Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











segunda-feira, janeiro 16, 2006

Congo, 2000 - os trabalhos de Alfredo Neres (1)

Para os Combonianos que tenho conhecido, o direito à indignação parece ser uma espécie de “11º mandamento”. Alfredo Neres, português de Viseu, missionário no Alto Zaire, não se cansava de pregar esse ensinamento. E nas condições em que o fazia, significava correr risco de vida diariamente. O padre Neres vivia em Bondo, cidade importante porque fica no coração de uma das mais ricas regiões do actual Congo Democrático. Região rica em ouro, diamantes, coltam e kalasnhikovs… Cheguei a Bondo a bordo de um pequeno Antonov tripulado por pilotos russos ao serviço de Jean Pierre Bemba, o presidente do Movimento de Libertação do Congo, um dos principais grupos rebeldes que lutavam contra o regime de Joseph Kabila.
Bemba e o MLC, ainda hoje, controlam quase todo o Norte do Congo. Controlam a vida de perto de 8 milhões de seres humanos. É um regime bruto, de olhos postos na extracção das riquezas, pouco preocupado em minorar as dificuldades da população. Entre Bondo e Gbadolite, a capital da zona Leste do país e a cidade onde vive Bemba, os hospitais não têm medicamentos, as escolas não têm cadernos, os agricultores não têm sementes nem gado. É um país delapidado.
A paz, assinada recentemente, não alterou nada na vida das populações, embora a guerra esteja numa pausa. O tratado de paz foi, essencialmente, um acordo de divisão das riquezas do país.

Quando o avião de Bemba aterrou, terminou o suplício do padre Neres e das crianças da escola dos missionários de Bondo. É que foram eles os “escolhidos” para construir a pista, para que o Chefe Bemba pudesse aterrar ali com o seu avião. Durante semanas, a escola fechou. Oito horas por dia, os miúdos e Neres capinaram uma recta de mil e tal metros de comprimento por 30 de largura. Depois do mato derrubado e retirado, foi preciso alisar a terra, retirar pedras e raízes. Não podia acontecer nenhum acidente na aterragem daquele avião. Neres e as crianças respondiam com a própria vida por qualquer coisa que pudesse suceder a Bemba.

domingo, janeiro 15, 2006

Argentina, atrás de Menem (1)

No final da década de 80, a Argentina tinha um naipe de políticos hábeis cuja acção contribuiu decisivamente para o renascimento da democracia no país. Estou a falar de Raul Alfonsin, Eduardo Angeloz e Carlos Menem. Conheci-os a todos, durante a realização de uma grande reportagem sobre a transição política do país, depois de uma ditadura militar implantada em 1976. No final venceu Carlos Menem, eleito Presidente da República. Não se pode dizer que tenha sido a melhor escolha, mas isso só sabemos agora, passados já 17 anos sobre esses acontecimentos.
Menem deu-me “água pela barba” para o conseguir entrevistar. O homem era um furacão e nunca parava dois dias no mesmo sítio. Num país enorme, como a Argentina, tornava-se difícil seguir um tipo assim, tanto mais que a agenda do homem era completamente improvisada. Nunca se sabia bem onde ele ia estar no dia seguinte.

Para o "agarrar" foi preciso voar para o interior do país, apanhar um autocarro e viajar 6 horas de solavancos e rádio aos gritos até à aldeia de Anillaco, na Província de Rioja. Ia ser um comício monumental. A aldeia é a terra natal do político. Convergiam para lá militantes peronistas de todo o país.
O Partido Peronista é uma organização política nacionalista, muito próxima do fascismo. Havia, no largo da aldeia onde o comício decorreu, milhares de pessoas de braço esticado e a berrar canções militaristas. Foi uma viagem no tempo, a um tempo que nunca vivi, mas que aprendi nos livros de História e nos filmes de Hollywood.
A organização tinha-nos posto em cima de um estrado alto, onde estava colocada uma enorme coluna de som. O barulho era tanto, que nem conseguia ouvir o meu próprio pensamento. Pedi a um tipo da organização para ver se era possível baixar o som da coluna, por um minuto, de modo a que pudesse gravar um stand-up, aquilo a que na gíria chamamos “um vivo”. O tipo atravessou todo o largo, subiu ao palanque dos discursos, pegou no microfone e disse para o povo: “Companheiros! Um minuto de silêncio! Está ali um jornalista europeu que vai falar para o Mundo sobre a importância do nosso candidato!”. E, assim, de repente, tinha 10 mil pares de olhos e de orelhas atentos à minha performance… uma multidão em silêncio, à espera das minhas palavras … ouviam-se as moscas… e o respirar compacto da imensa plateia… foi horrível.

