Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











quarta-feira, agosto 05, 2009

(o meu) Programa eleitoral

Na maioria dos casos, o patronato português julga que só pode haver empresas estáveis e produtivas com trabalhadores instáveis, amedrontados e permanentemente ameaçados pelo desemprego. Esse modelo de relação laboral funcionou relativamente bem no início do século passado até ao 25 de Abril de 1974, é o modelo que fez o crescimento dos nossos sectores tradicionais da actividade económica, o têxtil e o calçado, mas é um modelo completamente esgotado. Hoje, as t-shirts e os sapatinhos de design italiano são feitos na China ou na Índia porque, meus senhores, por mais baixinhos que sejam os salários que se paguem a operários portugueses, serão sempre salários muito mais altos que os que recebem os trabalhadores quase escravos desses países asiáticos.

Eu, que percebo pouco de economia e quase nada de finanças… ainda não entendi porque diabo deixámos de ter agricultores e pescadores… actividades que poderiam empregar muitos milhares de pessoas e onde podíamos jogar com vantagem, já que temos o grande lago do Alqueva para regar campos agrícolas e a maior Zona Económica Exclusiva onde quase só pescam barcos espanhóis e franceses. Chateia-me ver tanta água desperdiçada… Ainda hoje comprei no Continente um pargo mulato espanhol, cinco douradas de aquacultura espanholas, uma perca do Nilo (será egípcia?) e um polvo grego. Peixinho portuga só vi carapaus… mas não os achei com boa cara.
Vou a França e à Alemanha e só oiço falar bem da capacidade de trabalho dos operários portugueses que por lá labutam nas metalúrgicas e nas linhas de montagem. Se labutam lá, poderiam fazê-lo aqui… digo eu, não sei. Mas, aqui, só oiço falar na criação de call centers… que raio de coisa se produzirá num sítio desses?... Será isso um serviço exportável? Se calhar é… mas não impede que continuemos a importar 90% do que necessitamos para comer, para vestir, para viver.
Preocupa-me que em Portugal se claudique nas condições laborais. Os jornalistas do Público e os operários da Auto Europa aceitaram trabalhar por menos dinheiro, mas não acredito que esta crise se vença agravando as condições de trabalho das pessoas… e considero indecente que os capitalistas, que desde sempre acumularam riqueza à custa de quem trabalha, queiram agora que sejam os trabalhadores a pagar uma crise para a qual nada contribuíram.
É neste enquadramento que considero inaceitável que alguns opinion makers continuem a propalar a ideia de que a legislação laboral portuguesa é muito rígida, restritiva, impeditiva para o desenvolvimento dos negócios. É mentira. Quem já emigrou sabe bem que, por exemplo, em França é muito mais difícil despedir um funcionário do que em Portugal. É claro que esses opinion makers nunca foram despedidos à pala de um mirabolante processo colectivo de despedimento ou de uma alegada extinção do posto de trabalho..
Nas próximas eleições legislativas, votarei em quem me der garantias de ir tentar mudar este estado de coisas.

9 comentários:

joshua disse...

Brilhante, CN. Subscrevo e sublinho.

Abraço

Fada do bosque disse...

Aqui está o seu dom... Carlos.
expor da forma mais simples acessível e lúcida, o retrato da sociedade portuguesa... Amargurante.
Dá ao mesmo tempo um sentido global, onde coabita, a nossa economia... Vergonhoso.
Mas os culpados somos nós, que com medo da mudança, preferimos fechar os olhos e deixar que o nosso país, seja um ninho de víboras... tudo à volta é estéril.
Se todos os países, em caso de necessidade, resolvessem fechar fronteiras, optar por políticas proteccionistas, morríamos todos de fome. Será que ninguém vê isso?!
É tudo uma mentira! tudo o que nos rodeia. Mas o demo tem muito poder e não deixa que os portugueses, tentem no mínimo desobedecer-lhe.
É que esta Terra tornou-se para ele, um de seus habitats preferidos.
O saque decorre, até este pedaço de Terra chamado Portugal, se transformar numa tundra desértica.
Concordo plenamente com todas as suas palavras.
Mudança é essencial!
Deixar de ter medo e "desobedecer"... também!

andrea disse...

