Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











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quinta-feira, janeiro 07, 2010

qui trompe qui?


Sócrates foi a Paris fazer pela vida. Desconheço em absoluto de que tratam as negociações com Sarkozy… e suspeito que, seja lá o que for, o francês não dará muito crédito ao português.
Os franceses têm uma ideia generalizada sobre nós que abona pouco a nosso favor. Em tempos, sentado ao balcão de um bistrot parisiense, escutei a conversa de dois vizinhos. Um deles tinha um carro velho que queria vender. O outro dizia-lhe que iria ser difícil desfazer-se do calhambeque. O primeiro explicou que tinha um esquema pensado: iria pintar de fresco o carro e colocar-lhe um ailleron… e, depois, “je vais faire un portugais!” Logo nós, que temos a mania de que somos mais espertos que os outros… no centro da Europa somos tomados por lorpas.
Bom. Põe-te a pau, Sócrates! Não vás na conversa desse tipo.

sábado, novembro 21, 2009

L'épouse du président


O nu artistico de Carla Bruni leiloado ontem em Paris, não teve comprador.
A venda decorreu na sala 6 do luxuoso Hôtel Drouot-Richelieu, foram muitos os mirones presentes, mas nenhum com intenções de abrir os cordões à bolsa.
Quando Bruni se casou com o presidente Sarkozy, a mesma foto foi vendida em Nova Iorque, num leilão da Christie’s, pela bonita soma de 91 mil dólares (para aí uns 80 mil euros).
Não sei qual a causa do fiasco do leilão de ontem… mas estranho, estranho mesmo, é que nem o marido licitou a fotografia da mulher.

terça-feira, setembro 29, 2009

Suicídios de trabalhadores


Em 18 meses, 24 suicídios. Dá cerca de 1,33 mortes por mês. Uma boa média, para a France Télécom… a PT francesa.
Os funcionários da France Télécom andam a matar-se, o que é algo que dificilmente alguém poderá aceitar calmamente. Nas cartas de despedida, todos falam que não aguentam mais as condições de trabalho, não aguentam mais o clima laboral, não aguentam mais a pressão da empresa, os objectivos inalcançáveis, a prepotência das chefias. Não aguentam a tal ponto que se matam. O último foi um tipo de 51 anos (a minha idade), pai de duas crianças, transferido para um call center da empresa depois do seu posto de trabalho ter sido extinto.
Em Portugal julgo que ainda não aconteceu nada de semelhante. É verdade que, por exemplo, na PSP e na GNR há, com frequência, vagas suicidas… também provocadas pela pressão exercida sobre as pessoas, pela desilusão, pela vida miserável e pela falta de perspectiva de sair dela.
Estas situações são o lado mais negro da exploração a que os trabalhadores estão tantas vezes sujeitos. Levar um trabalhador à morte é algo de indesculpável.

segunda-feira, setembro 21, 2009

Fome


A propósito de um email que me enviou um amigo brasileiro, lembrei-me do Metro de Paris. Não é raro escutarmos músicos de bom calibre que tocam nos corredores subterrâneos parisienses. O Metropolitano francês até os acarinha, com o tempo eles constituíram-se numa atracção turística e o Metro sabe bem que o som de um bom violino ajuda a estabelecer um ambiente mais harmonioso, mesmo se quem passa mal escuta a harmonia.
Mais do que uma vez dei comigo a pensar quem seriam aqueles músicos. Cheguei até a propor aos repórteres que trabalhavam comigo em Paris que fizessem reportagens sobre os músicos do Metro. Por acaso, acho que nunca fizeram… há sempre outras coisas que surgem e nos empatam as boas intenções. Mas, como ia dizendo, muitas vezes me interroguei sobre aqueles músicos. Muitos deles eram estrangeiros, tal como eu, emigrantes económicos vindos de todos os cantos do Mundo. Lembrei-me das histórias que ouvi contar ao Sérgio Godinho ou ao Jorge Palma, cujos acordes também ecoaram por aqueles corredores. E entristeci-me sempre ao reparar nas poucas moedas que iam caindo nos panos de feltro esticados no chão e na ausência completa de aplausos… e acho que essa deve ser a pior fome de um tocador de música, mesmo nos corredores do Metropolitano, a fome de aplausos.

