Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











quarta-feira, maio 31, 2006

A organização do Estado

Fui de manhã à Caixa dos Jornalistas entregar comprovativos de despesas de saúde do meu agregado familiar. Consultas no dentista, uma radiografia, coisas assim. Por causa da radiografia já lá tinha ido uma outra vez. O papel não tinha sido aceite, porque faltava o comprovativo do pedido médico. Como se alguém andasse a tirar radiografias por gostar de ver os seus ossos… Agora, aconteceu que um dos recibos do dentista foi rejeitado. Porque falta a especificação do tipo de tratamento e o número do dente tratado! Que interesse tem para o Estado saber se a cárie é no segundo molar inferior direito, se no canino superior esquerdo?
Tenho de voltar ao dentista, por causa da especificação-escrita-e-certificada-sem-qualquer-margem-para-dúvidas-do-dente-tratado e, depois, regressar uma vez mais ao guichet estatal onde, finalmente, me aceitarão o papel e o respectivo pedido de reembolso.
Percebo que o Estado tente evitar as burlas, mas assim.... Até porque, enquanto ando para trás e para a frente, não trabalho. E depois vão-me chamar absentista.

terça-feira, maio 30, 2006

Despedimento com justa causa

A pandemia da SIDA é um flagelo em Moçambique, como todos sabemos. Os índices de contaminação da população são altíssimos, dos mais altos do Mundo. Um dos principais problemas prende-se com a qualidade da assistência médica prestada à população. Só recentemente o governo começou a disponibilizar medicamentos retrovirais para o tratamento da SIDA. As duas últimas viagens que fiz a Moçambique foram dedicadas a reportagens sobre o tema. Por isso, conheci bem a realidade da assistência hospitalar em Maputo, na Beira, no Chimoio.
Sou testemunha das tremendas dificuldades existentes e do fantástico trabalho dos médicos.
Por isso, foi com horror que soube que, há dias, o director do Hospital Central da Beira tinha despedido cinco médicos, cooperantes chineses e indianos. O horror tem que ver com as razões do despedimento… esses médicos foram acusados de tratamento arrogante com os doentes, motivo que levou ao afastamento de muitos utentes.
O problema é bem mais grave do que possam pensar. É que já é difícil que as pessoas queiram ir ao hospital de livre vontade. Os costumes tradicionais continuam a ditar lei e, primeiro, as pessoas vão ao feiticeiro. Depois, vão ao feiticeiro. Se não ficarem melhor, ainda voltam ao feiticeiro. Só em último caso vão ao hospital. Se não são bem recebidos, nunca mais lá voltam.
Por isso, tratar com arrogância um doente em Moçambique pode ser o mesmo que o condenar à morte. E isso é indesculpável.

segunda-feira, maio 29, 2006

Angola, 1999. Lágrimas de crocodilo

A última vez que regressei de Angola foi em Janeiro de 1999. Tinha feito uma viagem relâmpago, com o Renato Freitas camera-man. Na bagagem trouxemos as imagens do Cuíto cercado, na derradeira ofensiva da UNITA. Tínhamos “belos bonecos” da contra-ofensiva governamental, com imagens de combates tiradas à boleia de um dos blindados do governo. Numa dessas sequências, via-se de relance, mas via-se, um soldado da UNITA que se tinha rendido a ser interrogado e, logo a seguir, sumariamente fuzilado.
Essa sequência fechou a reportagem. Era um soco no estômago e a resposta a uma pergunta que já tinha feito inúmeras vezes e a que nunca me tinham respondido. Era por “aquilo” que não havia campos de prisioneiros de guerra… os únicos prisioneiros poupados eram os oficiais superiores, os que poderiam ter informações úteis quanto às tácticas do inimigo e saber dos pensamentos íntimos dos chefes. É verdade que nem todos os soldados rasos eram mortos. Alguns safavam-se, por algum prurido do inimigo, desde que passassem a combater contra o outro lado. Os angolanos sofreram coisas indizíveis, nessa guerra longa…
Enfim, tudo isto para vos dizer que soube, no dia seguinte à exibição da reportagem, que o Presidente da República tinha ficado muito incomodado com “aquilo” (eventualmente, verteu alguma lágrima) e que iria promover uma discussão pública para denunciar aqueles horrores. A informação tinha chegado por um dos assessores presidenciais que antes tinha trabalhado na SIC. Imagino que Sampaio tenha sido melhor aconselhado, mais tarde, porque nunca mais ouvi falar no assunto.

sábado, maio 27, 2006

Um pormenor da vida, no Iraque

Nunca estive no Iraque. Por duas vezes tentei entrar e fiquei na fronteira, no lado jordano. A concessão de vistos a jornalistas por parte do Iraque sempre foi obra do acaso e de políticas que favoreciam os nacionais das grandes potências mundiais ou os trabalhadores de empresas globalmente famosas e importantes. Nem a RTP, muito menos a SIC, alguma vez adquiriram esse estatuto e o nome de Portugal nem fazia estremecer a pálpebra do funcionário consular iraquiano... de modo que, com algum azar à mistura, nunca lá consegui entrar, tanto mais que, nas ocasiões em que o visto era garantido, porque a política era de portas abertas, as "estrelas da companhia" fizeram sempre valer as suas prerrogativas.
Enfim, nunca lá fui mas, claro, tenho acompanhado com interesse a evolução dos acontecimentos. O Iraque sempre tem sido notícia. Mas há coisas que, por mais jornais que se leiam ou mais televisão que se veja, há coisas que não nos apercebemos facilmente.
Como isto, por exemplo...

