Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











quinta-feira, agosto 10, 2006

O inferno deve estar cheio de bibliotecas

Foi em 2001, no Kosovo. Nos arredores de Klina, numa das muitas aldeias destruídas pela guerra civil. No meio dos destroços e de entulho jazia um manuscrito queimado, inquieto pelo vento que lhe virava docemente as folhas.
Não sei o que lá estava escrito, não percebo uma palavra de servo-croata. Também não me apeteceu perguntar a quem me podia traduzir. Achei que não devia vasculhar aquele cadáver.
A guerra sempre foi inimiga dos livros. São os próprios livros que o contam, como se fossem biógrafos deles mesmo.Anos antes tinha estado em Sarajevo e vi os restos calcinados da biblioteca da cidade. Morreram ali muitos livros.
Lembro-me de ter lido sobre a destruição de mil bibliotecas e 11 milhões de livros em Grozny, na Chechénia, sob bombardeamentos russos. Sei do Índex do papa Paulo IV, uma lista de livros proibidos destinados a alimentar as fogueiras da Inquisição. Sei dos livros queimados pela Revolução Cultural na China. Conheço a história da Biblioteca Nacional de Madrid, bombardeada durante a guerra civil. Já li sobre a destruição das bibliotecas de Kioto, no Japão, no século XV e sobre a destruição das bibliotecas de Constantinopla, em 1204, pela Quarta cruzada. Sei que isto é uma história antiga, que começou com o primeiro livro, há seis mil anos na Mesopotâmia. Eram livros feitos de pranchas de barro, onde se gravavam os caracteres. Havia muitos guardados na Biblioteca Nacional de Bagdad… bombardeada e saqueada em 2003 durante a invasão americana. Todas as pranchas desapareceram.
O inferno deve estar cheio de bibliotecas.

9 comentários:

≈♥ Nadir ♥≈ disse...

Não deviam ser livros a arder no inferno, mas sim as armas da guerra...

beijos

VN disse...

"O inferno deve estar cheio de bibliotecas"

O Paraiso também !
Quem de nós não se deleitou a ler e reler bons livros? Quem já não viajou até ao Paraiso na companhia de bons livros ?
Livros grandes, livros pequenos, livros de BD e livros de poesia ... LIVROS.

escrevi disse...

Voltei hoje.
Foi mau porque a primeira coisa que li fez-me doer o coração. Livros queimados e ainda por cima documentado com uma foto, quanta história se perde nesta destruição.
Não ficaste com o livro?
É manuscrito, o que teria escrito? Se calhar o relato do que se estava a passar nos dias que precederam a barbárie, ou, quem sabe, a descrição sob a forma de diário, da vida daquele que jazia morto perto dele.
Vou por-me em dia com as leituras do teu blog antes que um qualquer terrorista se lembre de destruir as preciosidades que cá escreves e que teimas em não passar para livro.

Maria disse...

Farenheit 451...

http://www.imdb.com/title/tt0060390/

A terra queimada das guerras não deixa homens nem memórias, só o silêncio da reflexão que é sempre feita em descompasso e apenas por alguns.

verosimil-utopia disse...

Bom dia Caro amigo.

É verdade. Essa então das bibliotecas de Bagdade foi ridícula - o modo como permitiram que tudo fosse saqueado. Quem sabe esses documentos não estão nas mãos dos americanos, de uns quantos americanos ricos. É muito provável.

Como Orwell escreve, no seu «1984», é muito confortável destruir o passado, destruir a cultura, apagar os vincos deixados pelos nossos anciãos. Se não tivermos provas de nada, podemos acreditar em qualquer coisa na qual nos queiram fazer acreditar. E por isso se destroem documentos tão importantes. Mas as pessoas não estão preocupadas, e compreende-se, porque a sua única preocupação é sobreviver aos mísseis.

O inferno está cheio, esgotado. Já não cabem lá mais tiranos. Por isso é que eles ainda estão por cá...

Um abraço

≈♥ Nadir ♥≈ disse...

Que o sol seja o sorriso a dançar no teu rosto.
Bom fim de semana
Beijos

JPN disse...

Levei a foto e o desabafo para o Respirar...obrigado. abç

isabel victor disse...

Sou uma viajante assídua neste blog, vou cirandando e ... leio, leio, leio ... com imenso prazer, os expressivos relatos que nos vai deixando o Carlos Narciso! Nunca aqui escrevi porque ... enfim, nunca calhou, mas este " inferno dos livros ..." agora arrepiou-me ! Fez-me lembrar o filme
"Fahrenheit 451", que animou inesquecíveis discussões, no Verão quente de 74, em militantes projecções de rua feitas c/barulhentas máquinas da 16mm, seguidas de debates ( Não sei se alguém ainda se lembra destas utopias ... )

ABRAÇO-O C/MUITA ADMIRAÇÂO!

Isabel Victor

isabel victor disse...

Volto só para dizer que subscrevo, por inteiro, o que afirma "vn" - também há livros nos nossos PARAÍSOS !

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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