sábado, janeiro 14, 2006

Paraguay 89, sem dinheiro não há palhaços

Cheguei a Asunción no dia 4 de Fevereiro de 1989, um dia depois de um golpe de estado que veio a destronar o ditador paraguaio Alfredo Stroessner. Nas ruas, o habitual aparato: patrulhas da tropa, barreiras a condicionar os movimentos da população, recolher obrigatório a partir de determinada hora, tensão.
Saímos do avião e logo, eu e um espantoso camarada de trabalho chamado Reinaldo Varela, estávamos a filmar e a entrevistar gente. Horas depois, editávamos a reportagem nas instalações da Tele 3, uma estação de televisão privada local. Telefonei para Lisboa, marcou-se satélite. À hora combinada, estava na central técnica da estação e quando fui introduzir a cassete com a reportagem na máquina que ia proceder ao envio das imagens pelo satélite, impediram-me de o fazer. Era o director financeiro da estação, com umas facturas por cobrar de alguém da RTP que tinha andado por ali, 7 ou 8 anos antes e a quem a Tele 3 tinha prestado serviços. Eram umas centenas de dólares que eu não tinha… todo o esforço e empenho no trabalho daquele dia acabavam de ir por água abaixo, por causa da incompetência de um burocrata da RTP.

sexta-feira, janeiro 13, 2006

Maria Grazia

Recebi uma newsletter do Sindicato dos Jornalistas, onde se dá conta da preocupação que reina entre jornalistas de todo o Mundo, por causa do que está a acontecer com os jornalistas que estão a trabalhar no Iraque, nomeadamente em Bagdad. Segundo essa newsletter, “Bagdad é um dos locais onde nenhum jornalista pode sair em segurança para a rua, como o provam o assassinato recente de três profissionais da televisão iraquiana no mesmo bairro em que Jill Carroll foi sequestrada e o seu tradutor Allan Enwiyah morto”. Desde o início da guerra, já morreram mais de cem jornalistas no Iraque e muitos ficaram feridos (entre eles, a repórter da SIC, Maria João Ruela).
Este alerta fez-me pensar em Maria Grazia Cutuli, uma jornalista italiana que conheci no Sudão. Cruzamo-nos por uns breves três dias, numa aldeia no sul do Sudão. Ela trabalhava para o jornal Corriere della Sera, de Roma.
Em Outubro de 2001, no hall de um hotel em Peshawar, no Paquistão, estava ao telefone e foi ela quem primeiro me viu e me cumprimentou. Foi um encontro ainda mais rápido que o primeiro. Mas foi um momento alegre. Ela era assim, alegre e enérgica. No dia seguinte viajei para Rawalpindi e ela ficou por ali.
Semanas depois, em Novembro, Maria Grazia Cutuli entrou no Afeganistão e foi morta na estrada de Jalalabad para Kabul, por um bando de assaltantes. Tinha 39 anos. As fotos vieram publicadas em vários jornais italianos, quando se soube do sucedido… Com ela morreram outros três jornalistas de diferentes nacionalidades: Harry Burton, 33 anos, camera-man da Agência Reuters; Azizullah Haidari, 33 anos, afegão, repórter fotográfico da Agência Reuters ; Julio Fuentes, 46 anos, repórter espanhol do jornal El Mundo.

