Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











quinta-feira, maio 31, 2007

Arquivos da Humanidade

Há um livro, recentemente editado, que deveria ser de leitura obrigatória para todos. Todos, sem excepção. Cada página desse livro é uma lição de coragem e desassombro.
Comprei-o agora e ainda nem o li. Mas fiz a experiência de o abrir à toa, aleatoriamente. Na página 282, por exemplo, li o seguinte:

“Ao que acabo de referir sobre a situação tão precária dos Direitos Humanos para boa parte da população mundial, como se já não bastasse, temos de acrescentar, como factor particularmente nefasto para a situação actual dos Direitos Humanos no mundo, a vigente, perversa e espúria tendência, assumida às claras, de se substituir a força do Direito pelo direito da força que gera, ipso facto, como corolário imediato e infelizmente amiúde observado, o surgimento de caldos políticos incentivadores ou permissivos à tortura com comportamentos particularmente desumanos, cínicos e hipócritas que importa desde já estigmatizar e arquivar na nossa memória colectiva a fim de que não possam ser negados amanhã por aqueles que os estimularam, defenderam e praticaram recorrendo a todo o tipo de manipulações, mentiras e demagogias fossem eles governantes, políticos, “pensadores”, analistas, jornalistas, polícias ou militares… Dispondo de arquivos, a sociedade humana democrática poderá confrontá-los, assim o entenda, com as suas atitudes passadas.”

O autor de “Gritos contra a Indiferença” é Fernando Nobre, presidente da AMI, uma daquelas pessoas de quem eu gostaria de ter oportunidade de ser amigo e não apenas conhecido.


quarta-feira, maio 30, 2007

Por solidariedade







Garantimos, no entanto, os serviços mínimos. Muito mínimos.
O cartaz foi emprestado pela vizinhança.

terça-feira, maio 29, 2007

O suspeito do costume

O anterior presidente do Congo, Laurent Kabila (na foto), subiu ao poder graças à ajuda militar angolana, disso ninguém tem dúvidas. O exército angolano ofereceu a Kabila uma brigada de 3 mil homens muito bem armados e treinados. Na maioria, esses homens eram antigos gendarmes catangueses, desejosos de vingar a derrota sofrida frente a Mobutu quando foi da revolta do Catanga.
Soube só agora que Kabila aceitou a ajuda desses militares mas que, logo após a vitória, em Maio de 1997, dissolveu essa brigada porque a consideraria perigosa por suspeitar que seria leal aos interesses angolanos.
Ora, se isto for verdade, isso significa que Kabila desconfiava do amigo angolano… e, assim, percebe-se melhor a forma como morreu assassinado em Janeiro de 2001.

domingo, maio 27, 2007

A propósito de sarjeta

A crónica do Miguel Sousa Tavares, no Expresso desta semana, fala da mixórdia informativa a que as televisões se têm dedicado, desde que desapareceu a menina inglesa na Praia da Luz, no Algarve.
Lê-se na crónica que a SIC é a campeã da mixórdia, com 212 notícias e 14 horas de cobertura, em vinte dias em que raras vezes houve uma verdadeira notícia para dar. A maior parte das vezes, os repórteres da SIC limitaram-se a dizer que nada se tinha passado, além de um passeio da mãe da criança pela praia com um peluche na mão ou de mais uma vigília na igreja lá do sítio.
Diz o MST que “uma não-notícia não é notícia em lado algum do mundo” e que o director de informação da SIC “sabe-o bem”. Ora, aqui é que o Miguel se engana…porque, na verdade, o homem já não sabe nada. Esqueceu o que lhe ensinaram, do mesmo modo como trocou amizades antigas pelos favores do patrão, mas isso é outra história.
Um dia, nos finais da década de 80, um repórter da RTP andava a cobrir a campanha eleitoral do MRPP. Foi até ao Porto, onde se realizava um dos comícios escolhidos para integrar essa cobertura noticiosa. Quando chegou ao Monte da Virgem, para montar a reportagem, sentou-se em frente à máquina de escrever e… nada lhe saiu. Não havia uma ideia naquela cabecinha para estruturar a reportagem. Era como se não tivesse acontecido nada. Um outro repórter, que também tinha ido de Lisboa mas para acompanhar a campanha do PC, viu o camarada enrascado e disponibilizou-se para o ajudar. Sentou-se ele em frente à máquina de escrever e disse ao outro para lhe resumir as imagens que tinha e lhe contar algo que lhe tivesse chamado mais a atenção. À medida que o enrascadinho ia balbuciando os acontecimentos, o outro ia escrevendo.
No final do dia, aquela reportagem do comício do MRPP foi a melhor do enrascadinho em toda a campanha.
Assim se fez uma carreira brilhante, não foi Sr. director de informação?