quarta-feira, agosto 12, 2009

(o meu) Programa eleitoral - 4


Vamos então falar de Saúde.
Na semana passada fui ao oftalmologista com a minha filha Sara. Eu, há 4 anos que não fazia um exame aos olhos e a miúda está naquela idade em que as dioptrias aumentam acompanhando o crescimento da criança.
15 minutos a cada um e dê cá 110 € (55 each…). No meu caso, fiquei a pensar que mais valia ter ficado quieto, já que o médico não encontrou nada a assinalar e não tenho necessidade de mudar de lentes. O pior é que, como estou desempregado, os recibos não me servem para nada, já que sem rendimentos para declarar ao IRS não posso esperar qualquer recuperação destas despesas. Portanto, os desempregados não podem ir assim ao médico especialista quando acham que precisam. Temos de ir ao Centro de Saúde esperar por uma consulta com o médico de família, esperar que o senhor doutor ache bem passar uma credencial para a especialidade em questão e aguentarmos uns meses que nos chamem para a tal consulta com o especialista. Mas só pagamos as taxas moderadoras…
Comparando com França… o utente vai ao médico que quer, quando quer e paga por uma tabela estipulada pelo Estado. Se bem me lembro, consultas de clínica geral rondam os 20 € e as especialidades são pagas a cerca de 50 €. O médico passa obrigatoriamente uma factura que, poucos dias depois de ser remetida à Segurança Social é reembolsada em boa parte. Ou seja, uma ida ao médico fica em poucos euros… e não há urgências hospitalares entupidas.
Bom, nem tudo serão rosas no serviço de Saúde em França, mas mete o nosso num chinelo. Não sei por quanto tempo, porque parece que Sarkozy anda a pensar em "poupar" uns cobres ao orçamento do Estado e adivinhem lá onde será que ele vai cortar nas despesas...
Portanto… senhores candidatos a deputados, imaginando que se preocupam bastante com estes problemas reais da vida, aguardo pelas vossas promessas eleitorais... para decidir conscientemente em quem votar.

terça-feira, agosto 11, 2009

(o meu) Programa eleitoral - 3


Em Paris, a linha do RER-A (a linha A do comboio suburbano) serve cerca de 2 milhões de pessoas por dia. Nas horas de ponta, o comboio passa de 3 em 3 minutos. Para quem vive a 30 km de distância da cidade, o comboio é a grande alternativa a um bouchon de duas horas… É verdade que, às vezes, a circulação ferroviária sofre atrasos… é relativamente frequente acontecerem avarias ou tentativas de suicídio ou distúrbios entre passageiros que obrigam à intervenção policial e à interrupção da circulação, mas a alternativa continua a ser… um engarrafamento automóvel de duas horas. Além disso, o comboio é mais barato que o automóvel pessoal (o passe social mensal para a zona 5 custa menos de 100 € e é o mais caro), o comboio é muito menos poluente e, quando se vai sentado, sempre dá para ler o jornal ou algumas páginas de um livro enquanto não se chega ao destino.
Tudo isto para vos dizer que gostaria de ver algum dos candidatos a deputados defender soluções para as acessibilidades dos cidadãos ao centro dos grandes centros urbanos, principalmente Lisboa e Porto. Estranho que se fale tão pouco nisto… na necessidade de alargar a rede de metropolitano, na necessidade de se diminuir o consumo de gasolina e gasóleo, em fazer com que se deixe de perder várias horas por dia em engarrafamentos para ir para o emprego e voltar para casa. Nem só de TGV vive o transporte ferroviário…

quinta-feira, junho 04, 2009

Como o Le Monde fala de nós


Au Portugal, les "recibos verdes" incarnent l'extrême précarité du travail – titula hoje o jornal francês Le Monde, revelando uma originalidade vergonhosa que em França não existe.
Não que em frança não exista muito trabalho precário, temporário, em part-time, mas o que não existe é um regime laboral onde o trabalhador não só está completamente desamparado face às prepotências patronais como abandonado pelo próprio Estado, não beneficiando da maioria dos direitos que cabe a um assalariado.
Em França não existem recibos verdes. Nem de cor nenhuma. O que existe é o chamado CDD – contrato de trabalho a termo – que pode ser celebrado por apenas um dia. Se uma empresa precisa de alguém apenas por 1 dia, ou para suprir uma falta pontual, celebra esse contrato de trabalho com o trabalhador e, assim, tanto a empresa como o trabalhador pagam os respectivos impostos. A empresa cumpre com a sua responsabilidade social, o trabalhador vai descontando para a reforma, para o fundo de desemprego, para a segurança social. Trata-se de um regime bastante mais equitativo que esta escravatura a recibo verde a que estamos sujeitos em Portugal.
O artigo traça um panorama negro para os trabalhadores portugueses : « pour le Portugal plus de chômage, plus de précarité, moins de pouvoir d'achat, le tout avec un déficit public et une dette creusés. »

