Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











domingo, julho 05, 2009

Pobre não é cidadão


Tem 50 anos e é mãe de duas adolescentes. Ambas estudam mas uma tem uma doença crónica detectada aos quatro meses de idade, razão pela qual a mãe recebia um complemento de abono de família, uma pequena ajuda do Estado para auxiliar nas imensas despesas médicas. A mãe ficou, agora, desempregada. E ao mesmo tempo que ficou desempregada viu o complemento de abono de família ser cortado. Porque o dito complemento só é pago quando existem descontos para a segurança social. Desempregada, a mãe deixou de fazer descontos… pois a miúda doente crónica deixou de ter direito à ajuda do Estado. Até custa a acreditar...
A frieza deste Estado é inaceitável. Mas se pensarmos que o Estado é aquilo que as pessoas querem que seja, então é a nossa frieza que é inaceitável. Uma frieza que se traduz, tantas vezes, em actos comezinhos e aparentemente distantes deste estado de coisas…
Tenho um amigo que faz parte de uma agremiação recreativa, um clube de bairro onde os sócios cruzam saberes, experiências e anedotas sobre a vida. Um destes dias houve eleições para a direcção da agremiação. O meu amigo não pôde votar porque deixou de pagar quotas desde que deixou de ter dinheiro quando faliu a pequena empresa dele. A falência não o empobreceu apenas, tirou-lhe direitos de cidadania também. Acredito que o magoou bastante ter sido impedido de votar.
Ele e ela têm direito a outro tipo de solidariedade, tanto do Estado como da sociedade.
E não falo de caridade.

5 comentários:

Fada do bosque disse...

Mas andamos há mais de trinta anos, numa anarquia, disfarçada de democracia!...
Enquanto ao cidadão, lhe for sonegada a Educação, na verdadeira acepção da palavra, enquanto não praticarmos a Cidadania, enquanto não soubermos destrinçar entre Direitos e Deveres, a bosta da sociedade portuguesa, afundar-se-á, cada vez mais no lodaçal da indiferença perante a injustiça, a corrupção e a podridão.
Isto começa no mais alto cargo do poder, e vem por aí abaixo qual espiral medonha, ampliada pelos mídia, deturpada por estes, tornando as minorias conscientes, as que poderiam operar a mudança, em ilhas completamente isoladas e inoperacionais. Desgastadas pela indiferença geral, pelos truques baixos e pela política do bota abaixo.
Não, que eu tenha perdido totalmente a "esperança", de que um dia a sociedade, rebente pelas costuras de tanta indignação.
Que ainda há excepções, sim há, mas como diz Jack Jonhson - "Where'd all the good people go?
I've been changing channels
I don't see them on the TV shows".
Ou seja, podemos tentar defender a justiça, a educação, o civismo, os Valores Fundamentais, que se o poder é corrupto de nada serve.
Foi esta Liberdade, o Direito à Cidadania que o poder nos sonegou.
É este tipo de poder que a sociedade deveria pulverizar, volatilizar ou destruir.
É isso que mais cedo ou mais tarde irá acontecer, porque pedra mole em água dura, tanto dá até que fura.
A bem, já não irá concerteza, mas que seja à força, se tal necessário.
E Nietzsche tinha toda a razão, naquele final de século tão turbulento, quando disse:- Só o Caos pode gerar a Ordem.
Não é disso que estamos todos à espera?!

(c) maioria silenciosa: P.A.S. disse...

TAXEM-SE OS DESEMPREGADOS
Desempregados só poderão deduzir no IRS metade das prestações

Brilhante como este governo é, em especial o seu ministro das finanças, e muito preocupados com a situação social que ouviram vagamente falar por interpostas pessoas, donos de estranhas fundações e senhores de muitas ilusões, fazendo jus a um estranho socialismo neo-liberal, agora apodado de nova via, ainda conseguirão TS e JS pôr os desempregados sem rendimentos a pagar impostos.

Fada do bosque disse...

Perdão; água mole em pedra dura, tanto dá até que fura.
Que gaffe!...

Manuela Araújo disse...

Gostei da mensagem.
E particularmente da frase "Mas se pensarmos que o Estado é aquilo que as pessoas querem que seja, então é a nossa frieza que é inaceitável".
Muito acertada. Porque o Estado somos nós, e se queremos que quem nos governa mude, temos de mudar primeiro.

Blondewithaphd disse...

É inqualificável, mas o que é que nós, numa sociedade não mobilizada, podemos fazer? Gritar nos blogs, escrever artigos de opinião (aqueles que têm vozes públicas) e mais o quê? O problema não é só o Estado disfuncional e retrógrado que temos, é também o nosso crónico encolher de ombros e a popularização do "longe da vista, longe do coração". O Estado somos isto (e nós também).

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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