A primeira vez que entrei na cadeia de Vale de Judeus foi para visitar o padre Frederico.
Shocking, isn`t it? Pois… fui lá perguntar-lhe se aceitava ser entrevistado por mim e submetido a um teste com um polígrafo, o vulgar detector de mentiras. Pensei que ele ia desatar a gritar pelos guardas para me porem dali para fora, mas não… olhou-me, com aqueles olhinhos redondos muito abertos, pensou e disse que sim.
O padre Frederico Cunha, brasileiro, cumpria pena de prisão por ter sido considerado culpado do homicídio de um rapaz, na Ilha da Madeira. O padre era membro da Ordem dos Crúzios, uns tipos meio estranhos, místicos, uma ordem religiosa oriunda da Holanda, se não me engano.
O padre Frederico tinha sido condenado por “convicção do tribunal”, ouvi eu o digníssimo juiz dizer quando proferiu a sentença. Só mesmo por convicção, porque ninguém tinha assistido ao crime e havia até várias testemunhas que ilibavam o padre. Mas, um tipo como Frederico Cunha tem sempre ar de culpado. Gordo, baixinho, suado, titubeante, meio gago, sotaque estranho, incapaz de olhar outros de frente, homossexual.
Confesso aqui que nunca acreditei na culpa do padre. Talvez isso tenha ajudado a convencê-lo a alinhar na história do polígrafo. É claro que, fosse qual fosse o resultado do teste, aquilo não passaria de um programa de televisão e, portanto, não iria influenciar quanto ao cumprimento da pena de prisão. Quer ele passasse no teste, quer não, continuaria preso a cumprir a pena decretada.
Pedi autorização para que o padre pudesse ser escoltado até ao estúdio para se gravar a entrevista. O Director-Geral dos Serviços Prisionais não viu inconvenientes e aceitou deixar que Frederico Cunha saísse da cela para ir à televisão. Mas ninguém sabia do polígrafo…
Quem manipulava a máquina era um tipo italiano, esperto na matéria, psicólogo ou coisa parecida. As questões eram combinadas com ele. Um interrogatório com polígrafo tem regras. Podia perguntar o que quisesse, mas tinha de combinar a sequência com o italiano. O programa foi feito. No final, o padre Frederico passou no teste: “fala verdade quando diz que não matou”; “fala verdade quando diz que não conhecia” a vítima do crime; “fala verdade quando diz que nunca se encontrou” com a vítima. Pode-se enganar um polígrafo? Pode. Mas é muito difícil. A máquina é usada pela CIA para controlar os seus próprios agentes, é usada pela Mossad e por outras polícias no Mundo.
Quando o programa foi exibido, caiu o Carmo e a Trindade. Que ofensa às instituições! Que afronta à dignidade dos tribunais! Que nojo de televisão! Proíbam-no! Calem-no! Fechem a baiuca! Ponham-no a ferros! Crucifiquem-no!
Meses depois, deixaram fugir o padre Frederico. Quando voltei a falar com ele, foi em Copacabana, Rio de Janeiro.
As fotos do padre Frederico foram gentilmente cedidas por Frederico Duarte Carvalho.