Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











domingo, fevereiro 12, 2006

Sarajevo, 1994 - o jornal da libertação

Em Sarajevo não havia água canalizada e a comida escasseava. As pessoas só se lavavam nos meses quentes, na via pública, em locais onde havia roturas nas canalizações ou nas bocas de incêndio onde a pressão ainda permitia que a água corresse. A comida era distribuída pela ajuda humanitária. Vi gente que cultivava tomates e batatas em vasos, dentro de casa… não havia gás para cozinhar, não havia energia para aquecer as casas. A cidade não tinha nada, mas havia um jornal que saía diariamente. Chamava-se Oslobodjenje (Libertação) e, na época, havia uma aura de heroísmo ao redor do jornal e de quem o fazia. Lá fui para a reportagem da praxe, visitar as catacumbas onde o jornal se escrevia e se imprimia, falar com os jornalistas, espreitar pela janela a proximidade dos snipers sérvios, verificar in loco o sacrifício daqueles tipos… sim, era tudo verdade, mas o Oslobodjenje já não era um jornal de jornalistas. O jornal prestava um serviço político à facção muçulmana do conflito bósnio. Na prática, era um órgão da resistência contra os sérvios. E era um documento estranho. Tinha sempre uma história de primeira página, a manchete, mas depois o resto do jornal era ocupado com uma imensa lista de necrotério… nomes e nomes e nomes, às vezes com foto, de gente morta, alegadamente às mãos do inimigo. O edifício tinha sido quase totalmente destruído dois anos antes, em Agosto de 92, por bombardeamentos sérvios. Era um edifício longo, com uma torre alta de três ou quatro andares. A estrutura metálica da torre tinha ficado torcida, mas permanecia de pé, como uma árvore seca. Lembro-me de dizer, nessa reportagem, que lhe “tinham destruído o físico, mas não a alma, que continuava viva nas catacumbas”… custava o equivalente a 50 escudos, hoje diríamos 25 cêntimos. E esgotava todas as edições, diariamente, apesar de não passar de uma longa lista de necrotério. Ou talvez por isso mesmo…

sábado, fevereiro 11, 2006

Congo, 2001 - A Expedição, em busca do gorila perdido

O sonho de qualquer biólogo é descobrir uma nova espécie animal ou descobrir algo que se julgava extinto… às vezes, esse sonho realiza-se.
Outras vezes…
A primeira vez que se falou da existência de gorilas na África Central foi em 1898 quando uma expedição colonial, chefiada pelo oficial da coroa belga Le Marinel, trouxe três crânios de gorilas recolhidos algures perto de Bili, localidade no norte da República Democrática do Congo. Dois desses crânios pertenciam a animais que tinham sido caçados e cozinhados por indígenas, o terceiro foi encontrado vivo e morto a tiro por um dos soldados da expedição. Os crânios foram recolhidos no Museu da África Central em Tervuren, perto de Bruxelas, onde ainda estão. Foram classificados como uma nova subespécie de gorilas: o Gorila Uelensis, por referência ao Rio Uéle que passa perto de Bili.
Mas nunca se investigou a existência destes animais, malgrado alguns relatos mais ou menos credíveis, tanto de europeus como de habitantes locais, sobre a existência de grandes macacos a viver naquelas florestas. Grandes macacos a quem os nativos chamam “babi”, para os diferenciar dos chimpanzés normais a quem eles chamam “mokumbusso”. O grande isolamento desta região, bem no centro do continente africano, acabou por se transformar no principal atractivo desta terra, isto aos olhos dos cientistas modernos. Eles acreditam que esse isolamento terá possibilitado a sobrevivência de espécies animais desconhecidas que, de outro modo, teriam sido exterminadas pelos caçadores humanos. Foi com este pensamento que um grupo de biólogos passou mais de um mês embrenhado na floresta tropical, numa investigação destinada a resolver um dos mais antigos mistérios da biologia: o motivo porque as duas espécies conhecidas de gorilas vivem em lados opostos do continente africano, separadas por milhares de quilómetros, sem qualquer contacto ou ponte entre elas. Com base em ténues indícios históricos e dando algum crédito a depoimentos da população local e de quem por ali já passou, a Ciência aceita a possibilidade de haver, nestas florestas, uma população sobrevivente de gorilas, a tal ponte entre as duas espécies. Mas os cientistas têm uma pergunta ainda maior… o ponto zero de qualquer árvore da evolução animal, sempre ficou por descobrir. Assim, sendo verdade que o gorila é o parente mais próximo do homem nessa evolução, algum antepassado comum deve ter existido há muitos milhões de anos. A descoberta de uma população de gorilas isolada há milénios poderia dar algumas respostas nessa busca do antepassado comum…
Chegámos a Bili cheios de esperança. Eu e o João Duarte, com esperança em sair dali com uma boa história. Os cientistas sonhavam com a glória...

