Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











quinta-feira, outubro 05, 2006

Ecos das Terras do Fim do Mundo

Menongue, 04/10 - O vice-governador da província do Kuando Kubango para a Organização e Serviços Comunitários, Francisco Manjolo, apelou terça-feira, em Menongue, a população a manter-se vigilante durante o processo eleitoral.

A agência Angola Press fazia, assim, eco das preocupações do vice das Terras do Fim do Mundo. Esta notícia provocou-me dúvidas de todo o género. A vigília do povo, naquela parte do Mundo, destina-se prioritariamente à busca diária de alimentos e a evitar pisar as minas semeadas pelos campos… O vice quer o povo vigilante, falou (segundo o eco) em educação cívica, dedicação, imparcialidade, exemplo, transparência, respeito e competência… enfim, tudo aquilo que, aposto, ele não tem mas exige aos outros.

Em 1998 estive no Menongue. Uma terreola pobre perdida na planície e, naquela época, praticamente isolada do resto do Mundo. Cheguei lá em cima de um camião do PAM (Programa Alimentar Mundial, agência da ONU), escoltado por blindados pintados de branco (UNAVEM II)… O camião arrastou-se a 20 quilómetros por hora e sofreu sérias avarias mecânicas por duas vezes. Todas as pontes existentes entre Huambo e Menongue já tinham morrido em combate… o que fazia com que aquela viagem só fosse possível no cacimbo, quando não chove. Foram três dias muito penosos e duas noites de muito frio, a dormir debaixo do camião, alumiado por fogueiras e aquecido pelo whisky que a generosidade do motorista fez com que chegasse para nós também. Como faz frio naquele ermo em Agosto…
Pelo caminho fomos constantemente espiados por homens armados, maltrapilhos de kalashnikov à bandoleira. Sem a escolta das Nações Unidas jamais teríamos chegado ao destino. O Kuando-Kubango era, de facto, terra da UNITA. As povoações da província ou estavam destruídas e completamente abandonadas ou viviam cercadas e abastecidas por avião desde Luanda. Era o caso de Menongue.
Para sair de lá, foi preciso pedir boleia a um piloto cubano de um avião-tanque. Nunca tinha voado numa coisa assim: um Boeing 727 que do cockpit para trás era apenas um imenso tanque de combustível. Era assim que o governo angolano abastecia as tropas e as populações dispersas pelo país. Angola era uma espécie de arquipélago, cada cidade uma ilha rodeada de mato…
De Menongue tenho memória da indigência colectiva e da prepotência da autoridade local. Adivinho que, hoje, pouco tenha mudado. Ninguém muda assim tanto em tão pouco tempo.

2 comentários:

planaltobie disse...

Recentemente um governador do Cuando-Cubango foi julgado e condenado a uma pena pesada por mandar fuzilar feiticeiros pois acreditava que eles forçavam os mortos a trabalhar nas lavras!
Lá houve uma atitude ´laica`, cientifica e, aparentemente, justa do governo de Luanda.
Quanto ao frio seco do cacimbo, "meu Deus", quantas saudades!

Artur Lima Moura disse...

Vivi no Menongue, (na altura chamava-se Serpa Pinto) 1972 a 1974.
Era uma cidadezinha próspera e bonita. Sofro só de pensar o que fizeram àquela terra e àquela gente. Aquele povo era tão bom que não merecia o que lhes aconteceu. Tenho pena que Angola não tenha um governo mais social para acabar com a corrupção e progredir no sentido de criar condições e dar um nivel de vida digno ao povo tão bom e nobre. Afinal Angola é uma das regiões ricas do mundo poderia, no fim destes 30 anos, ter criado as infraestruturas e o povo ter melhores condições de vida. Sofre com saudades.
Artur Moura

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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