O primeiro conjunto de fotos diz respeito às actividades estudantis femininas, no campo desportivo, e data de 1963-1964... a outra foto diz também respeito a actividades estudantis femininas neste ano lectivo de 2006... As fotos são uma espécie de antes-e-depois da "libertação" propiciada pelos EUA. Não digo, com isto, que tudo estava bem no tempo de Saddam e que tudo vai mal, hoje. Acho que havia muita coisa mal, nos anos 60, 70, 80, 90, acho que o regime de Saddam foi um regime indecente sob muitos aspectos. Mas, realmente, acho que hoje tudo está bem pior, para a maioria dos iraquianos. E o pormenor revelado pela foto, é apenas isso mesmo... um pormenor.

Farmácias, só mais uma achega...

A nova lei das farmácias impede a manutenção do monopólio da propriedade das farmácias, até aqui privilégio dos farmacêuticos. Além disso, impede também que a propriedade da farmácia possa ser detida por médicos, laboratórios, distribuidores farmacêuticos, privados que prestem cuidados de saúde e subsistemas que comparticipem no preço dos medicamentos.
Gostei!

sexta-feira, maio 26, 2006

Farmácias

O governo acaba de anunciar o fim do monopólio da propriedade das farmácias. Finalmente!
Um a um, os privilégios corporativos salazaristas estão a chegar ao fim. Os argumentos de Sócrates não podiam ser mais consensuais. Por que diabo haviam os farmacêuticos de ter a exclusividade da propriedade das farmácias? Por acaso, as escolas têm de ser propriedade de professores? As clínicas têm de ser propriedade de médicos? Os jornais são dos jornalistas? A TAP é dos pilotos?

Costaleras do Amor (4)

Último passo desta procissão:

O capataz dá três pancadas fortes no alto da estrutura. A pausa durou poucos minutos. À pressa, as costaleras dão as últimas baforadas nos cigarros antes de se colocarem debaixo da parihuela. “Vamos calar a boquinha aí debaixo. Vamos escutar e calar!”, ordena o 2º capataz. Olhando para dentro pergunta: “A traseira está?”. A resposta vem do fundo, “a traseira está.” Nova pancada antes de a estrutura se erguer num salto. “Todas por igual. Ao céu”. O rádio leitor de CDs começa a tocar o andamento da banda que acompanhará a Virgem da Encarnação. Seguindo o andar arrastado das mulheres, Rafael Martin, de 44 anos, desempregado, segura o rádio como se levasse a música ao colo. A t-shirt branca com o rosto da imagem impressa molda-lhe a barriga. Não falta a um ensaio. “À parte destas [coisinhas], venho pela minha Encarnação”, acrescenta. Cumprimenta toda a gente em tom de festa, e não consegue conter as lágrimas de mãos coladas ao rosto quando contempla a imagem da Virgem. A estrutura avança até deparar com mais um carro estacionado. “Parem aí!”, à ordem do capataz mudam de direcção num ângulo de 90 graus. “Pouco a pouco a esquerda à frente, pouco a pouco a direita atrás!”. Ensaiam durante várias horas pelas ruas do bairro. Às vezes começam a meio da tarde, outras à noite com uma luz giratória de sinalização de cargas pesadas em cima do passo. Por tradição, promessa, ou apenas por curiosidade estas mulheres decidiram entrar na confraria do Amor por 12 euros/ano. Trazem os filhos aos ensaios, passam-nos debaixo do manto da imagem e põem-lhes o costal. Por vezes desentendem-se. “Todas por igual, valentes!”, diz o capataz. Há até quem veja a Igreja com maus olhos. “Isso está tudo podre. Há interesses económicos, políticos, e mais...”, desabafa Verónica Relaño, de 23 anos. Na t-shirt negra tem escrito Full Contact , e nas calças justas Kiss Me. “Rezo todas as noites mas não tenho porque confessar-me a um padre. Dá-me vergonha”.
Os candeeiros de rua acendem-se com o cair da noite. Passaram mais de três horas de cigarros fumados à pressa pelas descidas à parihuela, de garrafas de água esvaziadas, de piadas. Mas a garagem ainda está longe. “À saída qualquer uma é costalera!”, diz um ajudante do capataz. “Isso não pesa nada. Isso é uma brincadeira”, anima em seguida. “Já está aí o Domingo de Ramos. Já falta pouco para levarem a Mãe”.

quinta-feira, maio 25, 2006

Costaleras do Amor (3)

A 3ªestação desta via sacra:

Posta a parihuela na rua, as mulheres trazem do fundo da garagem vários tijolos de betão que vão dispondo no cimo da estrutura. Têm que levantar cerca de uma tonelada, o peso que terá o passo em procissão. Cada uma carrega mais de 30 quilos.
Avançam sob as ordens de um capataz, por chicotas, trajectos que raramente ultrapassam os 200 metros. O trabalho é árduo. Meia hora depois da saída o cansaço transparece no rosto das costaleras, as garrafas de água começam a passar de mão em mão. Talvez por isso a formação deste grupo de mulheres tivesse sido tão mal recebida pelas irmandades. “O mundo confrade é muito machista”, afirma o segundo capataz, José Delgado de 33 anos, técnico de ar condicionado. “Mas elas souberam criar um estilo único e conseguiram ser respeitadas”.A fundadora recorda o quanto foram aplaudidas na praça das Tendillas, a Passagem Oficial da Semana Santa em Córdova. “Fomos primeira página do El País e abertura do telejornal”, acrescenta com emoção. Suportou durante 13 anos o peso do passo da Virgem da Encarnação, graças ao pai que se comprometeu a pagar qualquer eventual estrago.
Vários confrades abandonaram a irmandade, e ouviam-se críticas das mulheres à porta de casa: “Vai mas é para casa esfregar os pratos”. Eram as que mais doíam porque o sentimento machista é por vezes responsabilidade do sexo feminino. “Afinal cada homem é educado por uma mulher!”, exclama Rafaela.

quarta-feira, maio 24, 2006

Congo, ano 2000. Gbadolite, casa chinesa

No alto de outra colina, nos arredores de Gbadolite, mais uma obra ao absurdo. É uma área toda murada. Um quadrado, com uma porta larga em cada lado. Cada porta está guarnecida por dois grandes leões de pedra.Lá dentro, é fresco. Caminhamos sobre estrados de teca, por entre um emaranhado vegetal que começou a tomar conta do local. Mas os pavilhões em madeira de cerejeira ainda lá estão, ligados uns aos outros por pontes pedonais feitas de bambu e pau-rosa. Madeira bordada, rendilhada, em relevo, ainda com as cores fortes ao gosto chinês, amarelo torrado, rosa escuro, vermelho vivo, verde claro, azul céu, as cores da loucura de quem tudo queria e tudo podia. A cidadela chinesa de Mobutu, cheia de lagos e cisnes e pavões. Os cisnes e pavões, o povo comeu-os. Os lagos e a piscina pertencem, agora, aos sapos.Mas ainda é possível adivinhar as farras que ali se desenrolaram. Ou se enrolaram… depende da imaginação de cada um.
O custo destes caprichos é difícil de adivinhar. Para erguer o Palácio Gbadolite foram operários portugueses, para a casa de campo foram operários italianos, para esta cidadela chinesa os escolhidos foram... artífices chineses. Mobutu não poupava.

terça-feira, maio 23, 2006

Costaleras do Amor (2)

2ªfatia do texto do Bruno Rascão:

Os ensaios para a Semana Santa começaram a seguir ao dia de Reis. “Mas foi pouco”, lamenta uma habitante do bairro, enquanto espera que as costaleras saiam da confraria para mais um ensaio. “Apanharam muitos dias de chuva”, esclarece. As mulheres começaram a chegar perto da hora marcada, às 21h de sexta-feira. Há quem esteja desde a fundação e quem se estreie este ano. A maioria tem mais de três anos debaixo da parihuela. Chegam a pé, sozinhas ou em pequenos grupos, subindo a praça do Cristo do Amor, iluminada pelos candeeiros de rua. “A minha filha chegou agora de Badajoz, neste carro que aqui estava”, diz uma senhora que passeia o seu cãozinho branco. “Trabalha lá num hospital, e veio para o ensaio. Tem 21 anos”. Perto das 22 horas chega numa scooter amarela outra das confrades. Um blusão preto protege-a da brisa da noite. Entra pela porta da confraria, com um ar apressado, até à sala onde se reúnem as mulheres antes dos ensaios. O ambiente é de boa disposição. No meio da névoa dos muitos cigarros que se fumam na sala, contam-se piadas, enrola-se o costal no chão, comentam-se pormenores sobre a saída de 9 de Abril, Domingo de Ramos. Num canto duas costaleras puxam uma faixa, enquanto outra a vai enrolando à volta da zona lombar, de forma a que fique muito justa. No total são 64, mas é raro que compareçam todas em tempo de ensaios. A maioria anda na casa dos 20 anos. Umas mais fortes outras aparentemente frágeis. Vestem roupa desportiva, camisolas do Barcelona ou de outros clubes, mas também jeans e camisolas largas. Algumas têm piercings, no lábio ou no nariz. Uma mistura heterogénea de mulheres, que por tradição, curiosidade, promessa, devoção, se encontram debaixo de uma trave que lhes assenta no pescoço durante muitas horas por ano.Aida Herdia, de 20 anos, começou a carregar passos aos 15, em equipas mistas, na Ciudad Real onde nasceu. Queria experimentar, “saber o que se sentia em penitência debaixo de uma imagem”. Está no exército desde Outubro de 2005, e foi recentemente transferida para Córdova. “Queria mudar de ares”, e estar mais perto da irmandade. Pertencer a confrarias significa, para ela, uma maneira de expressar a devoção e penitência a Deus, no quotidiano. “É a forma de levar a minha cruz”. Confessa que a música que mais mexe com ela é a das bandas da Semana Santa. Sempre marcada pelo ritmo dos tambores e pela melodia das cornetas, num andamento de inspiração militar.
(continua)