sábado, maio 26, 2007

O futuro

Passei a tarde num colóquio sobre Cooperação Descentralizada, organizado pela Associação para a Cooperação Entre os Povos (ACEP), que decorreu na Câmara Municipal de Odivelas. Convidaram-me para moderar o debate. Aceitei porque gosto do tema, porque quero aprender mais sobre a matéria e porque aos amigos não se diz que não.
Foi um debate bastante participado. Das várias orações de sapiência, renovei a convicção que já tinha de que a salvação da Humanidade está na mestiçagem dos povos. Na mestiçagem cultural, racial, o que quiserem. Acredito que os mestiços têm mais condições para se distanciarem de dogmas e preconceitos e, portanto, tornarem-se melhores seres humanos. Acredito muito nisso.

sexta-feira, maio 25, 2007

Luanda, fait divers



O Hotel Le Presidente, da cadeia internacional Meridien, em Luanda, era um local soturno que, ao fim de uns dias, se tornava insuportável. Os quartos eram minúsculos, os colchões das camas afundavam-se, os telefones não funcionavam, o bar era entediante, só se salvava o serviço do restaurante onde a comida era realmente boa.
Não sei porque carga de água, sempre que fui a Luanda em serviço de reportagem fiquei nesse hotel. A estadia mais longa foi a de 1998. Ao fim de um mês, decidimos (eu e o Carlos Santos) sair dali. Procurámos um apartamento mobilado onde pudéssemos ter um simulacro de lar. Encontrámos um apartamento na Mutamba, que a dona Palmira nos alugou pela módica quantia de 2 mil dólares por mês (400 contos na moeda da época), ainda assim metade do que gastávamos no hotel. Na porta do apartamento colocámos um autocolante da SIC e passámos a designar a habitação como “delegação”. Foi a primeira “delegação” da SIC em Luanda. Porventura, a última.
É dessa “deslocalização” do hotel para o apartamento que o papel que publico me faz lembrar, por causa do “Sra.Palmira” escrito no centro da folha. O resto são números indecifráveis. Enigmáticos números de telefone, estranhas contas de multiplicar e de diminuir e uma referência, em baixo à direita, a uma tal Zany que, infelizmente, não guardei na memória…

quarta-feira, maio 23, 2007

Pormenores

Quem leu o livro de Alcides Sakala, “Memórias de um Guerrilheiro”, sabe como foram dramáticos os últimos meses da resistência armada da UNITA, que só terminou com a morte de Savimbi.
No livro, percebe-se que Savimbi fintou a morte mais do que uma vez, ao longo desses últimos meses, jogando ao gato e ao rato com as forças inimigas que o perseguiam. Mas o cerco apertava-se a cada dia que passava, como se o exército governamental soubesse onde Savimbi andava. Há várias teorias sobre isso. Uns dizem que os satélites militares americanos espiavam a marcha da coluna de Savimbi, dando indicações sobre a sua localização ao governo angolano. Outros dizem que o dirigente da UNITA foi localizado pelos americanos, sim, mas através do sinal do telefone satélite que era frequentemente utilizado para contactos com membros e aliados da UNITA no exterior de Angola. Provavelmente, as duas teorias estão certas e os EUA utilizaram toda a tecnologia disponível para ajudar Luanda a vencer aquela guerra. O que é certo é que, de facto, Savimbi tinha pelo menos um telefone satélite. Do meu espólio desses tempos de brasa em Angola, mostro-vos a folha do meu bloco onde está anotado o número desse telefone satélite: 00871382082111.

