
O percurso por Angola tinha começado mal. Não foi difícil perceber que não éramos bem-vindos, logo que nos colaram à pele um homem do Centro de Imprensa, alegadamente um jornalista, mas, de facto, um funcionário da Segurança de Estado, cuja missão era, apenas, evitar que falássemos com quem não devíamos, evitar que víssemos o que não era conveniente. O tipo gravava as nossas conversas e as entrevistas que fazíamos. Trabalhámos, assim, sempre sob uma enorme pressão e sempre com mil cuidados, para evitar que outras pessoas viessem a ter problemas só pelo facto de as termos abordado… só para resolver problemas burocráticos, autorizações para filmar, gastámos quase um mês em reuniões com políticos e generais, em gasosas a funcionários facilitadores, enfim... o costume.
Depois de Luanda, fomos para o Namibe, num voo militar. Quando aterrámos, cruzamo-nos com algumas dezenas de feridos, amputados, que esperavam na pista a hora de embarcarem para Luanda. Não fomos autorizados a filmar…
Da cidade do Namibe fomos integrados numa coluna militar que ia para Lubango. Era um trajecto perigoso, subindo a Serra da Leba, depois do deserto.

deserto do Namibe
A UNITA atacava com frequência naquela estrada e havia vários locais propícios a emboscadas, principalmente depois da estrada deixar o deserto e entrar na subida da montanha. Foram 200 e tal quilómetros feitos muito devagar…
Serra da Leba
A meio desse trajecto, tínhamos de fazer um desvio e seguir fora da estrada rumo à fazenda onde trabalhava um casal português que iríamos entrevistar.
Nessa picada, de repente, surgiram uns homens semi-nús, armados de lanças e arco e fechas. A coluna militar parou. Começou uma discussão de surdos. Os soldados daquela coluna militar não falavam dialecto dos bosquímanos. Estes só falavam o seu dialecto. Uns queriam continuar caminho. Outros não deixavam. Às tantas, os soldados começaram a meter a bala na câmara… o som do engatilhar a arma não é confundível.
Os bosquímanos retesaram os músculos… o desastre estava iminente quando, inesperadamente, aparece o português de quem íamos à procura. Tinha sido alertado para o que estava ali prestes a acontecer. E foi o branco, que falava o dialecto, quem serviu de intérprete e mediador do conflito. Afinal, os bosquímanos só queriam que alguém lhes pedisse autorização por estarmos a atravessar o seu território. Era uma questão de soberania…

9 comentários:
Não conheço Angola. O mesmo não posso dizer de Moçambique, onde cresci e vivi alguns anos da minha melhor vida. África encanta-me, fascina-me. Por isso gosto imenso destas suas crónicas e das fotografias.
Beijinhos
Até amanhã
Encontros raros! Fabuloso, dava tudo para assistir a essa cena.
Não conheço África a não ser pelos livros, televisão... no entanto nunca a havia sentido tão próxima como aqui nestes relatos. Adorei!
Passei por aqui, outra vêz, para matar saudades da terra e ler quem sabe.
Ab
'Convivi' com eles! São gente fascinante que nunca entenderemos; de resto, como muito do que se passa na 'África profunda' (uma designação lixada!...)
Isto é tudo para ajudar a dizer como a sua história levanta a ponta do véu.
Isto me fez lembrar as barreiras que a Unita montava(1975/1976) nas picadas do Bié, onde tìnhamos que mostrar a carteirinha de filiados(que eu possuo até hoje).Falar umbundo também agilizava a liberação. Em seguida escondìamos a carteirinha, porque poderíamos ser surpreendidos logo a seguir por uma brigada de fiscalização do MPLA.
Dulce
Dulce
Fico satisfeito por ter despertado a memória deste indicente - que revela, para além de aspectos importantes da realidade demográfica der Angola - que o MPLA (assim como todas as outras forças que usaram armas como argumentos políticos)nunca esteve muito interessado em conhecer o povo que diz ter libertado.
É extraordinário como o entendimento ou, neste caso, a falta dele, pode decidir entre continuar o nosso caminho ou ficar estendido com uma bala na cabeça. Suspeito que não teria "ovários" para aguentar os desafios que descreve ...
Só conheço Angola através dos relatos da minha avó e do meu pai, que nasceu lá. Mas ler as suas crónicas, é voltar a ouvi-los de olhos distantes na memória e nas grandes terras angolanas e com um sorriso de saudade. Obrigada!
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