Fui hóspede dele várias vezes. E, antes de me habituar às peculiaridades de Ammann e da sua casa, apanhei alguns sustos…
Na realidade são duas casas. Uma onde ele vive, a outra onde recebe os hóspedes. Ficam, as duas, numa encosta arborizada, perto de um rio onde, ao entardecer, vão beber zebras, búfalos e girafas. De uma casa para a outra há um caminho de pedra. Uma noite, depois do jantar, recolhia aos aposentos, saltitando de pedra em pedra, quando vi, deitada na soleira da porta, uma chita. À luz da lanterna, os olhinhos do bicho brilhavam ameaçadores… fiquei pregado ao chão, a uma distância razoável. Se me voltasse, temia ser atacado pelas costas. Se me mexesse, temia provocar alguma reacção ao animal… aquilo durou bem mais de 5 minutos. Depois, a chita espreguiçou-se, levantou-se e, calmamente, saiu dali, sem sequer passar por perto. Corri para casa, tranquei a porta e verifiquei todas as janelas. Com o coração aos saltos, custou-me a adormecer.
Na manhã seguinte, Karl achou muita piada à história… a chita é quase animal de estimação da casa. Cresceu ali, desde bebé. Embora selvagem, é mais mansa que um gato, jurou. Tinha-se esquecido de me avisar…
O interessante sobre este documento do SPLA é o carimbo que o autentica. Em tinta roxa, certifica-se que o documento que me autorizava a viajar foi passado pelo Sudan Relief and Rehabilitation Association, uma ONG sedeada em Nairobi, no Quénia, que alegadamente se dedicava às crianças órfãs da guerra civil sudanesa. De facto, a sede da SRRA era a “embaixada” do SPLA no Quénia. Era, ainda, através desta ONG que o SPLA administrava boa parte do dinheiro doado pelos seus amigos ou aliados para a sustentação da guerra.Foi fácil obter este documento, sem o qual não teria conseguido viajar. Foi fácil porque quem solicitou a autorização foi a Igreja Católica, através da Diocese de Rumbek, uma cidade importante no sul do Sudão, cujo Bispo, um italiano, vivia refugiado em Nairobi.

Mas também me emocionei a vê-los em liberdade e segurança, como aconteceu no norte do Quénia, num sítio chamado Sweetwaters, perto de Nanyuki… Sweetwaters é uma reserva natural onde muitos biólogos de todo o Mundo vão realizar pesquisas científicas. Fui lá visitar um desses coca-bichinhos,
Para chegar a casa dele, percorríamos vários quilómetros por uma planície de savana e, um dia, demos com uma pequena manada de elefantes que se deleitavam na lama de um charco. A manada tinha crias e foi emocionante sentir a fraternidade que existia entre os elementos do grupo. Habituados a serem espiados, os elefantes não se sentiram ameaçados pela nossa presença e pude fotografá-los à vontade embora não fosse prudente aproximar-me demasiado. As fotos que aqui vos mostro são a memória desse momento.
Agora, Malindi é a prova de que há homens que colocam o dever e a busca da riqueza acima de tudo. É que Malindi é o paraíso… Dom Vasco tinha ali tudo o que um homem poderia querer. O rei local recebeu-o de braços abertos e, de resto, foi aliado dos portugueses durante quase um século. Dom Vasco, representante do rei de Portugal, homem poderoso, em Malindi deve ter saciado todas as fomes que o inquietavam (menos a tal ânsia pelo poder) e, ainda assim, foi capaz de abandonar aquele paraíso… Dom Carlos teria ficado, disso tenho a certeza.
Na
O documento que vos mostro autorizava-me a
Bemba (0 senhor alto da foto, em cima) foi um dos War Lords que dividiram o Congo e disputaram entre si as riquezas do país.
O que eu queria, mesmo, era entrar no Congo e chegar a Bondo, na província Equatorial, no norte do país. A minha tarefa era fazer um documentário sobre a vida dos “missionário da linha da frente” do cristianismo, aqueles homens e mulheres que a Igreja Católica envia para as zonas mais inóspitas do planeta, com a missão de evangelizar os povos.
Quando aquele pequeno avião aterrou, terminaram 8 longas horas de voo sobre mato e florestas de cinco países africanos, Quénia, Uganda, República Centro-Africana, Sudão e Congo. Uma grande volta aérea para contornar as linhas de combate de uma guerra civil que dividia em três partes o grande Congo. O norte pertencia a
Ron e o seu pequeno avião são, para muitos missionários espalhados nas zonas mais inóspitas do Continente Africano, o único elo que têm com a civilização.



