Cheguei a Bondo a bordo de um pequeno Antonov tripulado por pilotos russos ao serviço de Jean Pierre Bemba, o presidente do Movimento de Libertação do Congo, um dos principais grupos rebeldes que lutavam contra o regime de Joseph Kabila.Bemba e o MLC, ainda hoje, controlam quase todo o Norte do Congo. Controlam a vida de perto de 8 milhões de seres humanos. É um regime bruto, de olhos postos na extracção das riquezas, pouco preocupado em minorar as dificuldades da população. Entre Bondo e Gbadolite, a capital da zona Leste do país e a cidade onde vive Bemba, os hospitais não têm medicamentos, as escolas não têm cadernos, os agricultores não têm sementes nem gado. É um país delapidado.
A paz, assinada recentemente, não alterou nada na vida das populações, embora a guerra esteja numa pausa. O tratado de paz foi, essencialmente, um acordo de divisão das riquezas do país.

Quando o avião de Bemba aterrou, terminou o suplício do padre Neres e das crianças da escola dos missionários de Bondo. É que foram eles os “escolhidos” para construir a pista, para que o Chefe Bemba pudesse aterrar ali com o seu avião. Durante semanas, a escola fechou. Oito horas por dia, os miúdos e Neres capinaram uma recta de mil e tal metros de comprimento por 30 de largura. Depois do mato derrubado e retirado, foi preciso alisar a terra, retirar pedras e raízes. Não podia acontecer nenhum acidente na aterragem daquele avião. Neres e as crianças respondiam com a própria vida por qualquer coisa que pudesse suceder a Bemba.




Com ela morreram outros três jornalistas de diferentes nacionalidades: Harry Burton, 33 anos, camera-man da Agência Reuters; Azizullah Haidari, 33 anos, afegão, repórter fotográfico da Agência Reuters ; Julio Fuentes, 46 anos, repórter espanhol do jornal El Mundo.
A alimentação era um problema. A maior parte das vezes não havia tempo para comer, durante o dia. E era muito difícil encontrar comida numa cidade sem restaurantes. Só depois da reportagem editada e enviada para o satélite começávamos a descontrair. Então, a fome apertava.









Aquele médico português atendia todos os que lhe batiam à porta, fossem civis ou militares, kosovars ou de qualquer outra nacionalidade. O hospital de campanha trabalhava 18 horas por dia… e, ainda, faziam atendimento ambulatório. Iam a escolas ou aldeias mais distantes de Klina. Numa escola, vi esse médico e alguns soldados-enfermeiros a lavar cabeças de miúdos, infestadas com piolhos. Era uma atitude fantástica e, só por isso, valia a pena aquela missão no âmbito da KFOR.




