Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











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sábado, janeiro 28, 2006

Nanyuki, o bichano na soleira da porta

Nanyuki é uma aldeia no Norte do Quénia. O que mais distingue esta localidade de outras, no Quénia, é que fica mesmo na linha do Equador. É um dos pretextos usados para levar turistas até lá. Por isso, tem várias estalagens implantadas em reservas de caça, locais propícios para quem gosta de contemplar natureza selvagem. Para além da aldeia indígena há, em Nanyuki, um “bairro” de milionários brancos que chegam e saem de helicóptero e que, normalmente, usam aquelas casas para fins-de-semana prolongados. Há uma dessas casas que é residência permanente de um suíço alemão, fotógrafo especializado na natureza selvagem, radicado no Quénia já há muitos anos: Karl Ammann.
Fui hóspede dele várias vezes. E, antes de me habituar às peculiaridades de Ammann e da sua casa, apanhei alguns sustos…
Na realidade são duas casas. Uma onde ele vive, a outra onde recebe os hóspedes. Ficam, as duas, numa encosta arborizada, perto de um rio onde, ao entardecer, vão beber zebras, búfalos e girafas. De uma casa para a outra há um caminho de pedra. Uma noite, depois do jantar, recolhia aos aposentos, saltitando de pedra em pedra, quando vi, deitada na soleira da porta, uma chita. À luz da lanterna, os olhinhos do bicho brilhavam ameaçadores… fiquei pregado ao chão, a uma distância razoável. Se me voltasse, temia ser atacado pelas costas. Se me mexesse, temia provocar alguma reacção ao animal… aquilo durou bem mais de 5 minutos. Depois, a chita espreguiçou-se, levantou-se e, calmamente, saiu dali, sem sequer passar por perto. Corri para casa, tranquei a porta e verifiquei todas as janelas. Com o coração aos saltos, custou-me a adormecer. Na manhã seguinte, Karl achou muita piada à história… a chita é quase animal de estimação da casa. Cresceu ali, desde bebé. Embora selvagem, é mais mansa que um gato, jurou. Tinha-se esquecido de me avisar…

segunda-feira, setembro 18, 2006

As aparências iludem

Até pode parecer que ando a organizar a papelada da minha vida, mas não. Acontece que, volta e meia, remexo nas coisas e “descubro” velhos episódios…
Agora, encontrei o passepartout que o SPLA emitiu quando fui ao Sudão pela 2ª vez.
Estava num dossier, no meio de papelada diversa onde predominam documentos relacionados com a minha saída da SIC em 2003. Essa é uma outra história que vos contarei um dia destes…

O interessante sobre este documento do SPLA é o carimbo que o autentica. Em tinta roxa, certifica-se que o documento que me autorizava a viajar foi passado pelo Sudan Relief and Rehabilitation Association, uma ONG sedeada em Nairobi, no Quénia, que alegadamente se dedicava às crianças órfãs da guerra civil sudanesa. De facto, a sede da SRRA era a “embaixada” do SPLA no Quénia. Era, ainda, através desta ONG que o SPLA administrava boa parte do dinheiro doado pelos seus amigos ou aliados para a sustentação da guerra.Foi fácil obter este documento, sem o qual não teria conseguido viajar. Foi fácil porque quem solicitou a autorização foi a Igreja Católica, através da Diocese de Rumbek, uma cidade importante no sul do Sudão, cujo Bispo, um italiano, vivia refugiado em Nairobi.
Às vezes, encontramos apoios onde menos se espera, não é?

A segunda foto é um recuerdo dessa viagem. À minha direita está Dorinda Cunha, a heroína dessa história que contei num documentário intitulado "Missão Impossível", exibido na SIC, trabalho que mereceu o prémio Jornalismo Contra a Indiferença atribuído pela AMI.

quarta-feira, abril 26, 2006

Sudão, 2000. Dorinda (2)