Somália 92, fome de cão

“Kilometer Seven” era o céu. Para lá do portão verde, havia água engarrafada, havia quem tivesse comida, havia camas com colchões e lençóis, havia europeus, americanos e asiáticos, havia algum apoio solidário e muito apoio profissional. Era uma hospedaria a abarrotar de jornalistas e técnicos de televisão. Ficava no quilómetro sete da estrada de Mogadíscio para o aérodromo e, daí, o nome. Quase todos estavam ali. Eu não… quando lá cheguei já não havia lugar, nem mesmo a dormir no chão. Mas era lá que ia editar as reportagens, era ali que “cravava” favores essenciais, como, por exemplo, deixarem-me utilizar um telefone-satélite. Em 1992, a SIC ainda não tinha telefones-satélite para as suas equipas de reportagem. A alimentação era um problema. A maior parte das vezes não havia tempo para comer, durante o dia. E era muito difícil encontrar comida numa cidade sem restaurantes. Só depois da reportagem editada e enviada para o satélite começávamos a descontrair. Então, a fome apertava.
Um dia, não resisti… (agora vou confessar um delito grave) … e roubei uma lata de comida do quarto de uns técnicos japoneses que trabalhavam para a televisão egípcia... ainda por cima, eram tipos simpáticos que me emprestaram várias vezes o telefone-satélite sem nunca cobrarem nada. Escondi a lata nas fraldas da camisa, subi ao terraço, puxei do canivete suíço, abri a lata… a carne tinha um ar gorduroso, envolta em gelatina, mas já estava a salivar de tal modo que nem liguei e enfiei a primeira colherada… ia vomitando as tripas! Até fiquei com o cabelo eriçado! Aquilo era intragável! Olhei para a lata para ver o que estava a comer e li… “meat for dogs, made in South Africa”. No rótulo, o cachorro ria-se…
O estranho desta história é a razão da existência da lata de comida para cão. Do caixote de onde tirei aquela, havia dúzias da mesma marca e conteúdo. Percebi, mais tarde, que se tratava de um equívoco provocado pelo mau inglês do japonês que foi às compras em Joanesburgo... o que não impedia os japoneses de comerem aquilo...e gostarem.

A Gorjeta

No início da década de 80, Lisboa estava rodeada por imensos bairros das lata. Mais parecia uma cidade sul-americana que uma capital europeia. Foi então que começaram a derrubar as barracas e a dar casas minimamente decentes a essas pessoas. O processo nem sempre foi pacífico. Havia quem gostasse de viver na barraca e não quisesse trocar, havia quem achasse que tinha mais direito que outros a quem já tinham atribuído casa nova, as confusões abundavam.
O Bairro da Boavista, ali ao lado do Parque de Campismo de Monsanto, deve ter sido dos primeiros a ser requalificado. À medida que as barracas iam caindo, os apartamentos eram distribuídos. Um dia, lá fui. A reportagem era para um magazine informativo semanal apresentado pelo Carlos Pinto Coelho. O programa chamava-se “Fim-de-Semana”, passava aos sábados e foi um sucesso de popularidade.
Havia, portanto, bronca por causa da atribuição de chaves das casas novas… assim que o povo viu o carro da RTP, nunca mais foi possível ficar só. Uns gritavam, outros empurravam, outros puxavam, foi uma balbúrdia. Fui levado de barraca em barraca, para ver com os próprios olhos as condições miseráveis em que todos viviam. Uma daquelas pessoas, um homem grande e gordo, insistia que eu tinha de ir ver a barraca dele. Não foi possível contrariá-lo, embora já não tivesse necessidade de filmar mais. Disse ao camera-man que me acompanhava para fingir que filmava, porque já tínhamos material suficiente. E assim fomos à bendita barraca, lá vimos a assoalhada e meia em que o senhor vivia e as goteiras do telhado de chapa. O morador vociferava exaltado coisas contra a Câmara Municipal, mas boa parte da excitação era por se julgar na televisão… No final, mesmo antes de entrar no carro, o tipo enfiou-me uma coisa no bolso da camisa… era uma nota de mil escudos. Uma gorjeta… tentei recusar, explicar que jornalista não aceita pagamentos daquele género… e quanto mais eu falava, mais ele avermelhava as bochechas de raiva. Quando me calei, ele disse que aquele era “dinheiro honesto” e que eu recusava por ele ser pobre… isto é, por a gorjeta ser pequena… Aceitei.
Ainda hoje acho que fiz mal.

