Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











terça-feira, julho 04, 2006

Congo, ano 2000. Bambilo

Um velho, às vezes, não tem mais de 50 anos. Mas são 50 anos de malária, guerras e fome. Nunca se consegue sobreviver muito tempo a uma conjuntura dessas. Se o mosquito não os mata, é o escorbuto ou a lepra que os consome por fora até ao osso. Se não for a bala é a fome. Vidas inteiras a comer raízes e porrada. Uma brutalidade que nenhum de nós sabe avaliar. Uma brutalidade que ninguém sabe descrever. Chegar a velho é, assim, sinal de grande sorte. Como se tivessem sido escolhidos por Deus.Claudino dedica-se essencialmente aos velhos, à escola e ao posto médico. A escola vai melhor. Cinco palhotas, uma para cada classe e mais uma para sala de reunião de professores que o próprio Claudino formou. Não há livros nem sebentas. A biblioteca é constituída por revistas missionárias já muito antigas, mas sempre fascinantes, porque têm fotografias que são como janelas para um mundo muito diferente.
No posto médico, os medicamentos eram poucos. São trazidos por comerciantes que fazem a pé o percurso desde Bondo até Zémio, na República Centro Africana. Para lá, carregam nas costas carne fumada de elefante, búfalo ou chimpanzé, que vendem nos mercados do lado de lá da fronteira. Para cá, carregam medicamentos, munições para AK-47 ou caçadeiras de chumbo grosso e roupa. Os comerciantes demoram uma semana a ir e outra para voltar. Palmilham centenas de quilómetros e muitos morrem no caminho, vítimas de doença ou de assaltantes. Por isso, os produtos que trazem são caros. Por isso, havia poucos medicamentos no posto médico de Bambilo. Só a caixa dos preservativos estava cheia. “Não gostam de os usar”, disse Claudino.

5 comentários:

magnolia disse...

Um retrato da vida real... que nos passa ao lado, infelizmente. Um óptimo texto que me deixou deprimida.

Cactus Flower disse...

Um missionário que distribui preservativos...? Não há como estar perto das populações, partilhar o seu dia-a-dia, para saber do que realmente precisam. Pena é que a hierarquia da Igreja ande tão alheada da realidade no terreno. Pena também que eles não gostem "de os usar".

zecadanau disse...

Só para deixar um @bração após o meu regresso de uma ausência mais ou menos breve.

Zeca da Nau

Denudado disse...

Excelente, Carlos, a sua descrição das terríveis condições de vida das gentes que vivem nos confins de África. Nós não somos capazes de avaliar até que ponto essa vida pode ser dura e difícil.

À malária e à lepra que refere no seu texto, o Carlos pode acrescentar outras doenças, como a febre amarela, a doença do sono, as parasitoses intestinais (algumas das quais matam o seu hospedeiro), a cólera e outras ainda. Mas quero salientar uma doença que mata uma quantidade incrível de crianças em África: o sarampo. Esta doença, que aqui na Europa não passa de uma chatice («que chatice, não podemos ir para fora no fim-de-semana porque o Pedrinho está com sarampo...»), é quase inevitavelmente mortal em África, por causa da subnutrição, das parasitoses intestinais, etc. Quando uma epidemia de sarampo se manifesta, é toda uma geração de crianças que é aniquilada da face da terra!

Ana Afonso disse...

Olá
Obrigada. Pela lembrança do retrato da vida real.
Sempre que sou lembrada das coisas verdadeiramente importantes como não morrer de fome nem malária penso como são minusculos os nossos queixumes por aqui :)
Abraços e sorrisos
ana afonso

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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