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Sarajevo, 1994 - nascer orfão

O Hospital Francês de Sarajevo tinha 13 andares. Todos os andares estavam destruídos por bombardeamentos assassinos. Fizeram tiro ao alvo ao edifício, mesmo sabendo que era um hospital. Porque prestava assistência a soldados feridos… naquele tempo, só funcionava no rés-do-chão e cave e, mesmo assim, com geradores e sem água canalizada. Os corredores transformados em enfermarias entupidas de gente deitada pelo chão e em algumas macas. Era um mar de corpos, uns vivos, outros mortos. Fomos lá para filmar uma extracção de bala da perna de uma senhora, alvejada no dia anterior por um sniper. Esperávamos autorização para entrar no bloco quando ouvi, mesmo ao meu lado, um som estranho. Parecia uma coisa a despegar-se… olhei e vi uma mulher, ainda jovem, deitada na maca, de mãos crispadas agarradas ao rebordo da maca, olhos muito abertos virados para o tecto, de pernas abertas, destapada… e vi o miúdo a nascer. Sozinho. Tudo num estranho silêncio. A mãe de lábios cerrados, a criança a nascer num esforço solitário. Chamei uma enfermeira. A parturiente foi levada e o bebé acabou o esforço de nascer já assistido por outros seres humanos. Estava vivo mas teimou em não chorar. Quando tentaram pô-lo no peito da mãe, foi rejeitado, silenciosamente.
Aquele bebé era resultado de violações repetidas sofridas pela mãe às mãos de soldados inimigos. Jamais seria aceite pela mulher que o pariu.

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Angola, a guerra ainda

Acabei de ouvir, na TSF, notícias de última hora que me fizeram retroceder no tempo, como se a guerra em Angola ainda não tivesse terminadoMataram o missionário Afonso Moreira. O padre Moreira tinha 80 anos, estava em Angola há 55. Em 1960 foi para a missão do Bailundo e nunca mais de lá saiu. Viveu ali toda a guerra civil. Quem conhece o Bailundo pode avaliar como isso deve ter sido difícil. O Bailundo é uma pequena vila, num cruzamento de estradas. Serviu de quartel-general a Savimbi durante muitos anos, mas ao longo de toda a guerra civil o local foi tomado e reconquistado várias vezes pelos exércitos em conflito. Muitos fugiram, mas o velho padre sempre ficou ali, junto do povo. Morreu agora, baleado.
Logo a seguir, outra notícia devastadora. No Andulo, uma mina anti-carro matou duas pessoas e fez 28 feridos, seis dos quais com gravidade. O Andulo é um município da província do Bié, curiosamente não muito longe do Bailundo e, também, foi uma das praças-forte da UNITA. A mina rebentou junto a uma ponte sobre o rio Ambandi, a mais de 100 quilómetros de distância do Cuito.
Angola é um dos países mais minados do Mundo. O número estimado de minas ainda enterradas é de 8 milhões... Realmente, a guerra ainda continua.