quinta-feira, janeiro 12, 2006

O Caçador de Marajás

Rio de Janeiro, 1989.
Depois de longas negociações com os assessores de imprensa, depois de semanas de falsas promessas e teimosas insistências, lá conseguimos ½ hora do precioso tempo do senhor candidato. Collor de Melo “não tinha saco” para dar uma entrevista à televisão portuguesa. Portugal não entrava nos calculismos políticos do futuro presidente brasileiro…
A entrevista não teve grande história. O candidato era mestre no discurso demagógico e populista. Mas chamou de “filhos da puta” aos senadores americanos que tinham tido a ideia de propor para a Amazónia o estatuto de “património mundial”, de modo a retirar o território da soberania brasileira e entregá-lo à administração das Nações Unidas. “Ganhei o dia” com o palavrão e fiquei com a certeza de que estava a falar com o candidato que iria vencer as eleições. Bonitão, macho, valentão e rico, não lhe faltava nada para agradar ao público, principalmente às mulheres.
Ao darem a vitória a Collor de Melo, nas primeiras eleições livres depois de 25 anos de regime militar, os brasileiros perderam uma oportunidade de melhorar o país. Collor revelou-se um corrupto e acabou por ter o mandato anulado por decisão do Congresso. Logo ele, que ganhou fama como “caçador de marajás” enquanto foi governador de Alagoas. “Marajá” é a alcunha que o povo brasileiro dá aos que enriquecem ilegalmente.

Somália 92, a primeira noite

Nos últimos dias de Novembro de 1992, os clãs somalis combatiam ferozmente rua a rua, casa a casa. Os americanos só chegariam dali a duas semanas e os senhores da guerra queriam conquistar tudo o que pudessem antes da chegada das tropas mandatadas pela ONU.
Aterrei em Mogadíscio em plena demência no vespeiro. Não sabia onde dormir, não sabia onde comer, não conhecia ninguém ali, nenhum outro jornalista português estava por ali naquela altura. Na primeira noite tentei ficar no compound da CNN, uma casa enorme, murada, guardada por civis americanos armados de metralhadoras. Fui posto na rua, noite escura, com um “it`s not possible”. Do lado de fora da casa, fiquei encostado à parede, sem saber o que fazer. Ouviam-se tiros, muito perto dali.

Até que um veículo saiu do compound. O somali que conduzia viu em mim uma receita extra para aquele final de dia. Chamou-me, disse-me em bom inglês que eu era louco, que se ficasse ali seria morto e perguntou onde eu estava alojado. Pensei no que responder e saiu-me “na Cruz Vermelha Internacional”. Disse que para me levar até lá queria 10 dólares. Nem discuti…Chegados à casa da ICRC – International Committee of Red Cross – bati com força no portão metálico. Demorou algum tempo, mas alguém me abriu a porta e antes de abrir a boca já estava na parte de dentro. Pedi para falar com o director. Apareceu-me um branco, germânico, que adivinhou ao que eu ia assim que me viu e disse que não podia lá ficar. Sentei-me no chão e respondi, “daqui não saio, lá fora andam todos aos tiros”… e foi assim que encontrei o primeiro alojamento em Mogadíscio.

quarta-feira, janeiro 11, 2006

Sudão, os Nuba (2)

O avião era um Antonov russo. A bordo iam algumas toneladas de cereal e roupa velha, o contributo amealhado ao longo de meses de esforços do missionário Renato Kizito.
Estávamos no final de 1999, Kizito fazia a sua enésima incursão às Montanhas Nuba, no coração do Sudão.
Aquela era uma viagem proibida pelo governo em Kartum. Havia anos que todas as ONG de ajuda humanitária tinham sido expulsas das Montanhas Nuba. O governo não queria testemunhas dos métodos que usava para tentar vencer aquela guerra civil deflagrada 25 anos antes. Quase só o Comboniano Kizito teimava em desafiar a ordem estabelecida. Voámos 5 horas sobre o Sudão, desde o aérodromo de Lokichokio, no Norte do Quénia, até ao interior das Montanhas Nuba, em território controlado pela rebelião do Exército de Libertação do Povo do Sudão, o SPLA.
O esforço de Kizito é notável, assim como é notável a sua capacidade de organização. Centenas de mulheres esperavam o avião e a preciosa carga que transportava. Os sacos de sorgo e a roupa velha foram carregados na cabeça dessas mulheres, numa longa fila indiana, durante um dia inteiro de caminhada até à aldeia mais próxima. Kizito era o único branco que visitava aquele povo cercado no alto das montanhas pelo exército governamental. Ele ouvia as histórias da guerra e contava as suas histórias de esperança. E dizia àquelas pessoas que o futuro seria mais justo e pacífico. E embora condenasse a guerra, dizia-lhes que tinham direito a lutar pela liberdade.

