Depois, na TSF, onde trabalhei durante 2004, aprendi a valorizar o som ao pormenor. A rádio exige sons limpos, audíveis, palavras bem soletradas. A rádio pede-nos textos descritivos, que substituam a imagem que não existe, mas que se forma na cabeça de quem ouve. A rádio pede-nos sons luminosos, como o crepitar das chamas nos fogos da Arrábida, o chape-chape do Tejo contra o costado dos botes da pesca artesanal, o tremor na voz de quem vai ficar sem a barraca no Bairro Estrela d´Africa, a exaltação contida de quem vai ficar sem o emprego na Docapesca, o tic-tic-tic da agulha eléctrica do tatuador no Vale das Almas (memórias soltas dos trabalhos que fiz na TSF). O pior que pode haver em rádio é ruído na comunicação. É por isso que sempre detestei aqueles momentos dedicados à bolsa, em que alguém despeja uma catadupa de palavras estranhas e pouco perceptíveis sobre o sobe e desce, as percentagens, os ganhos e perdas, das empresas e dos índices de não-sei-de-quê. Aquilo deve ser bem pago pelos patrocinadores, mas, na minha opinião, não faz sentido em rádios generalistas, julgo que só afugenta ouvintes.
O som é, portanto, da maior importância para a percepção que temos da vida. Como já repararam, há sons que nunca esqueci, como o do serrote na tíbia do senhor Nicolau. Estou-me a lembrar, também, por exemplo, de um som estranhíssimo que, julgo, a maioria das pessoas nunca ouviu. O som do caranguejo. O caranguejo emite sons, baixinho mas emite. Há uns anos, há muitos anos, de facto, estava com o Paulo

5 comentários:
You are amazing!
coitadinhos dos caranguejinhos...
Simplesmente bonito...não o grito dos caranguejos...mas sua sensibilidade para os SONS que descreveu.
Continue. Precisamos de si.
Carlos Duarte
Ao longo do texto fui seguindo o descritivo do pormenor sonoro, que também aprecio. Mas o comentário final foi igual ao da Inominável: coitados dos caranguejinhos!
Gostei ...
Abraço
Enviar um comentário