Sarajevo, 1994 - a biblioteca

A biblioteca de Sarajevo ardeu em Agosto de 1992. Dois anos depois, já só vi paredes calcinadas e cinza compactada pela chuva. Os habitantes da cidade chamavam à biblioteca Vijecnica, que significa, pelo que me explicaram, “coisa pública”. A biblioteca era um dos orgulhos da cidade. Tratava-se de um local com séculos de história, livros muito antigos, alguns muito raros, com testemunhos de Impérios já desaparecidos, o Austro-húngaro e o Otomano. Eram milhões de livros. Com eles fizeram uma bela fogueira, ateada por um bombardeamento dirigido propositadamente contra o edifício. Mesmo depois da biblioteca queimada, o edifício foi, durante toda a guerra, sempre bem "guardado" pelos snipers sérvios. Embora sabendo isso, eu e o Vítor Caldas não poderíamos deixar de lá ir… já no final da reportagem, uma senhora, encostada à parede de uma casa, avisou-nos que os snipers sérvios, ali a pouco mais de 150 metros, da outra margem do Miljacka, estavam a olhar para nós. Era a hora de sair dali.
A guerra terminou em Dezembro de 1995, com um país destruído e retalhado, 250 mil mortos (cerca de 1/8 da população bósnia). Sarajevo resistiu sempre, num cerco de 40 meses. Estou convencido que o segredo dessa resistência esteve na “alma” daquela gente. É que não havia só muçulmanos a defender a cidade. Havia croatas e sérvios, também, que se consideravam, acima de tudo, cidadãos de Sarajevo. Havia judeus e cristãos que, ao lado dos muçulmanos, resistiram à força dos brutos que, entre muitas outras coisas, queimaram a bela biblioteca da cidade.

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Sarajevo, 1994 - sniper Avenue

Mikki tinha sido director de programas infantis da televisão da Bósnia, mas ganhava a vida como condutor de carros alugados a jornalistas estrangeiros. Já há muito que a sua televisão deixara de ter programas infantis… ou de qualquer outro tipo. O serviço resumia-se a um bloco informativo e pouco mais. Não sei se Mikki foi um bom director, mas era um excelente condutor. O carro era um Lada, velho e esburacado. Mas andava bem. Mikki estimava aquele carro, não só porque era o seu ganha-pão mas, porque, do bom funcionamento do carro podia depender a sua sobrevivência física… e a dos que o acompanhavam. Havia um percurso particularmente perigoso. E era inevitável. Refiro-me à grande avenida marginal ao rio Miljacka, mais conhecida por Sniper Avenue. E não era à toa que assim lhe chamavam. Morreram ali centenas, talvez até milhares de pessoas. O asfalto esburacado pelo impacto dos obuses, todos os edifícios tinham marcas de balas, todos os vidros de todas as janelas estavam partidos. Imensos blocos de cimento atrapalhavam a marcha, de modo que era preciso conduzir serpenteando por entre os obstáculos. Só que era preciso fazê-lo a mais de 100 à hora. Se possível, sempre mais rápido que o voo das balas. Uma vez sentimos um impacto no carro, mas não percebemos onde tinham acertado. Só quando parámos em local seguro pudemos inspeccionar o carro. A bala tinha entrado pela bagageira, furado o banco traseiro e tinha-se alojado nas costas do banco do condutor. Estava lá… parou a milímetros das costas de Mikki. Passou a milímetros ao lado do Vítor Caldas, que estava sentado atrás. Nós éramos dos poucos que usávamos um “soft car”. Todas as televisões com algum dinheiro para investir naquela aventura e algum respeito pelo bem estar dos seus funcionários, alugavam na Alemanha, em Itália ou mesmo na Croácia, carros blindados. Já então a SIC revelava uma ignorância perigosa sobre os locais para onde enviava jornalistas e sobre as condições de trabalho que lhes devia proporcionar. Muitos de nós tivemos sorte. Só a Maria João Ruela não teve. Como se sabe, bastaram-lhe 10 minutos de Iraque para ser baleada e ficar a sofrer para sempre de uma deficiência física.