terça-feira, maio 22, 2007

Brothers in arms

Mais uma folha de papel recuperada do arquivo morto onde jazia. Pertenceu a um bloco de bolso, um dos muitos que não guardei porque se desfizeram com o uso e maus-tratos. Por alguma razão sobrou esta folha. Não tem data, mas é de 1998, dos meses de Julho a Novembro. O que tem de curioso, esta folha, é a verificação dos nomes de guerra dos generais e outros oficiais de alta patente angolanos. O brigadeiro Jota era o oficial de ligação do CEMGFA com a imprensa. O homem era competente à sua maneira, ou seja, privilegiava os órgãos de comunicação social públicos angolanos em detrimento dos jornalistas estrangeiros que considerava, sempre, tipos suspeitos de simpatia com a UNITA, vá-se lá saber porquê.
No rol de nomes e contactos desta pequena folha aparecem, ainda, o brigadeiro Faísca, o brigadeiro Cowboy e o general McKenzie (pessoas de quem não guardo na memória qualquer referência). Já o mesmo não posso dizer do general Faceira, na altura vice-chefe do EMGFA. Graças a ele, conseguimos ultrapassar muitas dificuldades que outros colocaram à realização das nossas reportagens. Foi ele quem nos apresentou ao general João de Matos (o CEMGFA) e que o convenceu a que nos deixasse acompanhá-lo nas visitas que fazia às frentes de combate. Corremos Angola de lés a lés com eles, entrámos até pelo Congo dentro, ocupando dois lugares vagos no pequeno avião Piper que era utilizado pelo Chefe do Estado Maior. Tudo correu bem, até que a desconfiança se instalou de novo, devido à hipersensibilidade dos angolanos em relação ao trabalho dos jornalistas estrangeiros. Assim que recebeu um relatório enviado de Lisboa sobre o que dizíamos nas reportagens que fazíamos em Angola, o general afastou-nos e tudo se tornou mais difícil a partir daí.. Ainda assim, o nosso “estado de graça” durou largas semanas. Um “estado de graça” só possível devido ao estranho sentido de solidariedade existente nas castas militares. Eu explico: o general Faceira era Comando. Tinha sido Comando da tropa portuguesa, no tempo colonial e, depois da independência, juntou-se ao MPLA e formou o corpo de Comandos do exército angolano. Ora aconteceu que o Carlos Santos, o camera-man que estava comigo, também foi Comando e estabeleceu essa ponte com o general angolano. Era evidente a relação que ambos estabeleceram desde o primeiro minuto em que se reconheceram mutuamente como companheiros dessa “espécie militar”. Para mim, aquilo era uma coisa estranha, mas real, e aproveitei-a o melhor que foi possível.

sábado, maio 19, 2007

Pagadoras de promessas



Fui a Fátima. Confesso que estive lá. Nem foi, de resto, a primeira vez. É verdade que não vou lá fazer nada. Não acredito naquilo e nem consigo ser boa companhia. Enfim, sempre sirvo de motorista para lá chegar e de lá sair. É uma função nobre.


Mais uma vez admirei-me com a convicção das pessoas de que Deus precisa que lhe peçam por favor.

A praça parecia quase vazia, mas esse é o problema dos lugares muito amplos que dificilmente se conseguem encher com regularidade. Estariam lá alguns milhares de pessoas, mas pareciam poucas num espaço daquelas dimensões.

O negócio das velas ia de feição. Continuam-se a pagar promessas em grande número.

Os negócios à volta das promessas já ultrapassam a imaginação dos mais expeditos. Já surgiram até os peregrinos profissionais, com sítio electrónico montado e tudo. Vejam aqui.

Duvido é que os peregrinos profissionais se sujeitem ao clímax do sacrifício que é o circuito do “joelhódromo” que continua a ser bastante utilizado. Mesmo de joelheiras (que as lojas de Fátima vendem), atravessar a imensa praça, dar a volta à Capelinha das Aparições e regressar ao ponto de partida, deve ser um exercício difícil e doloroso. Reparei que só as mulheres se sujeitam àquilo. Numa hora de observação, vi apenas um homem ajoelhar-se.

Não falei com nenhuma daquelas pessoas que se arrastavam por ali, mas estou convencido que estariam a pagar promessas. E se estavam a pagar, seria porque o favor foi concedido. Ou será que estavam a expiar pecados?




sexta-feira, maio 18, 2007

Encontre as diferenças


São dois cartões idênticos.
Quase iguais.
Mas entre os dois, o tempo passou.
Não se nota na fotografia, mas apenas num pormenor.
Um pormenor que evoca camaradas de trabalho desaparecidos e outros que desistiram.

quarta-feira, maio 16, 2007

Os novos controleiros

Todos os programas de informação de todos os canais da RTP estão a ser monitorizados pela ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social) para se verificar e acautelar desvios ao pluralismo e à diversidade de expressão das várias correntes de pensamento. Para tal, a ERC implementou um método de apreciação das notícias difundidas pela RTP. Esse método sustenta-se em dois parâmetros: a quantidade das notícias e a qualidade das mesmas.