Na aldeia de Marial Lou, Dorinda dedicava especial atenção a dois dos seus empreendimentos: o internato de raparigas e a cooperativa de mulheres. Numa sociedade tradicionalista como aquela (tribo Dinka), estas duas iniciativas eram revolucionárias. Na escola interna, as meninas estavam a salvo de hábitos milenares de submissão feminina à vontade dos homens. Entre estes povos sudaneses, casar uma filha aos 10 ou 12 anos não é nenhuma raridade. Tudo depende da riqueza do pretendente… das dezenas de meninas que viviam no internato, Dorinda tinha a secreta esperança de conseguir “desviar” duas ou três, as mais capazes intelectualmente, para continuarem os estudos no Quénia. Esta era a verdadeira revolução que Dorinda tinha em marcha, a mudança de mentalidades. Na cooperativa de mulheres, tecia-se a mesma “intriga”… as cooperantes foram recrutadas entre as mais pobres e as mais exploradas mulheres da aldeia. Uma delas era, mesmo, uma prisioneira de guerra. Era uma mulher de etnia Nuér, uma mulher soldado, capturada em combate pelos Dinka. Ao longo dos anos de cativeiro, aquela mulher tinha sido violada em todos os sentidos. Quando Dorinda deu por ela, morria de fome e de pancada. Ela e um filho ainda bebé… na cooperativa, as mulheres faziam roupa, com tecidos que Dorinda pedinchava no Quénia. Vendiam a roupa e o dinheiro dava-lhes não só capacidade de sobrevivência, como as tornava independentes dos homens. Muitas deixaram de ser vítimas da brutalidade com que habitualmente eram tratadas. Algumas até acabaram por expulsar os agressores de casa. Completamente revolucionário.

Dorinda Cunha está ao centro, na foto, entre mim e o Odácir Júnior, o repórter de imagem que trabalhou comigo no sul do Sudão. O outro branco é o padre John Pax, comboniano norte-americano.

sexta-feira, outubro 20, 2006

Os elefantes também choram

Nunca matei um elefante, mas já comi a carne. No Congo (ex-Zaire), durante a guerra civil, muitas populações sobreviveram graças às proteínas da carne de animais selvagens e muitos elefantes foram mortos. Foi nessas circunstâncias que comi carne de elefante, várias vezes. Não havia outra coisa para comer.

Mas também me emocionei a vê-los em liberdade e segurança, como aconteceu no norte do Quénia, num sítio chamado Sweetwaters, perto de Nanyuki… Sweetwaters é uma reserva natural onde muitos biólogos de todo o Mundo vão realizar pesquisas científicas. Fui lá visitar um desses coca-bichinhos, Tom Butinsky, americano, especializado em pássaros que passava os dias de gravador na mão e binóculos nos olhos a espiar aves canoras.

Para chegar a casa dele, percorríamos vários quilómetros por uma planície de savana e, um dia, demos com uma pequena manada de elefantes que se deleitavam na lama de um charco. A manada tinha crias e foi emocionante sentir a fraternidade que existia entre os elementos do grupo. Habituados a serem espiados, os elefantes não se sentiram ameaçados pela nossa presença e pude fotografá-los à vontade embora não fosse prudente aproximar-me demasiado. As fotos que aqui vos mostro são a memória desse momento.

Os elefantes também choram, diz Barbara Gowdy no livro "O Osso Branco", editado pela Quetzal. E eu juro que os ouvi rir.

quarta-feira, agosto 09, 2006

Quénia, Malindi. Podia ter ficado tudo por ali...

Não sei se é por estar quase, quase, quase a ir de férias que a praia de Malindi não me sai da cabeça. Não sei se é por isso ou se é por ter escrito sobre Mombaça
Ao terceiro dia alugámos um carro e partimos rumo ao norte, pela costa. Não nos interessava nada voltar para de onde tínhamos vindo, mas queria muito ir até Malindi.
Queria ver, e vi, o padrão que Vasco da Gama ali deixou, em pleno areal. Lá está, enfim, pelo menos a parte superior do padrão é a original. O pedestal já tem cimento do século XX e pichagens modernaças também.
Além do padrão, em Malindi existe outro local arqueológico que nos diz respeito: a igreja de São Francisco de Xavier. Em boa verdade, uma palhota, embora com paredes de pedra, claro. Foi a primeira igreja erguida na costa oriental de África. Achei muito curioso o pequeno cemitério existente ao lado da pequena igreja. Sou um sentimentalão, como já repararam… Agora, Malindi é a prova de que há homens que colocam o dever e a busca da riqueza acima de tudo. É que Malindi é o paraíso… Dom Vasco tinha ali tudo o que um homem poderia querer. O rei local recebeu-o de braços abertos e, de resto, foi aliado dos portugueses durante quase um século. Dom Vasco, representante do rei de Portugal, homem poderoso, em Malindi deve ter saciado todas as fomes que o inquietavam (menos a tal ânsia pelo poder) e, ainda assim, foi capaz de abandonar aquele paraíso… Dom Carlos teria ficado, disso tenho a certeza.