Chegou o Carnaval

A acreditar no 24 Horas e no Correio da Manhã, a Manuela Moura Guedes abriu uma guerra de alecrim e manjerona com o José Alberto Carvalho. Basicamente, chama-lhe cinzentão, o que não traz mal ao Mundo. As diferenças entre os dois são notórias: ela é desbocada, desabrida e opinativa, com ímpetos de líder, ele é tímido, sóbrio, sonso e é acusado de não saber decidir.
Esta rivalidade não vale o papel e a tinta gastos na impressão dos jornais… mas trouxe-me à memória uma história recente. Foi no Verão de 2004, na noite em que ardeu o Convento do Beato. A TSF é ali mesmo ao lado, assim que foi dado o alarme nos bombeiros já eu lá estava. Passado um bocado, aparecem o Moniz e a Manuela… estranho, não? É que estavam a jantar ali perto, ouviram a notícia e foram ver… Moniz cumprimentou-me educadamente, eu e ela fizemos uma festa maior! Trabalhámos juntos vários anos, no Jornal das 9 do Canal 2. Demo-nos bem, nesse tempo. Penso que tinha algum jeito para escrever para ela. Escrevi-lhe muitos pivots, notícias que ela lia na apresentação do jornal. Chegámos a ser amigos, mesmo, acho eu. Houve uma passagem de ano em casa dela, numa altura em que o namoro dela com o Moniz ainda não estava oficializado… depois, nunca mais nos tínhamos encontrado. Eu na SIC, ela na RTP e, mais tarde, na TVI… e 12 anos depois, ali estávamos, a rir juntos, de novo. Como tinha de trabalhar, a rádio obriga a directos de meia em meia hora, pedi-lhe o número de telefone, para continuarmos a conversa, mais tarde, noutro sítio. Vi o olhar dela desviar-se, vi (pelo canto do olho) o Moniz a abanar a cabeça… e ela a dizer-me “ah… não! Deixa lá… ando sempre a mudar de número. Telefona para o geral da TVI!”

terça-feira, fevereiro 07, 2006

Angola, a kamanga

Cafunfo é uma aldeia na Lunda Norte. A particularidade desta aldeia é que tem uma pista de aviação, de terra batida, construída pela engenharia militar do exército angolano (penso eu). Durante a guerra civil, foi uma das principais bases operacionais dos Comandos das FAPLA que combatiam a guerrilha da UNITA.
Estive no Cafunfo várias vezes, em 1998, com o Carlos Santos (camera-man). Dali partíamos de helicóptero para outras localidades… ao contrário do que possa parecer, não era um trabalho muito excitante. A maior parte do tempo era de espera. Longas esperas, muitas em vão…Um dia, em que esperávamos ordem de marcha para qualquer lado, chegou um avião de Luanda. Fomos até à pista, ver quem chegava. Era gente anónima, tipos aventureiros, que iam para o negócio dos diamantes, a kamanga. Uns iam para o garimpo, outros apenas para a transacção. Mas, todos, chegavam ali com a esperança de ficarem ricos no dia seguinte… o que nunca acontecia, claro… Cafunfo, como toda a região diamantífera próxima da fronteira com o Congo, é uma espécie de far-west africano. Todos têm uma arma, os assaltos são constantes, os assassinatos são tema banalizado. Mas quem lá chega pela primeira vez, ainda só sabe de ouvir dizer e não releva a insegurança, o medo, o perigo, só pensam nos diamantes… Dessa vez, enquanto observava os que desciam do avião, lembro-me de ouvir um mulato dizer, para si mesmo, enquanto batia com os pés no chão com força, “eles estão aqui! Eles estão aqui!”

