Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











quinta-feira, maio 21, 2009

Pormenores


Cheguei às 18 horas em ponto e o auditório da Fundação Mário Soares já estava quase cheio. Consegui um lugar na última fila.
Invocava-se Afonso Costa, emblema da revolução de 5 de Outubro de 1910, várias vezes ministro e chefe de governo durante a I República, político notável cujo pensamento e acção ainda hoje influenciam a nossa vida.
Mas o que acho mais interessante nestas conferências, não é propriamente o desfiar dos acontecimentos marcantes da História, mas os pormenores, as estórias, os tiques dos figurões, as insignificâncias tantas vezes reveladoras.
Mário Soares, por exemplo, confessou que uma das coisas que pensou quando estava a chegar a Portugal, vindo do exílio, logo a seguir ao 25 de Abril de 1974, foi que “temos de fazer isto durar mais do que os 16 anos que durou a I República” e que, aprendendo com os erros de Afonso Costa (que tinha a alcunha do “mata-frades”), ele “sempre procurou evitar um conflito com a Igreja Católica”.
Outro dos oradores, António Reis, lembrou que uma senhora marquesa, casada com um político da época, aspergia o marido com água benta quando sabia que ele tinha estado reunido com Afonso Costa.
Afonso Costa foi um verdadeiro diabo, na óptica da Igreja Católica. A ele se devem as leis do divórcio e da separação do Estado da Igreja, a obrigatoriedade do casamento civil, a proibição de procissões na via pública e, suprema provocação, a abolição do pagamento de pensões às viúvas de padres… mas também a ele se devem as primeiras leis de protecção social, a obrigatoriedade dos seguros contra acidentes de trabalho, a aplicação de um imposto progressivo sobre os rendimentos (quem ganhava mais, pagava mais), etc.
Sabemos como a História se desenrolou. O fracasso da I República deve-se, sem dúvida, à força das forças políticas de direita que levaram avante a contra-revolução de 28 de Maio de 1926. Mas, mais uma vez, há um pormenor revelador das circunstâncias que propiciam os saltos da História, segundo o relato de Fernando Rosas (outro dos oradores desta sessão). No meio de tantas leis republicanas, ninguém se lembrou de revogar a lei que não permitia o voto aos analfabetos. Ora, a grande grande maioria dos operários e camponeses, da população daquela época, eram analfabetos a quem não foi permitido que legitimassem pelo voto o seu apoio às novas políticas republicanas.
Como último pormenor… dizer que já há muito tempo que não me acontecia ser o mais jovem de todos os que estavam na sala.

1 comentário:

PQ disse...

Aprender com o passado é coisa de velhos e a velhice é um activo que anda pelas ruas da amargura.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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