terça-feira, maio 16, 2006

Carimbo = Poder

Testemunhei várias situações em que entidades não-estatais desempenhavam o papel do Estado. Quase sempre grupos rebeldes, mas nem sempre. Na Bósnia, por exemplo, foi um soldado norueguês quem me carimbou a vermelho no passaporte MAYBE AIRLINES.
Uma espécie de recuerdo que eles impunham a todos que chegavam a Sarajevo a bordo dos aviões militares. Na primeira vez que entrei no Sudão, tive de pedir um passepartout ao SPLA, Exército de Libertação dos Povos do Sudão. A “embaixada” funcionava em Nairobi, no Quénia, na sede de uma ONG que alegadamente tratava de ajuda humanitária nas zonas controladas pelos rebeldes sudaneses. Duas fotografias e um impresso em duplicado, tal qual nas representações oficiais dos Estados. O documento que vos mostro autorizava-me a viajar nas Montanhas Nuba, no Kordofan sul, por um período de três semanas a partir de 19 de Março de 99. Um carimbo azul e outro vermelho certificam o documento e oficializam a autorização. Estes rituais têm dois propósitos: arrecadar receitas e, principalmente, exercitar poder. Depois de emitidos, normalmente nunca nos pedem para exibir tais documentos. Talvez porque sem eles não poderíamos estar ali e porque a maioria das pessoas que nos poderiam pedir para ver a autorização não sabe ler.

sábado, maio 13, 2006

Congo, ano 2000. mister John

De todos os candidatos presidenciais que vão a votos, no próximo mês, no Congo, apenas conheço um: Jean Pierre Bemba, dirigente do MLC - Mouvement de Libération du Congo. Bemba (0 senhor alto da foto, em cima) foi um dos War Lords que dividiram o Congo e disputaram entre si as riquezas do país.
As negociações que levaram ao fim da guerra e à formação de um governo de transicção, colocaram Bemba na vice-presidência do Congo e, agora, na luta pela presidência.
Se lerem os textos antigos que já publiquei aqui, poderão ficar a conhecer um pouco este personagem.
Mas, a partir de hoje, retomo o tema “Congo e Bemba”. Há muito para contar, ainda.
Começo por relatar como cheguei até Bemba. O que eu queria, mesmo, era entrar no Congo e chegar a Bondo, na província Equatorial, no norte do país. A minha tarefa era fazer um documentário sobre a vida dos “missionário da linha da frente” do cristianismo, aqueles homens e mulheres que a Igreja Católica envia para as zonas mais inóspitas do planeta, com a missão de evangelizar os povos.
Primeiro, tentei um percurso a partir do Quénia, indo até ao Uganda ou ao Rwanda e usar uma dessas fronteiras. Mas a guerra não deixou. Os combates no leste do Congo impediam-me de tentar sequer a travessia por aí. De modo que fui de Nairobi para Bangui, na República Centro Africana e aí tentei atravessar a fronteira. Mas, para isso, precisava de ter autorização dos rebeldes, do outro lado do Rio Congo.
O Cônsul português em Bangui, um senhor que dirige um supermercado, aconselhou-me a ir até à embaixada dos EUA e pedir para “falar com Mr.John”. Deu-me um número de telefone, para onde liguei. Atendeu-me o tal senhor John. Combinámos um encontro, em plena via pública, para dali a uma hora. Conversámos sobre o que queria eu fazer no Congo… ele ouviu e depois disse para voltar a telefonar-lhe no dia seguinte. Foi então que me deu as seguintes instruções. Teria de alugar um avião e ir até Mobaye. Aí estaria um carro à minha espera que me levaria até ao rio, onde estaria uma canoa para me levar até ao outro lado, onde estaria alguém à minha espera e então seria levado até Gbadolite onde iria ter oportunidade de falar com Bemba e pedir-lhe o que quisesse. E não é que correu tudo conforme mister John disse?