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Congo, 2001 - A Expedição, o missionário voador

Um pouco acima da linha do Equador, a norte do Rio Uéle, a sul do Rio Ubangui, fica a pista de aviação onde poisamos. A época das chuvas tinha parado havia pouco mais de um mês e o chão pantanoso da floresta tropical estava já suficientemente duro para permitir o poiso do avião. Na época das chuvas a lama é tanta que tentar aterrar ali significa desfazer o avião.
Nesta região norte da República Democrática do Congo vive a tribo Azande, um dos muitos povos que constituem o mosaico da Nação congolesa. Os Azande têm o seu próprio dialecto, o kizande, mas falam também lingala, uma das línguas nacionais do Congo, além de francês, o idioma dos últimos colonos brancos que dominaram o país até à independência, em 1960.Quando aquele pequeno avião aterrou, terminaram 8 longas horas de voo sobre mato e florestas de cinco países africanos, Quénia, Uganda, República Centro-Africana, Sudão e Congo. Uma grande volta aérea para contornar as linhas de combate de uma guerra civil que dividia em três partes o grande Congo. O norte pertencia a Bemba, o principal dirigente rebelde que se opunha ao reinado da família Kabila.
Quem nos levou até lá foi um homem branco, nascido no antigo Zaire, filho de missionários protestantes de nacionalidade norte-americana. Ron cresceu no Zaire e na República Centro-Africana, estudou nas várias missões em que os pais trabalharam, aprendeu os usos e costumes dos povos com quem conviveu, fala vários dialectos tribais. Quando chegou a altura de ir para a Universidade, viajou até aos Estados Unidos onde continuou a estudar. Tirou o brevet de piloto comercial, trabalhou no Alaska como piloto e regressou a Àfrica para prosseguir a missão missionária dos pais. Ron e o seu pequeno avião são, para muitos missionários espalhados nas zonas mais inóspitas do Continente Africano, o único elo que têm com a civilização.
Quando pisei aquele chão, estava a começar a mais fantástica viagem da minha vida, até hoje.

domingo, fevereiro 05, 2006

Caricaturas

A “revolta das caricaturas” está a tornar-se na própria caricatura da intransigência muçulmana. Os desenhos publicados num jornal dinamarquês não ofendem ninguém, a não ser que se ande à procura de um pretexto para criar confusão. Nesse caso, qualquer pretexto é bom. Parece-me que é isso que se passa…
Não faz qualquer sentido levar a violência até ao ponto a que chegou. No Líbano, foram dezenas de feridos em recontros entre manifestantes violentos e a violência policial. Depois do consulado dinamarquês em Beirute ter sido incendiado, o embaixador abandonou o país e deixou um apelo a todos os cidadãos dinamarqueses para saírem, também. Em Damasco, na Síria, foram queimadas as embaixadas da Dinamarca e da Noruega. A embaixada da França está rodeada de fortes medidas de segurança, depois de ter sido alvo de uma tentativa de invasão e atingida por numerosas pedradas.
Em Gaza, o governo francês mandou encerrar a escola francesa e aconselhou os cidadãos franceses a permanecerem em casa ou a viajarem para a Europa. As coisas chegaram a um ponto de difícil justificação. Esta violência só dá argumentos às forças políticas de direita que querem fazer uma Europa fortificada e fechada a emigrantes oriundos de países muçulmanos, do Médio Oriente e de África.
As manifestações de protesto realizadas em países europeus, têm sido mais serenas, embora com apelos à violência vingativa e ameaças de atentados.
Os muçulmanos têm de aprender a rir. A rir deles mesmo. É uma demonstração de inteligência. Ao contrário, a violência raramente é um acto de inteligência.

