A agência Angola Press fazia, assim, eco das preocupações do vice das Terras do Fim do Mundo. Esta notícia provocou-me dúvidas de todo o género. A vigília do povo, naquela parte do Mundo, destina-se prioritariamente à busca diária de alimentos e a evitar pisar as minas semeadas pelos campos… O vice quer o povo vigilante, falou (segundo o eco) em educação cívica, dedicação, imparcialidade, exemplo, transparência, respeito e competência… enfim, tudo aquilo que, aposto, ele não tem mas exige aos outros.

Pelo caminho fomos constantemente espiados por homens armados, maltrapilhos de kalashnikov à bandoleira. Sem a escolta das Nações Unidas jamais teríamos chegado ao destino. O Kuando-Kubango era, de facto, terra da UNITA. As povoações da província ou estavam destruídas e completamente abandonadas ou viviam cercadas e abastecidas por avião desde Luanda. Era o caso de Menongue.
Para sair de lá, foi preciso pedir boleia a um piloto cubano de um avião-tanque. Nunca tinha voado numa coisa assim: um Boeing 727 que do cockpit para trás era apenas um imenso tanque de combustível. Era assim que o governo angolano abastecia as tropas e as populações dispersas pelo país. Angola era uma espécie de arquipélago, cada cidade uma ilha rodeada de mato…
De Menongue tenho memória da indigência colectiva e da prepotência da autoridade local. Adivinho que, hoje, pouco tenha mudado. Ninguém muda assim tanto em tão pouco tempo.
1 comentário:
Vivi no Menongue, (na altura chamava-se Serpa Pinto) 1972 a 1974.
Era uma cidadezinha próspera e bonita. Sofro só de pensar o que fizeram àquela terra e àquela gente. Aquele povo era tão bom que não merecia o que lhes aconteceu. Tenho pena que Angola não tenha um governo mais social para acabar com a corrupção e progredir no sentido de criar condições e dar um nivel de vida digno ao povo tão bom e nobre. Afinal Angola é uma das regiões ricas do mundo poderia, no fim destes 30 anos, ter criado as infraestruturas e o povo ter melhores condições de vida. Sofre com saudades.
Artur Moura
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