Quanto à qualidade, não percebo como vai ser aplicado esse critério. Primeiro, porque apreciar a qualidade de uma notícia tem uma enorme carga subjectiva. A qualidade depende mais do observador do que da notícia propriamente dita. Se o observador for um tipo de direita, as notícias sobre os sucessos do governo serão de péssima qualidade. Se o observador for mais de esquerda, as notícias sobre as actividades da oposição terão sempre algum defeito. Além disso, com redacções pejadas de estagiários, onde já quase não existem referências profissionais que sejam possíveis de seguir, copiar, pedir conselho e colher ensinamentos, não se pode levar a mal uma certa falta de qualidade. Isto digo eu, que já sou considerado uma espécie de dinossauro profissional…






Quanto ao critério quantitativo, a ERC diz que está a contar o número de notícias que cada noticiário dá sobre o governo e o partido que o sustenta, a oposição parlamentar, a oposição não parlamentar, outras correntes de opinião. E, segundo o documento divulgado no sítio da ERC, o pluralismo político mede-se assim: governo+PS deverão ter 50% das notícias; oposição parlamentar tem direito a 48%; oposição extra-parlamentar, apenas 2%. Portanto, os responsáveis editoriais passam a ter de andar de máquina de calcular na mão e podem meter na gaveta o sacrossanto critério jornalístico.

terça-feira, maio 15, 2007

Um barril de pólvora

A organização Human Rights Watch acaba de denunciar as prepotências perpetradas pelo governo angolano nas acções de despejo e demolição de bairros da lata na cidade de Luanda.
Desde 2002 que já se efectuaram 18 acções do género, com a destruição de 3 mil habitações onde viviam 20 mil cidadãos, todos eles pobres e residentes em barracas nos vários musseques de Luanda.
As acções governamentais têm sido realizadas pela polícia e por elementos de empresas de segurança privadas e são caracterizadas pela violência física contra os residentes, detenções arbitrárias e maus tratos contra os detidos.
Segundo o relatório em questão, aos cidadãos não tem sido dada a possibilidade de recurso legal nem o direito a qualquer indemnização. Pura e simplesmente, as pessoas são deixadas no meio da rua, sem haveres nem abrigo.
O relatório da Human Rights Watch foi elaborado com a colaboração da ONG angolana SOS Habitat e acusa o governo de Angola de provocar a deterioração das condições de vida da população mais pobre da capital, em vez de a melhorar.
Quem quiser ler o relatório completo, pode ir aqui. Quem quiser saber mais sobre a acção da Human Rights Watch em Angola, pode ir aqui.
Quem conhece Luanda sabe que a cidade está transformada num atoleiro de musseques, onde vivem mais de 4 milhões de pessoas em condições que não lembram ao diabo. É urgente que se faça algo para melhorar a situação daquela gente, sob pena de, num futuro próximo, a vida em Luanda se tornar impossível por questões de segurança e salubridade. Toda aquela miséria concentrada é um barril de pólvora pronto a explodir. Olho para o que acontece no Brasil, hoje, principalmente nos grandes centros urbanos, e adivinho o futuro de Angola, nomeadamente de Luanda, dentro de poucos anos.
É claro que o governo angolano pode julgar que resolve a questão social como resolveu a questão militar na guerra civil, mas duvido que, desta vez, venha a ter sucesso. A morte de Savimbi domesticou a UNITA, mas quantos vão ter que morrer se os musseques se revoltarem, em Luanda?
As fotos são de Luanda, e foram tiradas por mim em Agosto de 2006.

segunda-feira, maio 14, 2007

Cidadãos por Lisboa


A candidatura de Helena Roseta tem uma semana para reunir 4 mil assinaturas, condição sine qua non para ser aceite na corrida eleitoral para a Câmara Municipal de Lisboa.
Isso só será possível se os lisboetas se mobilizarem. Quem quiser dar uma ajuda, pode começar por aceder ao site do movimento, aqui.