Batalhão Búfalo

Aqui há dias vi, no Telejornal do Canal 1, uma reportagem do António Mateus sobre o recrutamento dos antigos militares do Batalhão Búfalo, como mercenários para missões nos actuais palcos de conflito, nomeadamente Iraque e Afeganistão. Aquilo não era bem uma reportagem, era mais uma notícia documentada com algumas imagens referentes aos protagonistas.
O António Mateus repôs partes de duas reportagens (essas sim) que ele fez há anos na base do exército sul-africano em Pomfret, onde podíamos ver a base do Batalhão Búfalo durante a guerra e, mais tarde, já desactivada. O Batalhão Búfalo, de facto, merecia um esforço melhor para que a sua história pudesse ser conhecida. Eles foram o Batalhão 32 do exército sul-africano que serviu o apartheid.
Eram indígenas das etnias do sul de Angola, exímios combatentes, que fizeram a vida difícil ao MPLA, mas também à SWAPO e aos guerrilheiros do ANC.
O Batalhão 32 foi dissolvido em 1993. Os ex-militares foram perseguidos pelos novos poderes emergentes em Angola, na África do Sul e na Namíbia. Proscritos na sua própria terra. Muitos morreram na maior das indigências.
A pobreza e o desprezo a que foram votados levou-os, naturalmente, a procurarem meios de subsistência onde quer que fosse. Reconhecidos como soldados exímios, não foi difícil cederem às ofertas das empresas de contratação de mercenários que ajudam a alimentar guerras e golpes de estado. Membros do antigo Batalhão Búfalo já foram encontrados, vivos e mortos, em conflitos tão distantes como a guerra da Costa do Marfim ou o golpe de estado nas Seychelles.
Lembro-me de ter lido, há anos, declarações de um desses antigos soldados sul-africanos, onde se dizia mais ou menos isto: "Somos soldados, mas podíamos ser carpinteiros, pedreiros, electricistas e canalizadores, ofícios que poderíamos exercer para nos levantarmos de novo. A nossa gente está desesperada, mas aprenderá seja o que for para sobreviver".
Acabaram no lado errado da História, tal como dizia o António Mateus nessa peça do Telejornal. Dificilmente sobreviverão.

sábado, fevereiro 04, 2006

Congo, 2000 - os trabalhos de Alfredo Neres (2)

Aquela era a primeira visita de Jean Pierre Bemba à região. O Chefe nunca lá tinha ido. Foi, por isso, uma visita preparada até à exaustão. Vieram todos os chefes tribais, vieram os curandeiros e os comerciantes mais ricos. Vieram os traficantes e os cabos de guerra. Durante horas, Bemba recebeu-os, um por um. A uns deu ordens, com outros fez negócios. Só não falou com os padres brancos, vá-se lá saber porquê. Os militares juntaram o povo num descampado onde tinham construído um django para que o Chefe pudesse beneficiar de sombra e de cadeirões confortáveis. Foi dali que Bemba falou ao “seu” povo que, obedientemente, esperou horas a fio, debaixo de sol, pelas palavras do Chefe.
Bemba fez um discurso politicamente correcto. Prometeu paz, justiça e progresso. O padre Neres nunca duvidou de que era um discurso mentiroso e disse-o, logo no dia seguinte, na missa que deu em Nzebilo, uma aldeia a cerca de duas horas de bicicleta. Naquele sermão, Neres lembrou a dureza de vida imposta por aqueles chefes, lembrou que para eles o povo pouco mais era que carne para canhão, lembrou as crianças raptadas e ensinadas a matar, as mulheres que os soldados violavam, a comida que lhes roubavam, lembrou os fuzilamentos sumários, lembrou o direito à indignação…
Pareceu-me um acto heróico.

O artista

O novo template deste blog renovado deve-se à camaradagem bloguística do Guardião, que também dá pelo nome de JB (só para os amigos). Foi ele quem deu o passo em frente e se volantarizou para a difícil missão. E se não ficou melhor foi porque eu não deixei...
... como de resto podem ver pelo template que o próprio fez no seu blog. Uma obra prima.

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Ora blogda-se!

Resolvi pôr a Escrita em Dia... o que acham da ideia? Confesso que blogda-se me soava bem, assim a modos de palavrão... mas isso talvez não fique bem a um senhor de 47 anos, como eu...
E, depois, estava a ter problemas para justificar o nome do blog, no meio que frequento. Como dizer, nos cocktails e salões de baile, que sou o autor de um blog chamado blogda-se... as tias ficariam horrorizadas e, isso, é que nunca. Pronto, sendo assim, vamos lá continuar a pôr a escrita em dia. Ok?