Lembro-me de assistir às missas de domingo que Kizito celebrava num altar de pedra esculpido pela Natureza. Ele gostava de dizer a missa de noite, ao ar livre, iluminado por archotes e sob uma magnífica abóbada de estrelas. Mesmo para quem anda longe deste tipo de fé, eram momentos mágicos.

Pouca-terra-pouca-terra

Chama-se Paulo Costa e é um dos melhores repórteres da RTP. Está emprateleirado e pouco faz. Mas, quando faz, faz bem. É o caso do documentário, que veio hoje publicitado no Público, realizado a propósito dos 150 anos dos caminhos-de-ferro em Portugal.

Podem não saber quem é o Paulo Costa mas, certamente, lembrar-se-ão do programa Bombordo que passava na RTP 2 e que foi coordenado durante anos a fio por ele. Por razões economicistas, a RTP deixou de produzir o Bombordo com os jornalistas da casa e o Paulo Costa pouco tem tido para fazer, desde então.O problema do Paulo é ter mau feitio. Não gosta de salamaleques. E os bajuladores vingam-se, ignorando-o. O problema de todos nós é que os bajuladores estão em todo o lado…

terça-feira, janeiro 10, 2006

Hanan Ashrawi

O Paulo Dentinho telefonou-me, há dias. Estava em Israel. Lembrou-se de mim, porque tinha acabado de entrevistar Hanan Ashrawi, uma dirigente palestiniana. Acontece que, dias antes, tínhamos tido uma conversa a propósito desta senhora que, em tempos, também eu entrevistei para o Jornal das 9 do Canal 2 da RTP. Foi em 89 e 91, se não erro nas datas, a última quando a senhora Ashrawi esteve em Lisboa.

Nessa conversa com o Paulo, contei-lhe que tinha ficado impressionado com aquela mulher. Não foi só a percepção clara de se tratar de uma pessoa muito inteligente, muito determinada. Foram as palavras ditas por ela, as palavras escolhidas por ela. Foi o tom da conversa, o tom da voz dela. E foi o olhar. Ashrawi tem uns olhos que “olham”. Tem um olhar brilhante, embora sereno. Enfim, falei-lhe de uma mulher que jamais consegui esquecer.
O Paulo telefonou só para me dizer que eu tinha razão. A velha senhora é muito charmosa.

Jornalismo encenado - Somália 92 - 1º texto

Cheguei a Mogadíscio em finais de Novembro de 1992. Fiquei lá até ao Natal. Foi um mês completamente louco.
Naquele tempo, a Somália devia ser o sítio mais perigoso do Mundo. Sem governo, a população combatia na mais estranha guerra civil que já vi. Vários clãs matavam-se entre si, numa demência de todos contra todos.

A avioneta alugada em Nairobi aterrou no aeródromo central de Mogadíscio, precisamente no momento em que aquela parcela de chão estava a ser disputada entre duas das facções em conflito. Como não havia comunicação via rádio com alguém em terra, o piloto (e nós) só se apercebeu que havia balas a voar, além do avião, quando já não conseguiu abortar a aterragem. O avião bateu no chão e foi rapidamente conduzido para trás de uma parede, onde sempre havia alguma protecção. Assim que o tiroteio teve uma pausa, o piloto levantou voo e nós ficamos. Eu, um fotógrafo americano e dois tipos alemães da televisão ZDF. A SIC tinha-me enviado sozinho para ali. Eu deveria procurar a equipa da Reuters e trabalhar com eles. Não há nada pior que ir para um sítio destes sem um companheiro.

Arranjar alojamento foi o primeiro tormento. Os tipos da ZDF tinham um contrato com a CNN e iam ficar na casa que a televisão americana tinha comprado. Eles são assim, chegam e compram! Decidi ir com eles, quem sabia se não poderia lá ficar também… Chegamos ao compound da CNN já de noite. O anchor preparava um directo, com cenário montado. Quando digo cenário, não estou a brincar com as palavras. Era mesmo um cenário, onde figuravam duas pick-up Toyota de caixa aberta, equipadas com metralhadoras pesadas, e vários somalis em pose de rambo… e o anchor americano dizia, no seu directo, “estamos na frente de batalha, atrás de mim os guerrilheiros de Aidid…”, blá blá blá blá… bullshit como se diz na China. Armar aos heróis, a grandes repórteres, dentro dos muros protegidos por guardas privados e com figurantes pagos… e eram aqueles tipos a referência mundial do jornalismo televisivo.

sábado, janeiro 07, 2006

Além-Mar

A Além-Mar faz 50 anos, neste número de Janeiro. Começou em 1956 e, nessa altura, chamava-se Revista dos Missionários Combonianos. Tem vindo a crescer, com o tempo. Hoje, é uma revista de grande qualidade. Já passou por adversidades, nomeadamente quando foi encerrada pela PIDE, em 1964. Regressou seis meses depois, mas sempre com um Coronel de lápis azul à perna. Sempre foi uma revista de intervenção, podem crer.