quarta-feira, janeiro 07, 2009

Luso Jornal



O Luso Jornal não é daquelas "folhas de couve" que só existem para vender publicidade barata. Ao contrário da maioria das publicações existentes nas várias comunidades de portugueses radicados no estrangeiro, o Luso Jornal é um órgão de comunicação social, onde se faz algum jornalismo, nem sempre bom, mas sempre bem intencionado.
O jornal tem edições separadas em França e na Bélgica, distribuição gratuita e acesso livre na net.
Carlos Pereira, o director, faz-me o favor de publicar umas cronicazecas que lhe envio volta e meia (para não perder a prática...).
Enfim, digo-vos isto tudo apenas para vos propôr uma leitura rápida, na página 2 do número desta semana...
Façam o favor de clicar aqui.

domingo, julho 01, 2007

Por cima e por baixo

Ouvi dizer que quando Paris foi ocupada pelo III Reich, Hitler foi ao Trocadéro para admirar a sua conquista la’ do alto. E’ bem possivel. Realmente, é lindo de se ver. E depois não é so’ a vista, mas a arquitectura dos edificios, os jardins, o restaurante do Museu do Homem e as empregadas que la’ trabalham, a animação que transforma o terraço num palco exotico. Tudo aquilo vale a pena. Ainda não se paga so’ por olhar.

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Por baixo do Trocadéro é o mundo dos “sans abri”, mamiferos de sangue quente que delimitam o territorio com marcas odoriferas, como fazem os lobos, mijando nos cantos estrategicos, para que os outros saibam que estão a trespassar terreno alheio. Ninguém se senta naqueles bancos.



sábado, junho 30, 2007

No metro


Sonolentos, macambuzios, dobrados, sisudos, tristes, os franceses enchem o metro todas as manhãs. Franceses? Alguns serão, mas ouve-se de tudo, russo, polaco, chinês, thai, wolof, castelhano, àrabe e portunhol. Mas quase sempre vão silenciosos. Dormitando mais umas migalhas a caminho do emprego.














Quase nunca olham pela janela porque, se olhassem, assustavam-se com os monstros que, na escuridão dos tuneis, espreitam a corrida das carruagens.

domingo, junho 24, 2007

Nas margens do Orge

E’ uma velha casa burguesa, herança de um avô.
Os netos não têm dinheiro para a manter em perfeitas condições e, assim, dividiram o palacete em pequenos apartamentos que alugam.
Foi construida em 1850, o tempo de Victor Hugo e de grandes convulsões sociais provocadas pela proclamação da Republica e a realização de eleições em que foi eleito Presidente da Republica o monarquico Louis-Napoléon Bonaparte que, pouco depois, iria liderar um golpe de estado para se auto-proclamar Imperador Napoleão III. Uma confusão dos diabos.
Desde então que a casa la’ esta’. Muito ja’ se viveu e morreu dentro daquelas paredes. E’ la’ que vive agora um amigo meu. Mas à cautela, arranjou um cão feroz para afastar os maus espiritos.

quarta-feira, junho 20, 2007

Clochard

Nunca se levanta antes das 7 da manhã. Mas depois dessa hora torna-se dificil conciliar o sono com o bulicio matinal da cidade. Deita-se no ultimo banco de pedra da estação. Imagino que ninguém fale com ele excepto, talvez, os da mesma condição.

Para quem procura casa, aqui, a “désocialisation’’ não é uma noção distante nem improvavel. E’ que os preços das casas raiam o absurdo. Apartamentos infimos, T0 ridiculos, não custam menos de 600 € por mês. Uma casa para uma familia de 4 pessoas parece ser algo luxuoso e quase inacessivel ao trabalhador comum. Os senhorios, aqui, não pedem menos de 3 meses de renda adiantados, querem ver os comprovativos de pagamento de impostos e não aceitam trabalhadores com contratos a termo. Ou seja, é facil ficar sem casa e passar a dormir na rua.

sábado, junho 02, 2007

Paris



Quando voltar a escrever aqui, será de lá.