Ainda as caricaturas

Está a crescer a fúria dos muçulmanos por causa dos cartoons satíricos sobre o Profeta Maomé. Ao mesmo tempo, cresce a resistência ocidental para qualquer medida contemporizadora em relação à liberdade de expressão e de imprensa. Tudo junto, está a criar um ambiente municiador de violência, um pouco por todo o lado. Os desenhos foram publicados, primeiro, num jornal dinamarquês e, mais tarde, apareceram em jornais da Noruega, França, Alemanha e Espanha.
Os desenhos são unanimemente considerados uma afronta, no conjunto dos países islâmicos.

Estas ondas de fúria clerical não são, de resto, novidade. Lembrem-se de Salman Rushdie, autor dos Versículos Satânicos, que teve de viver escondido anos a fio, porque tinha pendente uma sentença de um tribunal islâmico que o condenava à morte… e lembrem-se de Theo Van Gogh, o realizador de cinema holandês, autor de um filme sobre violência exercida sobre mulheres nos países islâmicos, que foi morto por um militante islâmico radical… As manifestações de hoje deram a volta ao Mundo. De Londres a Jakarta. Mas, por enquanto, a violência ainda não passou de gritos das multidões, de bandeiras queimadas e de umas pedradas contra embaixadas de países europeus. Mas são, notoriamente, manifestações só de homens… e a ausência de mulheres é a demonstração do deficit democrático destas sociedades…
Nessas manifestações têm aparecido muitos cartazes contra o exercício da liberdade de expressão. Cada um desses cartazes é um “tiro no pé” das causas islâmicas. Mesmo os europeus mais sensíveis aos argumentos políticos dos islâmicos se afastam deles, quando se põem em causa princípios fundamentais como são a liberdade de expressão e de imprensa.

Sarajevo, 1994 - Hollyday Inn

O Hollyday Inn era o único hotel possível. Visitei outros, mas tinham todos sido bombardeados, queimados, pilhados de tal modo que o room service seria abaixo de cão… No Hollyday Inn ficavam, de resto, todos os jornalistas enviados para Sarajevo.
Quando a lotação esgotava, os recepcionistas tinha um esquema bem montado para reenviar clientes para casas particulares. Mas o Hollyday Inn tinha a grande vantagem de estar na linha da frente. Localizado na margem direita do Rio Miljacka, ficava na fronteira entre o território controlado pelos bósnios muçulmanos e os sérvios que os cercavam. Esta localização privilegiada tinha, no entanto, alguns inconvenientes. Vou só relatar dois exemplos. Quando eu e o Vítor Caldas (camera-man) fizemos o check-in, fomos colocados no 12º andar… no último quarto vago. O 12 º piso era o último. Por cima havia, no entanto, um piso técnico, digamos assim, com arrecadações, os motores dos elevadores (que não funcionavam), depósitos de água, esse tipo de coisas. Numa dessas divisórias do piso técnico, “trabalhava” todas as noites um sniper… de modo que, nas primeiras noites, foi difícil conciliar o sono com o som dos disparos. Volta e meia, bang! Bang! Uma hora depois, bang! Bang! Chegámos a pensar em ir reclamar da má vizinhança, mas acabámos por nos habituar…
Outro inconveniente de estar muito próximo das linhas sérvias era que, o próprio hotel, era um alvo. Uma noite, à hora do jantar, que era servido numa sala do 1º andar com vista panorâmica para o rio, uma bala furou a vidraça e foi cravar-se na parede. Ninguém ouviu o disparo… apenas o tchuck! do projéctil a enfiar-se pela parede… num ápice, estavam mais de cem pessoas de joelhos, debaixo das mesas, num silêncio absoluto… até que alguém perguntou, em tom ansioso “is anybody hurt?...” e como ninguém gemeu… desatámos, todos, a rir de alívio… mas nunca mais o jantar foi ali servido.

