Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











domingo, outubro 08, 2006

Bombolón

Ouvi-os “falar” em diversas ocasiões, na Guiné-Bissau e no Congo. Sei que existem em muitos outros países africanos e, segundo julgo, até na Ásia. Nesta era de comunicação e de informação, é paradoxal que seres humanos ainda comuniquem entre si desta maneira: tocando tambores.
Na Guiné-Bissau chamam-lhes bombolón. Havia, em Bissau, uma rádio privada que se chamava Rádio Bombolón que desempenhou um papel essencial de apoio às populações durante a guerra civil. A rádio é, de facto, em muitos países africanos, o bombolón dos tempos modernos.

na Guiné-Bissau

No Congo, na aldeia de Bambilo, onde vivia o missionário Claudino Gomes, era através do tambor que se chamavam os fiéis para a celebração da missa. Às seis da manhã, na penumbra húmida da floresta, o som propagava-se quase sem interferências e ouvia-se em todos os recantos da aldeia.
O curioso é que o som destes tambores imita bem o som da voz humana. Chamar-lhes tambores também não deve ser o termo mais correcto. De facto, não são bem tambores, mas antes cilindros ocos de madeira, como as caixas de ressonância dos instrumentos de corda. Pelo que pude perceber, os troncos são escavados de modo a que a parede tenha diferentes espessuras e, portanto, a percussão exercida resulte em diferentes sons e tons, mais ou menos cavos, mas espantosamente semelhantes ao falar humano.
Lembro-me do Claudino me traduzir o que dizia o tambor… em dialecto kizande…
… zaamm – bé – bem – gá – ná – dá –kôo… Nzambe benga na ndako… Deus chama-te a casa… se a memória não me falha.

no Congo

Naquelas aldeias do nordeste do Congo, os tambores falantes são diariamente utilizados para as comunidades comunicarem entre si as novidades. Quando algum caçador mata um animal grande e há carne fresca para vender, quando algum pescador apanha um peixe-tigre, quando alguém encontra um diamante no rio, quando há visitas nalguma aldeia da região, coisas assim.

6 comentários:

Anónimo disse...

Historias maravilhosas. Gosto imenso de ler.

Fernando Casimiro (Didinho) disse...

Caro Carlos Narciso,

O Bombolom é de facto um instrumento musical deveras importante na comunicação de muitos povos africanos.

No período da luta armada na Guiné-Bissau, a abertura das emissões da Rádio Libertação, estação emissora do PAIGC era precedida por toques de Bombolom, como que um chamariz para as pessoas se prepararem para o início das emissões.

A rádio Bombolom que o Carlos se refere e que teve um desempenho importantíssimo na guerra de 98/99 ainda hoje funciona e está a preparar emissões online que estão em fase experimental, mas que se pode aceder através deste endereço:

http://www.bombolom-fm.com

Vou aproveitar para adicionar a linda foto aos meus arquivos fotográficos sobre a Guiné-Bissau.

Um abraço

Didinho

Barão da Tróia II disse...

Comunicar é preciso, seja o Bombolon, seja o 3G, que dianho a malta precisa é de falar e sobretudo de se entarder. Boa semana

Belgiumtugadois disse...

O artigo não precisa dos meus comentários. Este como os outros que maravilhosamente se podem ler neste blog.
Passei apenas para me perguntar, publicamente, porque descobri este blog há tão pouco tempo!

Maite disse...

Caro CN

Uma das coisas que mais admiro nestas suas crónicas é que você teve (tem) o privilégio de contar os factos na primeira pessoa e de ter convivido com essas pessoas que para mim(que nunca visitei África) parecem saídas de uma história. Uma história de um continente mágico e que tem sido tão mal tratado no mais amplo sentido do termo.

Boa noite para si

inominável disse...

Um dos posts mais lindos da blogosfera... sou fã

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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