Gosto muito dos Combonianos e não é por causa da revista que fazem. É por serem padres diferentes. Talvez todos os missionários sejam parecidos, mas estes são os que conheço melhor, além dos padres italianos do PIM que estão na Guiné-Bissau. E são diferentes porque, sendo padres católicos, a evangelização não é a primeira prioridade. A primeira é a amizade e isso faz toda a diferença, seja aqui, seja no Sudão. Quem recebe ajuda de um amigo, recebe-a melhor e procura retribuir. Conheci e observei a acção dos Combonianos no Sudão, no Congo, no Quénia. E conheço os que estão em Lisboa e que fazem esta revista. Colaboro com eles, sempre que me pedem. É uma honra. É com orgulho que tenho o nome na lista de colaboradores da Além-Mar. Estão lá alguns dos melhores jornalista portugueses: Rui Araújo, José Goulão, Jorge Heitor, Francisco Sarsfield Cabral, Ana Glória Lucas, entre outros.
Parabéns à Além -Mar e aos que a fazem, pelos 50 anos de excelência.

Não Há Milagres na Terra Santa

Ariel Sharon morreu, mesmo se a máquina ainda obriga o coração a bater e os pulmões a respirar. Embora se esteja na Terra Santa, não deve haver milagres nesta história. Sharon não deverá ressuscitar, pelo menos para uma vida activa e participativa. Neste momento, os políticos da região traçam cenários e calculam probabilidades. As potências envolvidas na região já colocaram tropas de prevenção e os telefones não devem parar nos gabinetes diplomáticos.
Sharon deixa uma herança complicada. Deixa um país emparedado por um muro nojento. Deixa um processo de paz encalhado. Deixa um partido político dividido e outro mal-formado e órfão de pai. Os adversários políticos internos vão, agora, digladiar-se pela conquista do lugar vago. Para os adversários políticos externos, pouco muda. Os palestinianos já defrontaram todos os líderes israelitas. Venha quem vier, a luta será a mesma. Os palestinianos sabem que irão pagar caro o desaparecimento de Sharon, apesar de não terem qualquer responsabilidade no sucedido. Sabem que os políticos israelitas irão concorrer entre si para ver quem é o mais duro, o mais nacionalista. Muito provavelmente, os colonatos voltarão a Gaza. É quase certo que os militares voltarão…

Estive em Gaza em 1989. Já nessa altura, o território era um imenso campo de refugiados. Gaza deve ser o local do Mundo com maior índice de habitantes por metro quadrado. As casas empilham-se umas nas outras, em ruas estreitas por onde escorrem esgotos a céu aberto. É um sítio demente, stressante. Fui a Gaza para filmar parte de um documentário que fiz para a RTP sobre o 2º aniversário da Intifada. A primeira Intifada. Quando aparecíamos na rua, de câmera em punho, alguém sempre dava início a tremendas cenas de pedrada contra as patrulhas do exército israelita. Os palestinianos estavam sempre prontos para a luta. E sabiam aproveitar as oportunidades, de modo a economizar esforços. Deve ser assim, ainda hoje. Venha quem vier de Israel, eles já estão preparados para os enfrentar.

sexta-feira, janeiro 06, 2006

Excelentíssimo

Vi hoje Alexandre Quintanilha na televisão, num debate na RTP-N a propósito da necessidade de conservar os recursos aquíferos mundiais, condição sine qua non para a sobrevivência da humanidade.