segunda-feira, maio 22, 2006

Congo, ano 2000. Gbadolite, La Chapelle

No séquito de Mobuto devia haver um padre católico. O ditador pretendia ser um homem religioso e, ao mesmo tempo, moderno. Rejeitou as feitiçarias e os deuses animistas. Juntou-se aos católicos e mandou erguer igrejas por todo o Zaire. A Igreja aproveitou essa liberdade de acção. Povoou o Zaire com missões católicas e começou a competir com a forte influência muçulmana. No Zaire até se criou um rito próprio para a celebração das missas católicas. O rito zairense, assim se chama, está reconhecido pelo Vaticano e, hoje, todos os missionários brancos em África o adoptam. O rito zairense transforma a solenidade da missa numa festa com danças e batuques. A celebração é longa. Cheguei a assistir a missas que duraram mais de três horas. De tal modo que a meio, o padre celebrante era rendido por outro. Em Gbadolite, claro, também há uma igreja. Chama-se simplesmente La Chapelle (a capela). La Chapelle fica num dos extremos da enorme propriedade onde Mobutu tinha a sua residência particular. La Chapelle é, de facto, uma catedral imensa, com uma abóbada que sobe a mais de 30 metros de altura, vitrais coloridos e uma imensa plateia com várias centenas de lugares. Ao centro, um altar. Num dos cantos da La Chapelle, uma escada desce para uma cave espaçosa onde está o mausoléu familiar. Apenas um corpo ali foi depositado, o da mãe de Mobutu. Os outros foram morrer longe, levados pelo vento da História.

domingo, maio 21, 2006

Os neo-cons de Dom Sebastião

Eis uma analogia muito interessante entre Dom Sebastião e George W.Bush (o artigo completo está aqui):

"Modern history is full of governments rushing into disastrous wars. However we have to go back to Portugal's 1578 invasion of Morocco for the closest analog to Bush invading Iraq. King Sebastian was three when he came to the throne. Educated by fanatic Jesuits, he grew up with a passion for a crusade against Morocco. Advisors inherited from his father opposed him. Portugal had a lot on its hands in Brazil and the East Indies. But the more they argued against it, the more he surrounded himself with mad monks who thought a crusade was a terrific idea.
Sebastian and 40,000 troops sailed away. Six, not 6,000, came back, none named Sebastian. The kingdom collapsed. In 1580 Spain marched in. Portugal literally disappeared from the map until 1640 when a nobles' revolt regained independence. The Jesuits and monks were Sebastian's neo-cons. Without them, no crusade. But he was king. He went to war, not them. If he wasn't crazy, he would have listened to dad's staff.
"Over-determined" is the historians' term for such phenomena. The neo-cons are Bush's monks. But he was President. If he wasn't as demented as Sebastian he wouldn't have listen to them."

Para quem não sabe inglês, a tradução:
A História Moderna está cheia de exemplos de governos que se metem em guerras desastrosas.Contudo, temos de regressar à invasão portuguesa de Marrocos em 1578 para encontrarmos uma analogia perfeita com a invasão americana do Iraque. O rei Sebastião tinha três anos quando subiu ao trono. Educado por Jesuítas fanáticos, cresceu com a ideia de combater numa cruzada contra Marrocos. Os conselheiros herdados do tempo do pai não concordavam com isso. Portugal já tinha muito com que se preocupar no Brazil e nas Índias Orientais. Mas quanto mais o assunto era discutido, mais o rei se rodeava de monges adeptos das cruzadas pela fé.
Sebastião partiu com 40 mil soldados. Apenas seis regressaram. Nenhum se chamava Sebastião. O reino colapsou. Em 1580 a Espanha anexou-o. Portugal desapareceu do mapa até 1640 quando a independência foi reconquistada numa revolta da nobreza. Os jesuítas e os monges eram os neo-cons de Sebastião. Se não fossem eles, não teria havido cruzada. Mas ele era o rei, a responsabilidade da guerra foi dele, não dos conselheiros. Se não fosse a sua loucura, teria dado ouvido aos conselheiros do pai. "Demasiado comprometido" é o termo que os historiadores utilizam para classificar este tipo de atitude. Os neo-cons são os monges de Bush. Mas ele é o presidente. Se Bush não fosse tão louco quanto Sebastião, não lhes teria dado ouvidos.

Costaleras do Amor (1)

Conheci o Bruno Rascão no aeroporto de Lisboa, a caminho de Dacar. Ele e o Pedro Rosa Mendes, mais o Carlos Aranha, foram os meus companheiros nas primeiras aventuras da guerra da Guiné.
O Bruno é um excelente repórter fotográfico, mas nem por isso conseguiu trabalhar em Portugal. Ou temos muitos repórteres excelentes ou a excelência não é factor decisivo no recrutamento de jornalistas em Portugal.
É assim que o Bruno está a viver em Espanha. E foi de lá que me enviou um email com um texto sobre uma das suas últimas reportagens, no caso sobre uma estranha tradição religiosa de Córdoba, em Espanha. As fotografias desse trabalho estão neste site (procurem em All Stories, Las Costaleras). O texto, com a devida vénia ao Bruno Rascão, vou passá-lo aqui. Fatiado, para evitar o cansaço de uma leitura mais longa que a aconselhada para um blog.
Aqui têm a primeira fatia...

