Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











quinta-feira, janeiro 04, 2007

Também se pode ser feliz, em Bissau

Jantares de amigos sempre são pródigos em histórias. Neste tipo de encontros, acabamos por recordar histórias antigas que, por alguma razão, nos marcaram. Às vezes, surgem novos fascículos…
O padre Daniel, missionário italiano do PIME, radicado há muitos anos na Guiné-Bissau, é um homem que jamais esquecerei. Se lerem estes posts antigos perceberão porquê.
Sempre que voltei a Bissau procurei por ele. É um tipo bom conversador e muito simpático. Alto, bonacheirão, gordinho, sorridente. Tinha sempre coisas novas para dizer. Às vezes meras curiosidades, outras vezes verdadeiras preciosidades da política local, informações muito úteis para quem procura enquadrar-se no ambiente local.
A última vez que lá estive, em 2004, para a cobertura das eleições legislativas para a TSF, logo nos primeiros dias fui a Antula procurar o padre Daniel. Não estava, disse-me um outro padre. Que tinha sido levado de urgência para Roma, muito doente do coração e nem se sabia se iria salvar-se. Fiquei destroçado com esta notícia, dita de tal forma que me convenci de que jamais voltaria a vê-lo…
No jantar do Zé, a Marta Jorge, delegada da RTP, contou-me o novo fascículo desta história. De facto, o padre Daniel tinha ido para Roma, por causa do coração. Mas a doença dele chamava-se paixão e, apesar de às vezes o mal ser mortal, o Daniel queria mesmo era viver e não corria risco de vida. Aconteceu, simplesmente, que o padre Daniel se tinha apaixonado por uma mulher, uma médica cubana, também ela a viver em Bissau há anos. Em Roma, foi mantido num retiro, isolado, durante ano e meio, numa tentativa de cura pela força. Não resultou. Voltou a Bissau, onde a mulher continuava à espera dele. Abandonou o sacerdócio, casaram e lá vivem felizes, em Bissau, o italiano e a cubana. Adorei saber isto. Fiquei tão contente que nem vou levar a mal ao padre que me enganou de modo tão cruel. Perdoo-lhe de boa vontade.

10 comentários:

Lopes disse...

Mantido num retiro durante ano e meio?! Mas foi contra sua vontade, ou aceitou a tentativa de "cura pela força"? No século XXI, a Igreja ainda faz este tipo de coisas? Incrível... Vá lá não se terem lembrado de choques eléctricos... Mas o amor vence sempre. Não é o que a Igreja prega? LOL

Ida disse...

És bom rapaz! Só pode ser quem se solidariza assim com apaixonados. Mas apaixonados são mesmo uma espécie irresistível. Vai ver que é pelo brilhosinho nos olhos.;)

VN disse...

Gosto destes teus amigos missionários.
Gosto de histórias felizes !

inominável disse...

que história... felizmente nunca me submeti a esse tipo de terapia... é que "longe da vista, longe do coração" é, no mínimo, uma mentira cruel... é é

-pirata-vermelho- disse...

O padre Daniel parece ser um resistente - deu uma lição à padralhada maior e também a muito boa gente

Ida disse...

Adorei o termo "padralhada"... sim senhor pirata!

Maria disse...

Fantástico conto, longe das guerras, fugindo do mundo, no século do egoísmo ainda há quem páre tudo por amor. Felizmente.

A M Sousa disse...

Felizmente ainda há luar!
Num mundo de intrigalhada, de ódios, de desamor, de guerras cujos odores tresandam ao pestilento peróleo, é bom conhecer estas histórias fascinantes protagonizadas por quem ama verdadeiramente a vida.
Obrigado por este belo naco de poesia, Carlos Narciso!
A M Sousa

isabel victor disse...

Ainda há quem pense com o coração ...

Uma bela estória ...

Mesmo ontem, fui consultada no hospital, por um atencioso médico guineense. Começamos a conversar ... (a consultar-nos) e ele lá me esteve a falar dos últimos anos de cardiologista em Portugal,da sua vida dividida, das saudades da Guiné, mas também da pouca vontade de voltar para a incerteza ...

Lá saí com um receituário de exames e com uma " mão cheia " de notícias frescas da Guiné, contadas na primeira pessoa. Foi um fim de tarde mais tranquilo do que esperava, mas ...
cá fora, tinha uma fila capaz de me devorar pela espera !

jawaa disse...

Sem «lamechices», os seus escritos encantam-me. Que estória bonita. com final feliz, como eu gosto.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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