Je pars demain. Retomo a profissão, enfim. Sempre há alguém que considera útil o meu contributo profissional. Vamos lá, então. Sinto que vou viver uma experiência marcante, naquela terra onde nasceram os conceitos de Liberdade, Igualdade e Fraternidade que moldaram os ideais de muita gente.

À bientôt.

sexta-feira, maio 04, 2007

Habeas Corpus

Encontrámo-nos em Nice, durante uns Jogos Mundiais de Jornalistas, um evento bienal organizado por uma associação internacional de jornalistas a que o Sindicato dos Jornalistas português costumava aderir.
Aquilo era sempre uma paródia e eu fazia tudo para não faltar. Daquela vez inscrevi-me na equipa de xadrez, mas acabei por ter de jogar futebol sob pena da equipa não poder entrar em campo por falta de quórum. Ela estava na bancada, a assistir ao jogo.
Nessa noite encontrei-a num cocktail. Começamos a conversar e nunca mais nos largámos. Até perdi a camioneta que trouxe a malta de volta para Lisboa. Tive de vir de comboio, no dia seguinte.
Umas semanas depois, namorávamos ao telefone. Eu em Lisboa, ela em Paris, onde trabalhava na embaixada do Canadá. Um dia, deu-me a louca e disse-lhe que no dia seguinte, ao meio-dia, estaria à espera dela debaixo da Torre Eiffel. Meti-me no carro, fui a casa enfiar umas t-shirts num saco e pus-me a caminho de Paris. Guiei 24 horas seguidas, mas ao meio-dia estava debaixo da Torre Eiffel. Ela apareceu à hora marcada. Foi um beijo muito louco.
Foi em 1983 e não sei porque me lembrei disto agora. Mas deu-me uma saudade de Paris. É uma cidade onde se pode ser feliz.
A foto é de Robert Doisneau.

quinta-feira, maio 03, 2007

A exaltação

Não vi o debate, mas na reportagem do Paulo Dentinho (hoje, no programa da manhã da RTP) ela aparecia indignada, com o tom de voz um pouco elevado. Logo o adversário lhe aconselhava calma, porque a exaltação parece mal, conforme está convencionado e ele tentou tirar partido disso. E ela respondia-lhe que não estava enervada, que estava, apenas, indignada, que mantinha intacta a sua capacidade de revolta, como quem diz que continua a ser gente, apesar de estar ali a disputar o poder total de uma das nações mais importantes da Europa.
Porque parece mal aparecer enervado num debate político televisionado? Os nervos à flor da pele denunciam fraquezas escondidas? Pois eu acho que essa é mais uma convenção estipulada pelos cínicos, por aqueles que nunca se zangam porque são capazes de todas as cambalhotas e contorcionismos para se manterem à tona. Gosto de gente que se zanga e que se enerva, que se indigna e se escandaliza, se revolta e luta por aquilo em que acredita. Julgo que era disso que se tratava no debate entre Ségolène e Sarkozy, naquele extracto que apareceu na reportagem do Paulo Dentinho. Ela defendia uma lei que, quando fez parte do governo, tinha implementado em defesa dos direitos das crianças fisicamente incapacitadas, uma lei que ele desmantelou em nome de um liberalismo económico pouco sensível aos problemas das pequenas minorias da população. Se eu fosse francês, votaria em Ségolène.

segunda-feira, abril 23, 2007

Dans le divan

Em 2002 falou-se “no fim da democracia” quando o desinteresse do eleitorado francês deu espaço à extrema direita de Le Pen que chegou a meter medo ao sistema democrático.
Agora, parece que os franceses se reconciliaram com a política, ou com os seus políticos, foram votar em massa e deram uma tareia eleitoral a Le Pen, como ele nunca deve ter imaginado.
Outro pormenor interessante foi o surgimento do terceiro elemento. Durante a campanha eleitoral, a candidata Ségolène Royal terá dito que François Bayrou era um homem “sem cadeira”, querendo dizer que ele não tinha lugar naquela luta pelo poder, que ela pretenderia disputar apenas com Nicolas Sarkozy. Como se vê, a senhora enganou-se bastante. Ironicamente, Bayrou sentou-se num confortável sofá e, agora, espera que Ségolène se chegue ao pé dele para negociar os tais 7 milhões de votos que amealhou nestas eleições. Como cavalheiro que deve ser, Bayrou certamente cederá algum espaço do seu sofá para que Ségolène se sente a seu lado e conversem sossegadamente. E se ela traçar a perna, tudo poderá acontecer… na segunda volta a 6 de Maio.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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