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Congo, 2001 - A Expedição, o missionário voador

Um pouco acima da linha do Equador, a norte do Rio Uéle, a sul do Rio Ubangui, fica a pista de aviação onde poisamos. A época das chuvas tinha parado havia pouco mais de um mês e o chão pantanoso da floresta tropical estava já suficientemente duro para permitir o poiso do avião. Na época das chuvas a lama é tanta que tentar aterrar ali significa desfazer o avião.
Nesta região norte da República Democrática do Congo vive a tribo Azande, um dos muitos povos que constituem o mosaico da Nação congolesa. Os Azande têm o seu próprio dialecto, o kizande, mas falam também lingala, uma das línguas nacionais do Congo, além de francês, o idioma dos últimos colonos brancos que dominaram o país até à independência, em 1960.Quando aquele pequeno avião aterrou, terminaram 8 longas horas de voo sobre mato e florestas de cinco países africanos, Quénia, Uganda, República Centro-Africana, Sudão e Congo. Uma grande volta aérea para contornar as linhas de combate de uma guerra civil que dividia em três partes o grande Congo. O norte pertencia a Bemba, o principal dirigente rebelde que se opunha ao reinado da família Kabila.
Quem nos levou até lá foi um homem branco, nascido no antigo Zaire, filho de missionários protestantes de nacionalidade norte-americana. Ron cresceu no Zaire e na República Centro-Africana, estudou nas várias missões em que os pais trabalharam, aprendeu os usos e costumes dos povos com quem conviveu, fala vários dialectos tribais. Quando chegou a altura de ir para a Universidade, viajou até aos Estados Unidos onde continuou a estudar. Tirou o brevet de piloto comercial, trabalhou no Alaska como piloto e regressou a Àfrica para prosseguir a missão missionária dos pais. Ron e o seu pequeno avião são, para muitos missionários espalhados nas zonas mais inóspitas do Continente Africano, o único elo que têm com a civilização.
Quando pisei aquele chão, estava a começar a mais fantástica viagem da minha vida, até hoje.

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

TSF, Sinais - fome de cão

"As 42 toneladas de comida para cães prontas a enviar aos meninos famintos do lago Vitória fariam parte de um kit que ensinasse os meninos a comer relva para vomitar quando tivessem dores de estômago? Os meninos poderiam comer o suplemento no chão? Os saquinhos incluiriam campaínha para ajudar os meninos a salivar?" Quem ouviu, hoje, a crónica do Fernando Alves, na TSF, só pode ter ficado indignado.

A crónica denunciava a dádiva de uma senhora neo-zelandesa, proprietária de uma fábrica de comida para cão, de 42 toneladas de ração animal para as crianças pobres do Quénia. É verdade que são pobres, é verdade que são pretos, mas não são bichos... Esta gente sem sentimentos só podem ser loucos. Deviam ser internados num manicómio. E tratados... com choques eléctricos.

quarta-feira, janeiro 11, 2006

Sudão, os Nuba (2)

O avião era um Antonov russo. A bordo iam algumas toneladas de cereal e roupa velha, o contributo amealhado ao longo de meses de esforços do missionário Renato Kizito.
Estávamos no final de 1999, Kizito fazia a sua enésima incursão às Montanhas Nuba, no coração do Sudão.
Aquela era uma viagem proibida pelo governo em Kartum. Havia anos que todas as ONG de ajuda humanitária tinham sido expulsas das Montanhas Nuba. O governo não queria testemunhas dos métodos que usava para tentar vencer aquela guerra civil deflagrada 25 anos antes. Quase só o Comboniano Kizito teimava em desafiar a ordem estabelecida. Voámos 5 horas sobre o Sudão, desde o aérodromo de Lokichokio, no Norte do Quénia, até ao interior das Montanhas Nuba, em território controlado pela rebelião do Exército de Libertação do Povo do Sudão, o SPLA.
O esforço de Kizito é notável, assim como é notável a sua capacidade de organização. Centenas de mulheres esperavam o avião e a preciosa carga que transportava. Os sacos de sorgo e a roupa velha foram carregados na cabeça dessas mulheres, numa longa fila indiana, durante um dia inteiro de caminhada até à aldeia mais próxima. Kizito era o único branco que visitava aquele povo cercado no alto das montanhas pelo exército governamental. Ele ouvia as histórias da guerra e contava as suas histórias de esperança. E dizia àquelas pessoas que o futuro seria mais justo e pacífico. E embora condenasse a guerra, dizia-lhes que tinham direito a lutar pela liberdade.