Nas traseiras da igreja o capataz abre uma pequena garagem. Um buraco grande e sem luz. Javier Perez faz girar uma porta basculante. Lá dentro, está uma estrutura em ferro, de tom avermelhado, da qual saem quatro pés. Cá fora, mais de 40 mulheres, de diversas idades, aproximam-se com o costal na cabeça, tecido grosso dobrado em forma de saco. “Vamos a isto”, diz o capataz às costaleras: “Lá para dentro, e a rezar”.
Aquela estrutura, em forma de mesa, ocupa por inteiro a garagem. Chama-se mesa ou parihuela, objecto que o capataz há-de conduzir ao longo do bairro do Cerro, em Córdova; e as mulheres suster durante o ensaio de quase quatro horas numa tarde quente de Março. Dez metros quadrados que servirão de palco à Virgem da Encarnação no Domingo de Ramos. De modo informal a pequena multidão começa a murmurar as orações. Debaixo distribuem-se 30 mulheres, em grupos de cinco, ao longo de seis traves. Estão prontas a erguer a parihuela, que no dia de penitência, com a imagem em cima, se chama passo. Os primeiros costaleros eram profissionais, homens de faina que carregavam os produtos nos mercados grossistas. Utilizavam o costal, na época um saco de serapilheira posto na cabeça para amortecer o peso que carregavam às costas. A troco de um soldo saíam às ruas nas exuberantes procissões da Semana Santa andaluza, debaixo dos passos com imagens das paróquias. A Virgem da Encarnação não escapava à regra. Chegou ao Cerro em 1981, um bairro de operários de classe baixa, e passou a acompanhar o Cristo do Amor, que dá nome à irmandade. De perto seguiam-na, entre os nazarenos (penitentes com um capuz em cone a cobrir o rosto), um grupo de mulheres. Rafaela Vasquez, 47 anos, ex-empresária, era uma delas e o pai Hermano Maior, ou director da confraria. Por vontade da filha, deixou que formasse um grupo de costaleras, pioneiro em Espanha. O objectivo era substituir os profissionais. Em 1986, depois de três anos de ensaios e um troço do percurso no Domingo de Ramos de 1985, passaram a ser as portadoras do passo da Encarnação.
(continua)

sábado, maio 20, 2006

Congo, ano 2000. A palhota

Numa outra colina, fora da cidade, fica a residência particular de Mobutu.
Quem pilhou, não deixou ficar nada. Mas ainda dá para ver o requinte das instalações.
Recordo que fiquei fascinado com uma das casas-de-banho.Sempre gostei delas grandes… e uma das casas de banho tinha mais de 250 metros quadrados, uma imensa frente envidraçada para a piscina. Mobutu podia estar no jacuzzi e apreciar as suas convidadas estiraçadas na borda da piscina ou nadando. Ou vice-versa. Ou na banheira com hidromassagem… A piscina, profunda, em forma de gota.A casa, hoje, está ocupada por militares e respectivas famílias. Não foi possível meter o nariz em todas as divisões. As paredes exteriores da casa estão pintadas com frescos enormes, com figuras africanas que não sei identificar.Mas pareceram-me representações da vida familiar de gente comum. O que não deixa de ser estranho, para um ditador tão megalómano.

sexta-feira, maio 19, 2006

A alegria do povo não é o ópio de toda a gente

Carta de um amigo (homónimo):

Carlos,
As minhas férias deste ano têm início na próxima sexta-feira e serão passadas bem longe de Portugal, por razões ponderosas (esta não é uma forma bonançosa de sugerir que as passarei no rancho da família Cartwright).
Na realidade, estou em fuga. E aproveito para comunicar esse facto a todas as autoridades interessadas. Podem facilmente interceptar esta comunicação. Estou em fuga ao grande massacre. Não aguento mais "informação" sobre o mundial de futebol. Estou a ficar maluco com os fãs, as opiniões dos fãs, os bitaites dos comentadores, dos treinadores, dos ex-jogadores, estou deseperado com o país de professores marcelos que de repente começou a atacar. Mais as "reportagens" sobre os casais do futebol e do showbizz, as mulheres e namoradas dos craques, as ex-mulheres e as promitentes namoradas dos craques, as ex-mulheres e as ex-namoradas dos presidentes ou as ex-mulheres e ex-namoradas dos ex-presidentes. E os anúncios da selecção, que já nos vende gás natural, gasolina e gasóleo, tudo de primeira, cervejas, iogurtes, contas bancárias e seguros, tudo do mais saudável que há, cadeias de supermercados e a Casa do Gil, tudo do melhor, como o "kunami" do Gato Fedorento, e até, o eterno copyright da camisola do Eusébio-66, na versão "tenho-uma-lágrima-no-canto-do-olho". Mas muito mais há ainda para vender, incluindo a alma ao diabo. Até nos convencerem de vez, e sem margem para contraditório, que os portugas do país Scolari, de bandeirinha à janela, somos definitivamente os maiores. Uma das sopinhas de letras "simple minded" das musiquetas nacionalistas que já se ouvem por todo o lado, garante mesmo que "nós unidos, jamais seremos vencidos".
Ora aí está um pensamento original e com bastas provas dadas. Capaz de legitimar a ideia de que "quer se possa ou se não possa, a vitória será nossa" ( tal como reza o hino do Sporting, o meu clube) .
A meu ver, este mundial é de todo desnecessário. Já ganhámos, já somos os gloriosos e imbatíveis campeões mundiais da futebolite parola. Por isso, não estarei cá para apoiar a enorme causa. Temos voluntários de sobra para gramarem o grande massacre.
Um abraço ! Até ao meu regresso !
Carlos

