Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











quinta-feira, julho 13, 2006

Angola, Cuíto. O orfanato

Das várias vezes que estive no Cuíto, visitei sempre o orfanato da cidade. Se procurava tema de reportagem, aquele era dos fáceis de fazer. Para onde quer que virássemos a objectiva da betacam, havia sempre um “bom boneco” no enquadramento. Era um edifício de rés-do-chão e primeiro andar. Deve ter sido em tempos uma escola, pela traça do prédio. Mas acabou em orfanato, dadas as circunstâncias da guerra. Viviam dentro daquelas paredes dezenas de crianças, de todas as idades. Havia bebés e adolescentes, rapazes e raparigas. Muitos eram deficientes. Físicos e mentais, consoante o estrago feito pela mina ou pelo susto. O edifício era uma ruína difícil de descrever. Podem ver, nas fotos, as paredes esburacadas pelos obuses, remendadas à pressa com tijolo e pouco cimento. No recreio, permanecia espetado no chão o esqueleto de um baloiço.Aqueles miúdos eram sobreviventes. Estavam vivos, depois de todos os outros terem morrido. Escaparam a bombas e minas, a violações e abandonos. A casa era gerida por três senhoras, que diariamente praticavam vários milagres. Era o da multiplicação dos grãos de milho e da farinha de mandioca. Era o milagre dos andrajos para tapar os corpos vivos e o da força para cavar novas sepulturas. Era o milagre da lenha para cozinhar para tanta fome. O Cuíto é uma terra de milagres, disso não tenho dúvidas.

3 comentários:

VN disse...

Como dizes "Aqueles miúdos eram sobreviventes" e merecem umas vida melhor ! Como será a vida deles agora, em 2006?

Sónia disse...

Hum, bonecos fáceis, tema dificil. Escreve lá mais um bocadinho, mesmo que isso implique um bom bocado de sofrimento. Talvez as senhoras mereçam. Talvez eles precisem, mesmo que nunca venham a saber.

Denudado disse...

Quando vejo as notícias de certas canonizações, como as dos pastorinhos de Fátima ou a de um tal Escrivá de Balaguer, não consigo evitar uma sensação de profunda injustiça. Afinal, os verdadeiros santos nunca estarão nos altares, porque se dão por inteiro aos seus semelhantes longe dos holofotes.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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