Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











sábado, junho 20, 2009

A missão de Moussavi


Acho espantoso como no Ocidente se olha para o que se passa no Irão. Quem nunca antes se tenha interessado pelo assunto e leia, agora, os nossos jornais e blogues, ou oiça as nossas rádios e veja as nossas tv’s, há-de ficar a pensar que há um democrata de longa data chamado Moussavi que pretende derrubar o regime vigente e alterar o estado a que se chegou no Irão, onde a teocracia dos Ayatollah’s domina com mão de ferro tudo e todos. Mas não é nada disso que se passa.
Moussavi não é um outsider do regime, nunca foi. Acontece que para os Ayatollah’s o tempo de Moussavi já passou e o rejeitado percebeu que tinha ainda uma janela de oportunidade para não secar politicamente se reaparecesse como reformador. Então, Moussavi reciclou-se, eventualmente angariou apoios entre os adversários da teocracia, dentro e fora do Irão, porventura terá recebido financiamento para alimentar uma campanha eleitoral e o séquito de apoiantes que o enquadrassem na cena política. As democracias ocidentais costumam ser generosas em situações deste género. Foi assim que, durante muitos anos, o PS de Mário Soares foi alimentado por patrocinadores alemães e americanos.
Na minha opinião, Moussavi jamais será um democrata (tem um passado demasiado tenebroso e que, num regime mais aberto, se pode voltar contra ele), mas poderia ser um reformador, permitir alguma abertura política, principalmente na questão dos costumes. Daí o apoio que as mulheres lhe têm prestado, ansiosas por abandonarem o tchador que elas sentem como símbolo da desigualdade e da falta de liberdade.
Nos anos 80, Moussavi foi um fiel servidor do Ayatollah Khomeini, o pai da revolução iraniana e o tirano que instituiu o actual regime. Acredito que, hoje, Moussavi continua a apostar nas virtudes do regime, mas percebeu que sem uma reforma que permita alguma descompressão social os Ayatollah’s acabarão por perder o apoio da maioria da população e o regime acabará por cair. Moussavi quer salvar os Ayatollah’s, não derrubá-los, mas quer ser ele a conduzir essa reforma. Como homem religioso que é, Moussavi sente que essa é a missão que Deus lhe confiou.
Ora, nada disto quer dizer que a democracia está para acontecer no Irão.

5 comentários:

joshua disse...

Certo, mas reciclado ou não, há gente a morrer pela esperança reformadora que ele representa e, no processo contestatário, essas multidões podem criar um efeito em espiral que transcenda largamente o seu símbolo Moussavi e lhe exija ainda mais que a mera transformação aveludada do Regime dos Ayatollahs.

O líder pode ser arrastado, como os capitães aprilinos nas suas insatisfações de carreira, para uma coisa inteiramente nova, maior que eles.

Fada do bosque disse...

Concordo plenamente com joshua!
Pena é que nós portugueses, não nos mobilizemos para algo inteiramente novo, mas muito melhor! Pior do que isto, só uma ditadura. Parece que por tanta inércia, chegaremos a esse extremo brevemente...

CN disse...

Joshua, eu diria que a esperança é uma arma de destruição em massa... se eu próprio não tivesse esperança de ver a vida melhorar. Há sempre alguém a morrer por causas próprias ou alheias, não vejo que no Irão devesse ser diferente. Acredito que para os iranianos, Moussavi seja um mal menor e, neste momento, o veículo possível para se tentar mudar alguma coisa... mas, para mim, que estou longe e posso ter um olhar crítico, não acredito que o homem valha o esforço e o sacrifício. Gostava que não fosse assim, mas é assim que vejo o processo político iraniano.

Fada do bosque disse...

Há quem diga que quem espera desepera.
Há quem diga que quem espera sempre alcança.
Há quem diga que a esperança é a última a morrer.
Há quem diga que a esperança é o pior mal do Homem.
Eu não sei o que dizer, mas penso também, que neste caso, a segunda hipótese não será de todo viável.

Fada do bosque disse...

Aliás e vendo bem, que foi feito da democracia? Pelo menos ainda não temos uma ditadura teocrática fundamentalista, e vemos já a social demoracia, a esvaír-se como areia de entre os dedos...
Penso que cá a esperança podia ser benigna, mas quem me garante?!

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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