Lembro-me de assistir às missas de domingo que Kizito celebrava num altar de pedra esculpido pela Natureza. Ele gostava de dizer a missa de noite, ao ar livre, iluminado por archotes e sob uma magnífica abóbada de estrelas. Mesmo para quem anda longe deste tipo de fé, eram momentos mágicos.

sábado, janeiro 07, 2006

Além-Mar

A Além-Mar faz 50 anos, neste número de Janeiro. Começou em 1956 e, nessa altura, chamava-se Revista dos Missionários Combonianos. Tem vindo a crescer, com o tempo. Hoje, é uma revista de grande qualidade. Já passou por adversidades, nomeadamente quando foi encerrada pela PIDE, em 1964. Regressou seis meses depois, mas sempre com um Coronel de lápis azul à perna. Sempre foi uma revista de intervenção, podem crer.

Gosto muito dos Combonianos e não é por causa da revista que fazem. É por serem padres diferentes. Talvez todos os missionários sejam parecidos, mas estes são os que conheço melhor, além dos padres italianos do PIM que estão na Guiné-Bissau. E são diferentes porque, sendo padres católicos, a evangelização não é a primeira prioridade. A primeira é a amizade e isso faz toda a diferença, seja aqui, seja no Sudão. Quem recebe ajuda de um amigo, recebe-a melhor e procura retribuir. Conheci e observei a acção dos Combonianos no Sudão, no Congo, no Quénia. E conheço os que estão em Lisboa e que fazem esta revista. Colaboro com eles, sempre que me pedem. É uma honra. É com orgulho que tenho o nome na lista de colaboradores da Além-Mar. Estão lá alguns dos melhores jornalista portugueses: Rui Araújo, José Goulão, Jorge Heitor, Francisco Sarsfield Cabral, Ana Glória Lucas, entre outros.
Parabéns à Além -Mar e aos que a fazem, pelos 50 anos de excelência.

quarta-feira, janeiro 04, 2006

Sudão, os Nuba (1)

Lokichokio é uma aldeia com uma grande pista de aviação. Fica no norte do Quénia, mesmo em cima da linha de fronteira com o Sudão. Em Lokichokio, as ONG de ajuda humanitária e as agências de espionagem montaram uma enorme base para operações em toda a África Central. É de lá que partem voos humanitários que carregam comida, medicamentos e roupa para o Sudão, o Uganda, o “DR” Congo (ex-Zaire), a República Centro Africana (ex-Alto Volta), Somália, Etiópia, Eritreia… enfim, para essa enorme mancha de instabilidade, fome e miséria que é a África Central.
Das duas vezes que estive no Sudão, foi em Lokichokio que as viagens se iniciaram.

A primeira dessas viagens foi em 1999. Reportagem nas Montanhas Nuba sobre a situação humanitária em que vive o povo Nuba, que resiste ao genocídio perpretado pelo exército do governo sudanês. As Montanhas Nuba ficam na região chamada Kordofan, para nordeste do Darfur. Os Nuba vivem cercados nessas montanhas pelo exército. Ninguém entra, não se sai de lá, a não ser de avião, em voos clandestinos que as ONG arriscam. Foram quase 5 horas num velho teco-teco carregado de sacas com sorgo, a violar o espaço aéreo sudanês e a aterrar numa pista improvisada em local secreto (na foto) a que o piloto chamava Foxtrot, simplesmente.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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