quinta-feira, maio 18, 2006

Congo, ano 2000. Le Palais Gbadolite

O defunto ditador, Mobutu Sese Seko, tinha um carinho especial por Gbadolite, uma pequena cidade encostada à fronteira norte do Zaire, a fronteira com a República Centro-Africana. Compreende-se, era a sua terra natal. Fez da aldeia uma cidade. Dotou-a de estruturas que poucas cidades no Mundo se podem gabar de ter. Exemplos? Um aeroporto capaz de albergar o Concorde, com uma pista com 4 quilómetros de comprimento e uma gare modernaça, toda envidraçada, com free-shops e tudo. Além disso, Gbadolite tem uma central de energia eléctrica produzida pela força da corrente do rio Congo. O rio ali corre com força, como podem ver nestas fotos aqui, e a central trabalha ininterruptamente em automático até que alguma peça se parta e a engrenagem paralise. Enquanto isso não acontecer, Gbadolite tem luz eléctrica e de borla. Mas, além disto tudo, Mobutu tinha uma casa ali. Mandou construir uma catedral e um palácio e, ainda, uma cidadela chinesa… vou mostrar isso tudo. Começo pelo palácio. Três pisos de salões imponentes e terraços rasgados para vários hectares de jardins decorados com estatuetas e repuxos iluminados de noite por lâmpadas multicores. Do jardim, sobram alguns arbustos finalmente libertos da tesoura dos jardineiros, mas quase tudo foi já engolido pelo mato. Lá dentro, já desapareceu a mobília estilo Luís XIV, os lustres, as torneiras em ouro, as chaise-long, levaram tudo menos as paredes e as mesas de 20 metros de comprimento, feitas de mármore alentejano e tão pesadas que ninguém se atreveu a roubá-las. Mobutu teve o prazer de mandar construir o Palais Gbadolite. Kabila deixou que fosse pilhado e destruído. Jean Pierre Bemba nunca soube o que fazer dessa herança.
Mobutu esteve aqui, pela última vez, em 16 de Maio de 1997, na véspera da entrada de Kabila em Kinshasa.Deve ter andado por estes salões, talvez tenha celebrado a sua última ceia com os fiéis numa daquelas mesas de pedra alentejana. Daqui seguiu para o aeroporto, onde nunca nenhum Concorde aterrou, a caminho do exílio no Togo e, mais tarde, em Marrocos. Uma memória que vai desaparecendo. O tempo deitará abaixo o símbolo de tanta vaidade.

quarta-feira, maio 17, 2006

O Brasil em guerra

A vaga de atentados contra a polícia e as estruturas do estado no Brasil tomou proporções alarmantes. Claro que mesmo numa cidade como São Paulo, onde só ali vive o dobro da população de Portugal inteiro, a morte violenta de 130 ou 140 pessoas não deixa de constituir um facto assustador.

manchete do Diário de Notícias, ontem

Mas o que mais assusta, penso eu, é o desafio das organizações criminosas que não hesitam em iniciar uma guerra contra o estado. O que também assusta muito é a percepção de que há franjas da sociedade que estão dispostas a tudo, como se nada tivessem a perder. Atacam, só pensam em matar, dedicam-se à vingança, como se também quisessem morrer vendendo caro a sua morte. É uma espécie de suicídio, a não ser que os tipos que se meteram nisto pensem que têm alguma hipótese de derrotarem o Estado. Mas, depois disto, ninguém espere que a polícia brasileira tenha respeito pelos direitos dos que lhes caírem nas mãos.

favela Rosinha, Rio de Janeiro

O crime no Brasil há muito que é um fenómeno bastante visível. Nos anos 80, na minha primeira viagem ao Rio de Janeiro, lembro-me de ter lido nos jornais cariocas que, só no Rio, a média diária de vítimas mortais do crime era superior à média de mortes da guerra do Vietname. E, algumas noites, da janela do quarto do hotel em Copacabana, que em vez de dar para o mar dava para uns morros, lembro-me de ver o risco característico das balas tracejantes, em batalhas de um morro contra outro pelo controlo das bocas de fumo e de zonas de prostituição.