Ai as garantias Carlos.
Ai as garantias...
Apetece-me fazer como os bancos que para te emprestarem um chouriço te pedem um porco "de garantia".
Claro que a seguir vem a fé, o acreditar porque sim, porque as atitudes passadas e os exemplos sao"garantia".
Talvez por ai mas eu do alto da minha vetusta idade sou, infelizmente, um céptico.
Isto em termos de resultados praticos, agora como meta a atingir, como fundo de razao, venham os moinhos e as lanças de papelao que eu vou em frente contra ventos e marés.
Algo vai ter mesmo que mudar porque o modelo esta esgotado e o que se perfila como soluçao nao passa de um meio para adiar o fim de um ciclo.
Anda toda a gente alienada a olhar para o umbigo, e nao se aperceberam que o sol se esta a por e que a noite vai chegar muito em breve.
Temos que nos preparar para as sombras,nao sei como mas temos.
Abraços.

Fernando Teixeira disse...

Ninguém lhe dá nem garante a estabilidade politica e económica. O mundo está "roto" de engº advogados políticos com sentido de arranjar um bom emprego. Como temos que contar com os trabalhadores também é assim com o patronato. A visão de que os partidos de extrema esquerda é que são honestos e responsáveis é e sempre foi uma falsa questão.
Sempre foram e serão votos perdidos na extrema-esquerda. É preciso lembrar a Coreia do Norte, China, Venezuela, antiga U.Soviética,etc. Por exemplo na China não há exploração dos trabalhadores?
Se me dizem que é mais útil um voto no BE e ou no PCP aí estarei de acordo. Aliás são necessários.
Quem me garante que o Sr. Garcia não se irá corromper quando tiver alguma voz na matéria? São todos assim. ´~ao existe soluções o que´pode haver é algumas soluções de governabilidade controlada.

Monica disse...

Pelo panorama geral, acho que a solução é formares um partido ...

Fernando Teixeira disse...

Olá. Formar um partido politico. Como e com que nome. Da extrema esquerda até ao centro direita já temos só falta da extrema esquerda. Há, agora estou a lembrar-me, em Portugal é proibido partidos das extremas, segundo o Bôbo da Madeira João Jardim. Este é que é um democrático. A este estou-lhe a dever um cabaz de tomates, pelo insulto que deu a quando foi aprovado a lei do aborto.

Manuela Araújo disse...

O blogue Sustentabilidade É Acção atribuiu a este blogue o prémio COMPROMETIDOS Y MAS 2009.

CN disse...

Caro Fernando Teixeira, se leu bem o que escrevi, há-de ter reparado ue não me coíbi de criticar a China, a propósito do inaceitável dumping social que o estado chinês pratica, prejudicando o Mundo inteiro e violando sem dó os direitos dos trabalhadores chineses. O que por lá se faz não é comunismo, é capitalismo de estado. Pelo que sei, o Garcia Pereira também não tem hesitações em condenar a China, pese embora ser dirigente de um partido maoísta-leninista... embora esta seja uma designação fora de qualquer contexto actual. Sabe porque acho que o Garcia Pereira jamais se deixará corromper? Porque já teve demasiadas oportunidades e nunca aproveitou nenhuma, ou julga que um adsvogado de trabalho como ele nunca foi tentado com envelopes gordos das multinacionais farmacêuticas?
Abraços.

Fada do bosque disse...

Se os prémios se transformassem em "graveto", bem que o Carlos já tinha aí uma boa maquia! ahahahahaha
Assim, a coisa pouco adianta.

Mas pronto, é sinal que o seu blogue é dos melhores! :))

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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