Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











quinta-feira, maio 18, 2006

Congo, ano 2000. Le Palais Gbadolite

O defunto ditador, Mobutu Sese Seko, tinha um carinho especial por Gbadolite, uma pequena cidade encostada à fronteira norte do Zaire, a fronteira com a República Centro-Africana. Compreende-se, era a sua terra natal. Fez da aldeia uma cidade. Dotou-a de estruturas que poucas cidades no Mundo se podem gabar de ter. Exemplos? Um aeroporto capaz de albergar o Concorde, com uma pista com 4 quilómetros de comprimento e uma gare modernaça, toda envidraçada, com free-shops e tudo. Além disso, Gbadolite tem uma central de energia eléctrica produzida pela força da corrente do rio Congo. O rio ali corre com força, como podem ver nestas fotos aqui, e a central trabalha ininterruptamente em automático até que alguma peça se parta e a engrenagem paralise. Enquanto isso não acontecer, Gbadolite tem luz eléctrica e de borla. Mas, além disto tudo, Mobutu tinha uma casa ali. Mandou construir uma catedral e um palácio e, ainda, uma cidadela chinesa… vou mostrar isso tudo. Começo pelo palácio. Três pisos de salões imponentes e terraços rasgados para vários hectares de jardins decorados com estatuetas e repuxos iluminados de noite por lâmpadas multicores. Do jardim, sobram alguns arbustos finalmente libertos da tesoura dos jardineiros, mas quase tudo foi já engolido pelo mato. Lá dentro, já desapareceu a mobília estilo Luís XIV, os lustres, as torneiras em ouro, as chaise-long, levaram tudo menos as paredes e as mesas de 20 metros de comprimento, feitas de mármore alentejano e tão pesadas que ninguém se atreveu a roubá-las. Mobutu teve o prazer de mandar construir o Palais Gbadolite. Kabila deixou que fosse pilhado e destruído. Jean Pierre Bemba nunca soube o que fazer dessa herança.
Mobutu esteve aqui, pela última vez, em 16 de Maio de 1997, na véspera da entrada de Kabila em Kinshasa.Deve ter andado por estes salões, talvez tenha celebrado a sua última ceia com os fiéis numa daquelas mesas de pedra alentejana. Daqui seguiu para o aeroporto, onde nunca nenhum Concorde aterrou, a caminho do exílio no Togo e, mais tarde, em Marrocos. Uma memória que vai desaparecendo. O tempo deitará abaixo o símbolo de tanta vaidade.

2 comentários:

escrevi disse...

Se não visse, não acreditava!

Cãocompulgas disse...

Impressionante como são altos certos voos e aparatosas as quedas...

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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