domingo, maio 13, 2007

Estamos sempre a aprender

E de repente, eis que surgem vozes livres da disciplina e obediência partidárias.
É verdade que são, todos eles, antigos agentes partidários, mas temos de lhes reconhecer o direito à mudança. Só não muda de opinião quem perdeu a capacidade de aprender. Na escola ou com a vida.
Quero então chamar-vos a atenção para o que escreveram José Pacheco Pereira e Paulo Pedroso nos respectivos blogues.
Pacheco Pereira, num texto intitulado A Terceira Entidade, relembra os seus tempos de líder da distrital de Lisboa do PSD, época em que confessa ter aprendido muito sobre o mecanismo partidário e diz que só ainda não escreveu as suas memórias sobre esse período porque “os nomes circulantes continuam por aí”. Gente que, segundo a opinião expressa por Pacheco Pereira, “farão tudo para se defender e aos seus lugares, e farão tudo para varrer os outros dos lugares. É a lei da selva mais dura que para aí anda, com um grau de produção de "inimigos íntimos" sem dimensão fora da política, mas "eles" são a distrital de Lisboa e não há outra.”
Lindo, não acham? Este texto foi publicado no Abrupto em 5 de Maio e também no jornal Público.


Uns dias depois, a 10 de Maio, no Canhoto, Paulo Pedroso amargava uma prosa incomodativa sobre os factos que obrigaram Helena Roseta a desfiliar-se do PS e a aventurar-se numa campanha eleitoral independente para a presidência da Câmara Municipal de Lisboa. Segundo Paulo Pedroso, há 3 meses que Helena Roseta escreveu uma carta a José Sócrates disponibilizando-se para a luta eleitoral e nunca recebeu resposta. E isso não se faz, diz Pedroso: “detesto a gestão política pelo silêncio, a corrosiva guerra de nervos. Ela tem efeitos perniciosos sobre a coesão dos grupos, mas conheço gente demais, por vezes até bem intencionada, que abusa desses silêncios convencida que assim fica mais vincada a assimetria da sua posição de poder sobre quem discorda ou diverge. Elegantemente, Roseta diz que as pessoas são livres de responder ou não às cartas que recebem, mas discordo dela nesse ponto. Qualquer militante tem direito a uma resposta, seca e curta que seja, do Secretário-Geral do partido a que pertence, quando se lhe dirija de forma urbana e cordata.”
Ou seja, e só posso concordar com Paulo Pedroso, o Secretário-Geral do PS devia ter respondido a essa carta, nem que fosse para dizer não. A soberba é que não se aceita.

sexta-feira, maio 11, 2007

É a isto que eu chamo um mau serviço

Decidi rescindir o contrato com a TV Cabo.
A informação que consta no site da empresa indica um número de telefone para onde se deve ligar para tratar deste tipo de assunto. É 0 707299499. Ligo, aparece uma gravação a dizer que se pretendo não sei quê terei de marcar o 1, se pretendo outra coisa terei de marcar o 2, se pretendo com mais molho terei de marcar o 3, por aí fora. Escolho o que pretendo e surge uma segunda gravação com a mesma lengalenga… volto a marcar o número correspondente ao que pretendo e fico à espera que me atendam. Passado um minuto, atendem-me. “Fala fulana de tal, com quem tenho o prazer de falar?” E segue-se uma conversa pretensamente cordial que serve, essencialmente, para eu me identificar com nome completo e número de cliente. Depois, a menina diz-me que para satisfazer o meu pedido tem de transferir a chamada para outra secção. Transfere e fico a ouvir música de elevador de hotel… desde que liguei passaram-se 5 minutos e a chamada é paga. Passam mais dois ou três minutos e aparece, finalmente, outra menina. Esta já sabe o meu nome e ao que eu venho, mas pergunta-me porque razão pretendo cancelar o contrato. Respondo que vou viver para longe, que vou fechar a casa e, portanto, não preciso de tv cabo. Ela insiste em que permaneça cliente, a troco de um serviço mínimo que me custará apenas 11 € e tal por mês. Volto a explicar-lhe que não estou interessado…. E a chamada cai. Fiquei sem saldo.
Carrego o telefone e volto a ligar para o 707… repete-se tudo de novo. Passo a passo, palavra a palavra… até que chego à tal secção competente para resolver a minha questão, ou seja, onde estava quando a chamada telefónica caiu. Volto a repetir que não estou nada interessado em serviços mínimos a 11 € e tal por mês, que quero mesmo é rescindir o contrato. E de novo perguntam-me porquê. Porquê? Por que sim, porque me apetece, porque deixou de me apetecer, porque tenho mais onde gastar o dinheiro, porque prefiro a concorrência, porque estou desempregado, porque deixei de precisar, sei lá. Com que raio de direito se julgam eles para questionar as razões do cliente?
Mas sabem a melhor? É que, no fim disto tudo, depois de 20 minutos de conversa à custa do cliente (a chamada é paga, volto a lembrar) o funcionário da Tv Cabo termina dizendo que, sendo assim, terei de me deslocar a uma das lojas da Tv Cabo, com o BI, para preencher um impresso qualquer.