Conheci Alexandre Quintanilha em 1986. Fui ter com ele a Berkeley, uma cidadezinha nos arredores de São Francisco, no norte da Califórnia, onde Quintanilha vivia e trabalhava. Tinha uma casa giríssima de madeira, numa encosta arborizada. Trabalhava na Universidade, onde dava aulas de biologia, e num laboratório de investigação científica onde comandava um grupo de cientistas em pesquisas esquisitas para o comum dos mortais. Digo esquisitas porque, imagine-se, naquele tempo, Quintanilha estudava o modo de controlar a acção dos glóbulos brancos no combate às infecções no organismo humano. Queriam aqueles cientistas malucos manipular os glóbulos brancos, levá-los a fazer coisas, como se fossem carrinhos tele-comandados. Foi isto que mostrei no documentário que fiz por lá, para a RTP, integrado numa série intitulada genericamente “Gente de Sucesso”.

Desde essa ocasião que fiquei com uma enorme admiração pela personalidade deste tipo. Para além do brilhantismo académico e científico de Alexandre Quintanilha, ele revelou uma determinada teimosia que me enterneceu. É que este homem nasceu em Moçambique, estudou na África do Sul, doutorou-se em Paris e foi trabalhar para os EUA. Nunca, até então, tinha vindo a Portugal e sempre manteve a nacionalidade. Português “à força”, malgrado ser filho de um deportado político, um oposicionista degredado para o norte de Moçambique pelo regime de Salazar.

Uma "renda" kosovar

Kosovo, 2001.
Tinha tomado um duche e esfregava as costas com a toalha. Entre as omoplatas tinha um furúnculo que me incomodava já há uns dias. A infecção tinha feito o furúnculo crescer e a pressão da toalha acabou por rebentá-lo. Fui ao hospital de campanha da tropa estacionada em Klina. O médico era um tipo bem disposto, com sotaque do Norte. Desinfectou a ferida, mas avisou logo que aquilo tinha de ser extraído.
No dia seguinte lá fui. Anestesia local, pinças e bisturi pelo buraco dentro, extracção do furúnculo. Ficou uma “cratera” na carne que foi fechada com linha de suturar. Uma semana depois tirei os pontos. Não ficou uma “renda” muito bonita, mas enfim… podia ter sido pior.
Aquele médico português atendia todos os que lhe batiam à porta, fossem civis ou militares, kosovars ou de qualquer outra nacionalidade. O hospital de campanha trabalhava 18 horas por dia… e, ainda, faziam atendimento ambulatório. Iam a escolas ou aldeias mais distantes de Klina. Numa escola, vi esse médico e alguns soldados-enfermeiros a lavar cabeças de miúdos, infestadas com piolhos. Era uma atitude fantástica e, só por isso, valia a pena aquela missão no âmbito da KFOR.

quinta-feira, janeiro 05, 2006

Um whisky que ficou por beber

Angola, Lunda Norte, Agosto de 1998.
Estávamos alojados em casa do chefe da polícia da aldeia de Loremo. Já tínhamos jantado e preparávamo-nos para embalar o sono com as habituais doses generosas de whisky, à boa maneira angolana. Em surdina, eu e o Carlos Santos comentávamos a beleza da mulher do dono da casa. A senhora era uma gazela de elegância e tinha um sorriso devastador.

Em dado momento alguém bateu na porta da casa. Era um militar. Confidenciou qualquer coisa ao chefe da polícia. Dez minutos depois estávamos de mochila às costas e equipamento de trabalho nos braços. Fomos levados com urgência para fora da aldeia, até um local onde dois soldados nos esperavam. Depois, seguimos a pé, por um trilho no mato. Noite cerrada, caminhávamos depressa, quase a correr. Descemos uma montanha, passamos um rio por cima de um tronco deitado, passamos por um acampamento de kamangueiros, subimos outra montanha. Lá no alto, outro veículo militar que nos levou, sob escolta, até Cuango, a uns 50 quilómetros de Loremo. Só lá chegados nos disseram que a aldeia de Loremo estava a ficar cercada pela UNITA e que se esperava um ataque ao amanhecer. Puseram-nos fora dali no último minuto possível. Em Angola, as partes combatentes, nunca gostaram de testemunhos incómodos.

quarta-feira, janeiro 04, 2006

Sudão, os Nuba (1)

Lokichokio é uma aldeia com uma grande pista de aviação. Fica no norte do Quénia, mesmo em cima da linha de fronteira com o Sudão. Em Lokichokio, as ONG de ajuda humanitária e as agências de espionagem montaram uma enorme base para operações em toda a África Central. É de lá que partem voos humanitários que carregam comida, medicamentos e roupa para o Sudão, o Uganda, o “DR” Congo (ex-Zaire), a República Centro Africana (ex-Alto Volta), Somália, Etiópia, Eritreia… enfim, para essa enorme mancha de instabilidade, fome e miséria que é a África Central.
Das duas vezes que estive no Sudão, foi em Lokichokio que as viagens se iniciaram.