Os Nuba

As fotografias e o testemunho de António Cores, um espanhol que também andou pelas Montanhas Nuba.

terça-feira, maio 16, 2006

Carimbo = Poder

Testemunhei várias situações em que entidades não-estatais desempenhavam o papel do Estado. Quase sempre grupos rebeldes, mas nem sempre. Na Bósnia, por exemplo, foi um soldado norueguês quem me carimbou a vermelho no passaporte MAYBE AIRLINES.
Uma espécie de recuerdo que eles impunham a todos que chegavam a Sarajevo a bordo dos aviões militares. Na primeira vez que entrei no Sudão, tive de pedir um passepartout ao SPLA, Exército de Libertação dos Povos do Sudão. A “embaixada” funcionava em Nairobi, no Quénia, na sede de uma ONG que alegadamente tratava de ajuda humanitária nas zonas controladas pelos rebeldes sudaneses. Duas fotografias e um impresso em duplicado, tal qual nas representações oficiais dos Estados. O documento que vos mostro autorizava-me a viajar nas Montanhas Nuba, no Kordofan sul, por um período de três semanas a partir de 19 de Março de 99. Um carimbo azul e outro vermelho certificam o documento e oficializam a autorização. Estes rituais têm dois propósitos: arrecadar receitas e, principalmente, exercitar poder. Depois de emitidos, normalmente nunca nos pedem para exibir tais documentos. Talvez porque sem eles não poderíamos estar ali e porque a maioria das pessoas que nos poderiam pedir para ver a autorização não sabe ler.

segunda-feira, maio 15, 2006

Congo, ano 2000. A travessia

Correu tudo como mister John tinha dito. A travessia do rio Congo foi qualquer coisa de inesquecível. A canoa passou junto aos rápidos, como podem ver na fotografia. Por alguma razão da dinâmica das águas que desconheço em absoluto, perto da cachoeira a corrente tem menos força. Como também se pode ver nas fotografias, houve uma ponte projectada para aquele sítio, que se tivesse sido construída evitaria aquela trabalheira. Mas, contaram-me, Mobutu desistiu da ideia a meio da construção porque, subitamente, temeu que a ponte facilitasse a invasão do Zaire por algum inimigo. De modo que ficaram os pilares… Os homens da canoa que nos foram buscar à margem da República Centro Africana eram já elementos do MLC, homens de Jean Pierre Bemba. Na margem congolesa tivemos de cumprir todos os rituais alfandegários. O MLC exercia, de facto, a administração pública do território e não brincava em serviço. Até nos carimbaram os passaportes, como faz um Estado a sério.

domingo, maio 14, 2006

Guiné Bissau, guerra civil. O bilhetinho

Outro bilhetinho amarrotado encontrado no mesmo saco de plástico.
São papelitos tipo post it, daqueles que se colam na porta do frigorífico.
Diz a anotação que em 13 de Fevereiro de 99, o número de refugiados da guerra era de 45877 pessoas, em Safim (que fica relativamente perto de Bissau). E que cada uma dessas pessoas recebeu 3 kg de arroz, 1 litro de óleo, 1 kg de ervilhas, 1 kg de farinha de trigo e que cada agregado familiar recebeu 5 barras de sabão amarelo, até 11 de Fevereiro. Nova distribuição foi realizada dia 12, mas apenas de meio litro de óleo e 2 kg de farinha de trigo por pessoa.
Nada de carne, nada de peixe, nem uma gota de leite. Não sei quem me deu estas folhas de papel, não me lembro, mas pela caligrafia deve ter sido uma mulher. Lembro-me da fila de centenas de outras mulheres e de crianças em frente à capela de Nhacra, em horas de espera ao sol e dos atropelos quando a distribuição começava. Era a ânsia, o medo de que a ração acabasse antes de terem recebido o quinhão prometido. Porque havia sempre alguém que ficava de mãos vazias.

sábado, maio 13, 2006

Congo, ano 2000. mister John

De todos os candidatos presidenciais que vão a votos, no próximo mês, no Congo, apenas conheço um: Jean Pierre Bemba, dirigente do MLC - Mouvement de Libération du Congo. Bemba (0 senhor alto da foto, em cima) foi um dos War Lords que dividiram o Congo e disputaram entre si as riquezas do país.
As negociações que levaram ao fim da guerra e à formação de um governo de transicção, colocaram Bemba na vice-presidência do Congo e, agora, na luta pela presidência.
Se lerem os textos antigos que já publiquei aqui, poderão ficar a conhecer um pouco este personagem.
Mas, a partir de hoje, retomo o tema “Congo e Bemba”. Há muito para contar, ainda.
Começo por relatar como cheguei até Bemba. O que eu queria, mesmo, era entrar no Congo e chegar a Bondo, na província Equatorial, no norte do país. A minha tarefa era fazer um documentário sobre a vida dos “missionário da linha da frente” do cristianismo, aqueles homens e mulheres que a Igreja Católica envia para as zonas mais inóspitas do planeta, com a missão de evangelizar os povos.
Primeiro, tentei um percurso a partir do Quénia, indo até ao Uganda ou ao Rwanda e usar uma dessas fronteiras. Mas a guerra não deixou. Os combates no leste do Congo impediam-me de tentar sequer a travessia por aí. De modo que fui de Nairobi para Bangui, na República Centro Africana e aí tentei atravessar a fronteira. Mas, para isso, precisava de ter autorização dos rebeldes, do outro lado do Rio Congo.
O Cônsul português em Bangui, um senhor que dirige um supermercado, aconselhou-me a ir até à embaixada dos EUA e pedir para “falar com Mr.John”. Deu-me um número de telefone, para onde liguei. Atendeu-me o tal senhor John. Combinámos um encontro, em plena via pública, para dali a uma hora. Conversámos sobre o que queria eu fazer no Congo… ele ouviu e depois disse para voltar a telefonar-lhe no dia seguinte. Foi então que me deu as seguintes instruções. Teria de alugar um avião e ir até Mobaye. Aí estaria um carro à minha espera que me levaria até ao rio, onde estaria uma canoa para me levar até ao outro lado, onde estaria alguém à minha espera e então seria levado até Gbadolite onde iria ter oportunidade de falar com Bemba e pedir-lhe o que quisesse. E não é que correu tudo conforme mister John disse?