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Teresa e Helena

Teresa e Helena serão as “padeiras de Aljubarrota” da causa gay, em Portugal.
Independentemente de estarmos de acordo, ou não, com o que pretendem, é preciso reconhecermos que estas duas têm coragem. É com pessoas como elas que o Mundo gira e avança. Esta atitude que tomaram vai provocar, obrigatoriamente, uma reacção dos tribunais. Elas, e o advogado, parecem ter já tudo bem planeado, na expectativa de serem obrigados a ir, de recurso em recurso, até ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem.
É assim que se muda o sistema. Parabéns.

Bissau, 1998 - Nino e o povo

Bissau, durante a guerra, era um cenário surrealista. Era a cidade do absurdo. As ruas vazias. As casas fechadas. As trincheiras da tropa senegalesa. Calor. Os bombardeamentos matinais. Os bombardeamentos ao pôr-do-sol.
Nos finais de Julho, numa tarde que já ia longa, estava encostado ao muro da casa, a deixar passar o tempo, quando aparece uma pequena multidão no final da rua. Era um grupo de homens, quase todos de camuflado militar. Avançavam lentamente, rua acima. Havia um que filmava. No meio do grupo estava o Presidente da Guiné-Bissau. De pistola à cinta…
Quando se aproximaram o suficiente, percebi então o que se passava. Nino acenava para uma multidão fictícia, como se recebesse ovações vindas das janelas fechadas, dos passeios vazios, das ruas desertas. O Presidente ria e acenava, de braços no ar, numa encenação de fraternidade de um povo que… de facto, não estava ali.
Neste teatro, Nino avançava pelas ruas de Bissau, rodeado de assessores e seguranças armados e filmado por uma equipa de reportagem do exército senegalês. Tratava-se de uma acção de propaganda completamente mentirosa.
Mal tive tempo de gritar para dentro de casa. O Carlos Aranha veio, mesmo descalço, com a Betacam ao ombro. Saltámos para a rua e avançámos para o grupo. Ouviram-se armas a serem engatilhadas e a voz de Nino a dizer “deixa, deixa”. A encenação virou entrevista. Feita em andamento, até à última trincheira senegalesa, junto ao depósito da água, perto do mercado do Bandim. Nino estava furioso com os jornalistas portugueses, principalmente com dois. Comigo, que não dava cobertura às mentiras do governo sobre o andamento da guerra. Com o Luís Castro, da RTP (entretanto chegado a Bissau), porque havia boas razões para pensar que o jornalista tinha levado uma encomenda do governo português para o líder da rebelião, o Brigadeiro Ansumane Mané. Que encomenda? Um telefone-satélite.

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Mais caricaturas

As caricaturas do Profeta Maomé foram publicadas, agora, em vários jornais europeus. Que eu saiba, pelo menos o France Soir e o Die Welt publicaram. Ambos com os mesmos argumentos: a liberdade de expressão acima de tudo.
Para a imprensa nacional, o caso nem merece tratamento. É como se não se passasse nada...

TSF, Sinais - fome de cão

"As 42 toneladas de comida para cães prontas a enviar aos meninos famintos do lago Vitória fariam parte de um kit que ensinasse os meninos a comer relva para vomitar quando tivessem dores de estômago? Os meninos poderiam comer o suplemento no chão? Os saquinhos incluiriam campaínha para ajudar os meninos a salivar?" Quem ouviu, hoje, a crónica do Fernando Alves, na TSF, só pode ter ficado indignado.

A crónica denunciava a dádiva de uma senhora neo-zelandesa, proprietária de uma fábrica de comida para cão, de 42 toneladas de ração animal para as crianças pobres do Quénia. É verdade que são pobres, é verdade que são pretos, mas não são bichos... Esta gente sem sentimentos só podem ser loucos. Deviam ser internados num manicómio. E tratados... com choques eléctricos.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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