A primeira dessas viagens foi em 1999. Reportagem nas Montanhas Nuba sobre a situação humanitária em que vive o povo Nuba, que resiste ao genocídio perpretado pelo exército do governo sudanês. As Montanhas Nuba ficam na região chamada Kordofan, para nordeste do Darfur. Os Nuba vivem cercados nessas montanhas pelo exército. Ninguém entra, não se sai de lá, a não ser de avião, em voos clandestinos que as ONG arriscam. Foram quase 5 horas num velho teco-teco carregado de sacas com sorgo, a violar o espaço aéreo sudanês e a aterrar numa pista improvisada em local secreto (na foto) a que o piloto chamava Foxtrot, simplesmente.

To Be Or Not To Be

Prefiro um candidato a Presidente da República assumidamente apoiado por um ou mais partidos políticos, que um que pretenda fazer crer não ter esses apoios.
Os candidatos da esquerda não negam as suas origens. O velho Soares não as renega. É republicano, maçon, socialista, laico, democrata. É bon vivant, improvisador, animal político. É arrogante, mandão. Mas não finge.

Cavaco, que também já não é nenhum menino, finge que o PSD e o CDS apenas rezam pela sua vitória e que não puseram as máquinas partidárias a colar cartazes, a angariar assinaturas e a arrecadar financiamentos. Cavaco é o candidato que mais dinheiro gasta nesta campanha. Quase 4 milhões de euros, segundo o orçamento oficial. E esse dinheiro, de onde vem? De contribuições individuais, diz o candidato. Mas quem são esses contribuintes? Acredito que muitos sejam populares empolgados por qualquer coisa mas, por certo, não faltarão lá os empresários e banqueiros cujos contributos apenas se fazem em nome dos interesses das corporações ou dos negócios que representam.

terça-feira, janeiro 03, 2006

A Escola

É uma obra notável, não apenas pela dimensão adquirida ao longo dos anos, não apenas pelo impressionante número de 600 alunos que a frequentam, não apenas pelo facto da escola estar também aberta à alfabetização de adultos, não apenas porque além das letras também se dá sopa naquela escola… mas porque, além de tudo isto, a escola do Padre José Júlio foi erguida no local mais improvável, na ocasião menos possível… é que, naqueles anos, já perto do fim da guerra civil, a guerrilha intensificou as acções militares nos arredores da capital moçambicana.
A Freguesia de Benfica ainda hoje é a última da cidade. Para lá da última casa, era a terra de ninguém, o campo das batalhas. Milhares de refugiados montaram tendas ou ergueram palhotas à volta da Igreja de Santo António. O pequeno bairro periférico transformou-se, por isso, num dos maiores bairros da lata de Maputo, com tudo o que isso acarreta. Pobreza, ignorância, crime e abuso. Tudo isto e mais uma escola.

Quinze anos depois, o Padre José Júlio persegue o mesmo sonho. A escola está lá, mas é preciso mantê-la de pé, não deixar que o telhado das salas de aula tenha demasiadas goteiras, substituir os vidros que se partem, as lâmpadas que se fundem, as tábuas que o caruncho come. É uma luta que não dá tréguas. É uma guerra quase sem aliados. Estranhamente, as ajudas são poucas. Para além da caixa das esmolas da igreja, quase nada mais existe. O Estado moçambicano não tem o suficiente para as escolas públicas, quanto mais para apoiar escolas privadas, mesmo que sejam de missões religiosas. Talvez, o Estado português pudesse ajudar… mas também parece que não. Quando o Padre José Júlio construiu a escola, o Instituto Camões forneceu uma pequena biblioteca. E ficou por aí, o apoio institucional de Portugal. Os livros da biblioteca nunca mais foram renovados ou acrescentados, sequer. E não deixa de ser verdade que é português que se aprende na escolinha da Igreja de Santo António de Benfica.

Curiosamente, o dinheiro que possibilitou a construção da escola foi doado pela cooperação norueguesa.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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