sexta-feira, maio 12, 2006

Hanan, mais uma vez

É uma mulher de cara destapada. O Mundo descobriu-a em 1988, quando participou num debate televisivo sobre o processo de paz do Médio Oriente. De um lado estavam quatro palestinianos, entre eles Hanan Ashrawi, do outro lado quatro israelitas. A capacidade argumentativa que revelou, o raciocínio ágil, o brilhozinho nos olhos, transformaram uma professora numa tremenda activista política. Encontrei-a em Ramallah, em 89 e em 1991 em Lisboa. Foi aqui que a entrevistei longamente para o Jornal das 9 do Canal 2 da RTP. Longamente, porque me deixei enfeitiçar pelas palavras e pelo olhar escuro desta mulher. De facto, utilizei três ou quatro minutos úteis para o trabalho exibido nesse jornal televisivo. Mas não fui capaz de prescindir do privilégio de estar ali com ela e poder aprender com ela.
Hanan Ashrawi tinha um discurso muito humano, democrático, inatacável. Falava em direitos humanos e políticos para todos os povos do Médio Oriente e rejeitava, absolutamente, o poder da força que sustentava a repressão israelita. Era até um discurso algo deslocado da praxis da OLP. Por alguma razão, Hanan Ashrawi acabou por ser afastada dos cargos que desempenhava (em 91, ela era porta-voz da delegação da OLP nas negociações de paz). Tal como a convidou, Arafat também a despediu…
Guardei dela a consciência de estar perante uma mulher muito corajosa, que arriscava muito naquele jogo de homens armados.

quinta-feira, maio 11, 2006

Santo Nyerere

«Desejaria acender uma vela e colocá-la no topo do monte Kilimanjaro para que iluminasse até mais além de nossas fronteiras, dando esperança aos que estão desesperados, pondo amor onde há ódio e dignidade onde há humilhação». O homem que disse isto, está prestes a ser canonizado, segundo uma notícia que li na revista dos missionários combonianos.

na foto, Julius Nyerere com Gabriel Garcia Marquez

Confesso ignorância total e completa sobre os requisitos para se ser considerado santo pela Igreja Católica mas, julgo, será necessário ter feito algum milagre. E, sendo assim, ainda mais me intriga que Julius Nyerere venha a ser canonizado. É que nunca ouvi falar de nenhum presidente africano… milagreiro. A não ser que se considere que não ter ficado agarrado ao poder, ter abdicado de livre vontade, ter tentado promover uma política de desenvolvimento sustentável, seja milagre. Se for isso, acho que há mais um na calha… quase pelas mesmas razões, Nelson Mandela. Mas não sei se Mandela é religioso…
Julius Nyerere morreu em 1999, com leucemia. O povo da Tanzânia chamava-lhe Mwalimu.
Irónico é que, se Nyerere chegar a Santo da Igreja Católica, deve ser o primeiro santo a que muitos chamaram de comunista, tal como consta na Marxists Internet Archive Photo Gallery.

Guiné Bissau, guerra civil. O sobrevivente

Meus amigos, quando a vida vos correr mal, quando parecer que tudo está perdido, quando a derrota vos parecer incomensurável, quando já só o desespero vos alumiar o olhar, venham aqui, a este texto, olhar para a foto e beber do exemplo deste homem amarrado, levado sob armas para uma cadeia escura e suja. Baciro Dabó era o home forte da segurança do estado guineense, em 1999. Foi um homem fiel até ao fim a Nino Vieira. No dia 7 de Maio de 1999 não conseguiu escapar aos inimigos e foi apanhado e encarcerado. Baciro era justamente acusado pela Junta Militar de ser um dos principais torturadores da ditadura de Nino Vieira que, então, acabava de ser deposto. Poucos dariam um chavo pela sua vida, naquela altura. De resto, era uma espécie de “mal de família”, já que o irmão de Baciro, Iaia Dabó também estava preso e em maus lençóis, acusado de roubo, assassínios e violações. Iaia tinha sido apanhado no mato, nos arredores de Bissau, quando comandava um pelotão de combate que se dedicava a pilhar as aldeias da vizinhança de Cumura, Cumeré e Nhacra . Fui, um dia, visitá-lo à cadeia da base aérea, onde ele ocupava uma pequena cela de cimento que nem latrina tinha… Mas, Baciro (o mais velho dos dois irmãos), passou alguns meses encarcerado embora, na verdade, nunca tenha sido julgado. Quando Kumba Yala venceu as eleições para a presidência da república, recuperou Baciro Dabó. Saiu da prisão para reocupar o lugar que tão bem conhece na segurança do estado. Hoje, o homem de mãos amarradas atrás das costas é secretário de estado da Ordem Pública, o boss das polícias guineenses. Realmente, a vida dá muitas voltas…

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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