quinta-feira, maio 10, 2007

Ronaldo não quer ser reajustado

Não conheço o senhor Ronaldo Caiado, apenas sei que é deputado no parlamento brasileiro e que foi o único, entre todos, que votou contra o aumento de 28,05% dos salários dos políticos.
O termo usado no Brasil para um aumento destes é “reajuste salarial” e eu gostava de saber se os senhores deputados também decidiram reajustar os salários dos restantes trabalhadores do país na mesma ordem de grandeza.
Segundo o que li na edição on-line do jornal Folha de São Paulo, os parlamentares aproveitaram a presença do Papa, que desviou todas as atenções dos media e do povo, para calmamente aprovarem o reajuste.
Engraçado era se o tiro lhes saísse pela culatra, ou seja, que o Papa chamasse a atenção para tamanho atrevimento num país com dezenas de milhões de cidadãos a viver abaixo do limiar da pobreza. Mas desconfio que o Papa está mais preocupado com outros problemas, como o aborto ou a canonização do primeiro santo brasileiro. Dizendo de outro modo, com a política do Vaticano.

quarta-feira, maio 09, 2007

Os independentes

As próximas eleições para a Câmara Municipal de Lisboa vão ser curiosas, do ponto de vista socio-político. Os partidos políticos vão ter grandes problemas para encontrar bons candidatos.
Logo, porque quem vencer essas eleições apenas terá dois anos para governar a capital e não os habituais quatro, o que quer dizer menos tempo para realizar obra e, mais do que isso, pouco tempo para recuperar a situação económica da cidade e reformar a gestão da autarquia. Enfim, esse pouco tempo poderá transformar-se numa armadilha política a prazo, já que o fracasso significará a derrota nas eleições que se realizarão, depois, em 2009.

Mas o grande problema dos partidos políticos é a candidatura de independentes. Para além do próprio Carmona Rodrigues, que deverá recandidatar-se para tentar uma vingança contra o PSD, temos a anunciada candidatura de Helena Roseta, que se desvinculou do PS para lutar pela edilidade. Helena Roseta é uma fortíssima candidata e não vejo como o PS e o PSD vão encontrar facilmente quem queira defrontar estes dois independentes.

Roseta tem bastante experiência política (foi deputada e presidente da Câmara de Cascais), é bastonária da Ordem dos Arquitectos e passa por ser incorruptível, o que é condição suficiente para ser eleita.
Carmona tem um discurso de vítima, é o não-político que foi trucidado pelo aparelho do partido, é o “técnico competente” impedido de governar a cidade pelos políticos como, de resto, afirmou o próprio há dias: “Com sentido de responsabilidade, tal como o Comandante de um navio, não serei eu o primeiro a abandonar o barco. Nem permitirei que me atirem pela borda fora."
O principal problema de Carmona é ser arguido nos processos que envolvem a câmara, assim como os seus principais colaboradores. Por isso, acho que Carmona Rodrigues é muito mais frágil que Helena Roseta.
Seja como for, qualquer candidatura partidária contra Roseta ou Carmona arrisca-se a perder, o que no caso de eleições para a capital do país tem um significado político relevante.

