Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











quinta-feira, maio 25, 2006

Costaleras do Amor (3)

A 3ªestação desta via sacra:

Posta a parihuela na rua, as mulheres trazem do fundo da garagem vários tijolos de betão que vão dispondo no cimo da estrutura. Têm que levantar cerca de uma tonelada, o peso que terá o passo em procissão. Cada uma carrega mais de 30 quilos.
Avançam sob as ordens de um capataz, por chicotas, trajectos que raramente ultrapassam os 200 metros. O trabalho é árduo. Meia hora depois da saída o cansaço transparece no rosto das costaleras, as garrafas de água começam a passar de mão em mão. Talvez por isso a formação deste grupo de mulheres tivesse sido tão mal recebida pelas irmandades. “O mundo confrade é muito machista”, afirma o segundo capataz, José Delgado de 33 anos, técnico de ar condicionado. “Mas elas souberam criar um estilo único e conseguiram ser respeitadas”.A fundadora recorda o quanto foram aplaudidas na praça das Tendillas, a Passagem Oficial da Semana Santa em Córdova. “Fomos primeira página do El País e abertura do telejornal”, acrescenta com emoção. Suportou durante 13 anos o peso do passo da Virgem da Encarnação, graças ao pai que se comprometeu a pagar qualquer eventual estrago.
Vários confrades abandonaram a irmandade, e ouviam-se críticas das mulheres à porta de casa: “Vai mas é para casa esfregar os pratos”. Eram as que mais doíam porque o sentimento machista é por vezes responsabilidade do sexo feminino. “Afinal cada homem é educado por uma mulher!”, exclama Rafaela.

4 comentários:

Lâmina d'Água, Silêncio & Escriba disse...

De fato nós mulheres, reclamamos de nossos homens, sejam eles nossos pais, maridos, amantes, filhos, amigos... No entanto são todos frutos e em muitas coisas, do que nós mesmas passamos a eles, direta ou indiretamente. Para minha sorte tive um pai revolucionário e com uma cabeça muito à frente de seu tempo e me permitiu não cometer esse erro grave com meu filho. Quando ele nasceu, tive o cuidado de me vigiar para não repassar a ele, os erros que vi minha mãe cometer com meu irmão e esse somente se safou, por ser filho do meu pai...

Mas é obvio que grande parte do machismo é resultado do que as mulheres ensinam aos homens. Sem a menor dúvida. Mesmo que essa educação não tenha sido através de palavras ou gestos, de algum modo velado, o exemplo foi dado...

Beijinhos...

Cris

Também atravessei o oceano só pra te dar um abraço...

Anónimo disse...

Eu bato-me muito pela igualdade de oportunidades, mas sinceramente conquistar lugares que a modernidade já deveria por si ter extinto parece-me um absurdo. Com tanta coisa por fazer, justifica-se o empenhamento de alguém - homem ou mulher - num martírio daqueles? Claro que se o fazem é porque acreditam que sim, mas para mim têm o mesmo valor dos monges que passam uma vida a rezar para salvar o mundo: não seria mais cristão meter as mãos na massa e fazer de facto alguma coisa para ajudar o próximo? Porque se a ideia é simplesmente ocupar um nicho que até aqui era masculino, então pior: é como aplaudir a mulher que, com grande mérito pessoal, venha a ser a primeira a accionar uma cadeira de execução eléctrica...

manuela.

(claro, nada disto retira mérito à reportagem cujo fim é apenas reportar na forma mais bela possível)

125_azul disse...

Se ao menos nos entendesse-mos...e repara que estamos a falar de assuntos religiosos, cristandade, semana santa...então e tolerância? É só uma palavrinha???

Sonia disse...

Ora aqui está uma frase que sintetiza a perpetuação do machismo, sem uma vírgula a mais ou a menos. Não quero com isto dizer que a questão seja linear, não é. Mas aos 33 anos, ainda olham para mim de lado se saio sozinha à noite, se sei mudar um pneu ou opinar sobre futebol. Com isto vivo muito bem. Mas irrita-me profundamente que tenha de trabalhar mais do que um homem para ser considerada igual a ele. Sem falar da liberdade sexual. Vai existindo é certo mas com um preço inflacionado. Uma homem com muitas amantes é um “garanhão” já uma mulher…

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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