisão o entrevistou…
Do meu bloco de notas não consigo tirar muito “sumo” deste acontecimento. Preciso de excitar a memória… mas mostro-vos (na folha digitalizada) como iniciei esse trabalho… “torturado, espancado, obrigado a confessar culpas inventadas pelos torturadores, acabou com dentes e ossos quebrados. Os que resistem à islamização, não têm futuro no Sudão”…
Continua no próximo capítulo.

6 comentários:

Barão da Tróia II disse...

Curioso como a história se repete, de novo o crescente que iça o estandarte da guerra, tal como em 750, islamizar a todo o custo, onde será o novo reino das Astúrias, quem fará a Reconquista?

augustoM disse...

É lamentável que o poder da comunicação seja tão grande. São eles com escrúpulos ou sem eles, que definem o que tem importância e o interesse do seu mediatismo. Você como jornalista e repórter , no local, melhor do que ninguém poderá ajuizar o que estou a dizer. Uma tempestade num copo de água, pode ser transformada num furacão, e um genocídio o resultado de um gripe mal tratada.
Verdadeiramente quem se interessa o que está sucedendo ao seu semelhante, para lá da possibilidade de uma noticia escaldante? Da televisão ao mais modesto jornal, a notícia não valorizada pelo seu conteúdo, mas pela maneira como se apresenta.
Desculpe o desabafo, mas estou profundamente desiludido com a comunicação social, que na maior parte dos casos, se limita a relatar os interesses a que está subordinada.
A propósito, ando a pensar publicar um texto contando o desastre inglês em terras do Sudão.
Um abraço. Augusto

croqui disse...

surpreendente!!

125_azul disse...

Islamizar, cristianizar... um dia acaba, espero. Ou acabamos nós.

Patrícia Nogueira disse...

Quando leio estas histórias, conheço um jornalismo que parece nunca ter existido, tão longe que estamos dele. Será que um dia volta?...

Isabela disse...

É giro poder ver os teus blocos de notas. És certinho, limpinho, organizadinho. Eu sou um caos. Os meus blocos são uma vergonha, nunca os mostrei a ninguém. E a caligrafia... gatafunhos. Ainda hoje, no trabalho que faço, a minha papelada não tem ponta por onde se lhe pegue. Quer dizer, eu entendo-me. Mas às vezes rio-me sozinha, nas reuniões, porque os outros têm tudo muito lindo, visível, em cima das mesas, com sublinhados de diversas cores, e eu escondo o mais possível, com as mãos, os braços, os meus papéis.

Tenho horror à modéstia construída porque alguém nos ensinou que é bonito ser modesto. O que é bonito, não sei. O que é bom, para mim, é dizer o que verdadeira se pensa sobre o que se faz. Fiz bem. Fui bom. Fui o único. Ou então, foi uma merda, não resultou nada bem, queria outra coisa. Ou foi assim-assim.

No teu caso, meu querido, não tens razão para modéstias, a não ser que seja mesmo sentida.

Sudão, extermínio?! Quem quer saber no mundo civilizado? "São pretos, que se entendam. Que se matem uns aos outros. Não nos quiseram lá para pôr ordem naquilo, aguentem-se." Não é assim?

Todavia, alguém tem de ver, mostrar objectivamente, de fora, a verdade.
É um trabalho de missão, não apenas um job. Não creio que possas adiar muito, apesar da tua família precisar de ti, o regresso aos lugares. Tens de pensar nisto muito, muito a sério. Não estou a falar para gastar letras.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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