segunda-feira, maio 07, 2007

Mar insonso

Fui ver o grande lago do Alentejo, aquela imensidão de água doce que transformou aldeias do interior alentejano em localidades ribeirinhas, onde pontuam novas tabuletas pintadas de azul com indicações que seriam bizarras há uns anos como, por exemplo, “ancoradouro” ou “cais”.
Mudou tudo. Do alto de Monsaraz, para os lados de Espanha, onde dantes só se viam olivais e montados, rebanhos de vacas e de ovelhas, agora há água e ilhas.
Em 2002 fiz uma descida do Guadiana, de canoa, para a realização de um documentário sobre o que o Alqueva iria submergir. O Castelo da Lousa, a aldeia da Luz, o Convento do Alcance, uma fábrica de pasta de papel, o olival da Pega, os moinhos de água, os menires, antas e dólmenes, e uma imensidão de sítios arqueológicos nunca estudados. Daqui a 100 anos, talvez, quando a barragem já não existir, tudo aquilo voltará à luz do dia, só não sei em que condições de preservação. Intitulei esse documentário “Por esse rio abaixo”. Foi um trabalho que gostei de fazer, que passou uma única vez na SIC Notícias, no consulado do Nuno Santos enquanto director daquilo.

sexta-feira, maio 04, 2007

Habeas Corpus

Encontrámo-nos em Nice, durante uns Jogos Mundiais de Jornalistas, um evento bienal organizado por uma associação internacional de jornalistas a que o Sindicato dos Jornalistas português costumava aderir.
Aquilo era sempre uma paródia e eu fazia tudo para não faltar. Daquela vez inscrevi-me na equipa de xadrez, mas acabei por ter de jogar futebol sob pena da equipa não poder entrar em campo por falta de quórum. Ela estava na bancada, a assistir ao jogo.
Nessa noite encontrei-a num cocktail. Começamos a conversar e nunca mais nos largámos. Até perdi a camioneta que trouxe a malta de volta para Lisboa. Tive de vir de comboio, no dia seguinte.
Umas semanas depois, namorávamos ao telefone. Eu em Lisboa, ela em Paris, onde trabalhava na embaixada do Canadá. Um dia, deu-me a louca e disse-lhe que no dia seguinte, ao meio-dia, estaria à espera dela debaixo da Torre Eiffel. Meti-me no carro, fui a casa enfiar umas t-shirts num saco e pus-me a caminho de Paris. Guiei 24 horas seguidas, mas ao meio-dia estava debaixo da Torre Eiffel. Ela apareceu à hora marcada. Foi um beijo muito louco.
Foi em 1983 e não sei porque me lembrei disto agora. Mas deu-me uma saudade de Paris. É uma cidade onde se pode ser feliz.
A foto é de Robert Doisneau.

quinta-feira, maio 03, 2007

A exaltação

Não vi o debate, mas na reportagem do Paulo Dentinho (hoje, no programa da manhã da RTP) ela aparecia indignada, com o tom de voz um pouco elevado. Logo o adversário lhe aconselhava calma, porque a exaltação parece mal, conforme está convencionado e ele tentou tirar partido disso. E ela respondia-lhe que não estava enervada, que estava, apenas, indignada, que mantinha intacta a sua capacidade de revolta, como quem diz que continua a ser gente, apesar de estar ali a disputar o poder total de uma das nações mais importantes da Europa.
Porque parece mal aparecer enervado num debate político televisionado? Os nervos à flor da pele denunciam fraquezas escondidas? Pois eu acho que essa é mais uma convenção estipulada pelos cínicos, por aqueles que nunca se zangam porque são capazes de todas as cambalhotas e contorcionismos para se manterem à tona. Gosto de gente que se zanga e que se enerva, que se indigna e se escandaliza, se revolta e luta por aquilo em que acredita. Julgo que era disso que se tratava no debate entre Ségolène e Sarkozy, naquele extracto que apareceu na reportagem do Paulo Dentinho. Ela defendia uma lei que, quando fez parte do governo, tinha implementado em defesa dos direitos das crianças fisicamente incapacitadas, uma lei que ele desmantelou em nome de um liberalismo económico pouco sensível aos problemas das pequenas minorias da população. Se eu fosse francês, votaria em Ségolène.

quarta-feira, maio 02, 2007

1º de Maio



Se não fossemos um povo de medrosos, de acomodados, de resignados, as várias manifestações de ontem não teriam cabido nas ruas por onde desfilaram. Mas o que se viu foi meia dúzia de tipos em Loures, na manif da UGT e alguns milhares na Cidade Universitária na manif da CGTP. Foi pouco, numa sociedade cheia de desempregados e de trabalhadores em situação precária, submetidos à ditadura do “recibo verde” a troco de um rendimento miserável.
Como é que um povo que se lançou ao mar para dar novos mundos ao mundo se transformou nisto?

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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